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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
O ”CAUSO” DAS ARANHAS MALDITAS
Já confessei aqui minha aversão por aranhas. Cobra, sapo, escorpião, rato, lacraias, marimbondos e vespas, nada disso me causa qualquer reação que mereça ser digna de nota. Mas, aranhas... Por isso vou lhes contar um “causo” verídico de minha vida profissional, pois envolve justamente aranhas. Aranhas das boas, daquelas cabeludas e enormes que, de tão grandes, receberam o nome popular de caranguejeras, quer dizer, do tamanho de caranguejos! Pois bem, esse causo serviu para mostrar que não sou eu o único fariseu a temer as malditas aranhas. Tá bom, vai, reconheço o importantíssimo papel que as aranhas desempenham na Natureza, que são exímias e necessárias caçadoras de insetos, etc, etc, etc. Mas, há aranhas e aranhas. Há as pititicas chamadas de papa-moscas e que nos ajudam a combater pequenos insetos dentro de casa; há outras que habitam nossos jardins e fazem suas teias nos beirais das casas; há uma infinidade de outras aranhas, mas todas estão por aí nas matas e em qualquer outro tipo de ambiente no mundo inteiro. OK, mas acontece que tem as danadas caranguejeras que só servem para surgir nos nossos pesadelos quando menos se espera! E também para figurar em filmes de terror, com destaque! Certa vez, minha empresa controladora de pragas (abri, curti e fechei em um espaço de 20 anos) foi chamada para resolver uma situação, para mim, arrepiante: uma infestação de caranguejeras em uma casa de campo que era utilizada de tempos em tempos por seus proprietários. Atendi pessoalmente esse caso (aliás, como de praxe) e marquei com o proprietário uma visita de inspeção à casa infestada. Eu precisava avaliar onde, como e o grau de infestação antes de qualquer ação de controle; peguei meu operador mais safo e lá fui eu entre preocupado e intrigado. O dono da casa estava nos esperando conforme o combinado e nas perguntas iniciais já percebi algumas coisas: de fato a casa deveria estar bem infestada, nos últimos dois anos a família só veio à casa duas vezes e na derradeira foram embora no meio da noite porque a filha mais velha foi fazer uma visitinha à geladeira e, bem no meio da cozinha, uma caranguejera estava à caça; a filha gritou (sabe aquele grito de terror que usam nos filmes do mesmo gênero? Pois foi em altíssimos decibéis que a garota anunciou seu aterrorizante achado). Disse o proprietário que a menina pulou para cima do sofá na sala e apanhou uma almofada para se proteger; junto, veio outra caranguejera! Oh, dia; oh, mês... (como há muito tempo atrás se queixava Hardy Har Har, a hiena amiga da tartaruga Touché – já não se faz desenhos animados tão bons como aqueles!). 15 minutos depois, se tanto, a família (sem esquecer o Totó, o cãozinho poodle mais covarde daquele grupo social) já estava dentro do carro e foi dormir em uma pousada próxima. O bravo pai transferiu as férias para outras paragens e foi providenciar a solução para o aterrorizante problema, chamando uma empresa controladora de pragas que, nos contou o proprietário, não deu nada certo. Isso posto, lá fomos nós, o proprietário, o caseiro, meu operador safo e este temente a Deus que vos tecla, em busca das origens da questão. Onde estariam as caranguejeras e por que ali estavam! Procura daqui, procura dali e nada. Explicável: era de dia e elas, as malditas, não estavam caçando. Insistimos e finalmente meu esperto operador encontrou um exemplar entocado numa pilha de lenha cortada de forma bem comportada ao lado da lareira aguardando o próximo inverno. O Proprietário nem disfarçou: rapidamente tomou o último lugar na fila, enquanto explicava que tinha aversão a aranhas, torcendo as mãos. Com ares de entendido (assim esperavam todos) fui espiar a bandida. Meus amigos... deveria ser a mãe de todas as caranguejeras, pois nunca vi uma que fosse tão grande e tão cabeluda! Eu olhava para ela e ela olhava para mim com seus “trocentos” olhos negros, suas quelíceras ameaçadoras. Por aí já percebi que eu estava em desvantagem. Em um movimento de defesa, ergueu a parte dianteira do corpo e estendeu seu primeiro par de patas para o alto em posição de ataque. E eu na frente do grupo! Que situação. A essa altura não vi mais o dono da casa que rapidamente sumiu sem dar satisfações. Covardão! Eu, pelo menos, não tinha arrepiado carreira e aguentei firme a provação. Puseram a pérfida dentro de um jarro de maionese vazio e continuamos a procurar. Deveria haver muitas mais e precisávamos descobrir se haveria um local de concentração ou talvez um ou mais ninhos, já que as caranguejeras não tecem teias elaboradas. Nada encontrando por ali, resolvemos inspecionar o sótão. Essas casas de campo quando rústicas, frequentemente têm sótão onde as famílias guardam tranqueiras em geral, daí nossas suspeitas. Em uma maldita fila indiana (única maneira de se entrar em um sótão) subimos a estreita escada e, sem outra alternativa, abri o alçapão e corajosamente (mas com a boca completamente seca, me lembro) adentrei ao terrificante sótão, apenas armado com uma potente lanterna de meu uso pessoal (uma possante MagLite de seis pilhas). Entrei e aguardei a entrada da brigada ligeira, porque não sou bobo, nem nada. O ambiente era mais ou menos o que eu esperava: muita tranqueira, muito traste, uma grossa camada de pó e incontáveis pontos onde as malditas pudessem estar aninhadas. Sim, a essa altura o proprietário que sempre discretamente se posicionava atrás da fila, estava suando em bicas e estava ofegante, com um lanternão enorme na mão, manejado nervosamente; comentava que a primeira coisa que iria providenciar naquele sótão era instalar iluminação e fazer a maior fogueira que a vizinhança já tinha visto, com toda aquela tranqueira ali acumulada por décadas. Confessou ele que nunca havia subido ao sótão desde que compara a casa havia cerca de dez ou quinze anos atrás. Por azar, por “caipora” como se diz no interior, por acidente, por acaso de destino, pela célebre Lei de Murphy ou por qualquer outra razão, de repente ocorreu um fato muito estranho. A tranqueira era tanta que para caminharmos, tínhamos que remover de nossa frente, aqui ou ali, certos trastes que bloqueavam nosso caminho. Pois não é que o dono ao remover um velho almofadão empoeirado, se deparou com uma colônia de caranguejeras de diferentes tamanhos que, instintivamente se pôs em posição de defesa. Não cheguei a vê-las claramente e nem esperei por ângulos mais fotogênicos, mas enquanto eu numa fração de segundo buscava com os olhos o caminho mais reto e curto para sair dali, o proprietário da casa soltou um valente berro que deve ter assustado até as aranhas, pois elas ficaram imóveis (claro, os conhecimentos sobre a biologia das aranhas explicam tudo isso que falo, mas, naquele momento... vocês me desculpem!). Pois o proprietário atravessou o espaço que ia dar na claraboia em um piscar de olhos, antes que o eco do berro que ele havia dado terminasse. Literalmente jogou-se pela estreita escada abaixo, saiu correndo da sala onde a claraboia ficava, espaventou-se da casa e foi para uns 30 ou 40 metros de distância no jardim. Desci a escada e dali comecei a dar instruções ao meu esperto operador de como faríamos para tentar remover o maior número possível de aranhas daquele sótão. De que essas caranguejeras estava se alimentando no sótão? A casa, construída em estilo rústico, tinha um forro (laje) e um telhado imitando palha, vazado, por onde o ar circulava. Morcegos e pássaros também ali faziam seus ninhos. Um banquete permanente para as pérfidas caranguejeras! Fingindo que eu nem havia observado a estratégica retirada do proprietário da casa, fui procurá-lo para as necessárias explicações técnicas, etc. Enquanto eu raciocinava maneiras de abordar e resolver o problema, calculando mentalmente os parâmetros dos valores para o serviço, fiquei de ouvidos moucos escutando as repetitivas explicações e justificativas para sua retirada galopante. Afinal, minha empresa foi contratada e fizemos um ótimo trabalho solucionando o problema de nosso cliente; nas vizinhanças, grande número de casas tinham infestações de morcegos. Acabei ganhando um bom dinheirinho por ali! Coisas e “causos” da vida!
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O “CAUSO” DO INSETICIDA AMARELO
É muita matéria técnica! Deixe-me aliviar um pouco e lhes contar mais um “causo” que me aconteceu durante minha vida profissional. Um dia, fui contratado por uma grande indústria produtora de biocidas de uso profissional, com a missão de recuperar sua fatia do mercado perdida devido à ação nefasta de uma empresa de auditoria que, anos antes, havia recomendado a descontinuidade dessa linha de produtos. Aos poucos fui me enfronhando no assunto e revisando produto a produto da linha antiga, enquanto estudava o “pipe line” da empresa para futuros lançamentos. Entre os produtos que julguei que deveriam ser recuperados, figurava um inseticida organofosforado de meia vida muito curta, mas de efeito fulminante formidável. Até aí, tudo bem. Preparamos o relançamento e o mercado o recebeu otimamente. Passado um pouco de tempo, comecei a registrar algumas queixas de clientes que observavam que havia variação da coloração amarela do produto, de lote para lote. Achavam que o inseticida ficava “mais fraco” quando a coloração amarelada esmaecia. O Departamento de Produção garantia que não e que o teor era exatamente 100% m/v independentemente da coloração do lote. Essa variação de cor se devia a condições inerentes da própria produção.
Mas, eu tinha um problema nas mãos e os clientes deveriam receber um pouco mais que uma simples explicação negativa. Pedi à Produção que procurasse resolver a questão tendo em vista a reação do mercado. Pouco depois eles vieram com a solução: juntaram um corante ao produto, de tal sorte que todos os lotes produzidos doravante iriam ter sempre a mesma cor final. Excelente solução, pensei. Não mais teria reclamações. E assim, o tal inseticida passou a ser produzido com a mesmo tom de amarelo.
Nem bem colocamos o novo produto no mercado, estourou a bomba. Uma empresa controladora de pragas usou o inseticida no apartamento de uma cliente classe A todo acarpetado em branco (na época usava-se muito isso). Na verdade a dona tinha fixação pelo branco e o apartamento inteiro era dessa cor; móveis, paredes, forrações, armários de fórmica, pisos frios, tetos, tudo impecavelmente branco. Até o gato da madame era branco (angorá, se estou lembrado). Era uma brancura só! A empresa controladora executou seu trabalho contra pulgas principalmente, mas também contra insetos rasteiros em geral. Dia seguinte, foi uma gritaria geral. O apartamento da Sra. White estava, literalmente, amarelo! O carpete imaculadamente branco parecia que havia sido trocado por outro, imaculadamente amarelo. As paredes estavam amarelas, os móveis de fórmica, amarelos e assim por diante. Vários tons de amarelo conforme o tipo de material onde a calda havia sido aplicada, mas tudo amarelo. A madame estava em crise histérica quando cheguei para constatar o problema, devidamente acompanhado pelos proprietários apavorados da desinsetizadora e pelo Gerente de Produção de minha empresa. Mil explicações técnicas surgiram e nada de amenizar a crise da infeliz e raivosa dona do apartamento. Houve um momento em que parecia que a crise da mulher estava passando e ela já não estava tão nervosa, mas daí... surgiu o famigerado gato angorá branco em cena. Com a barriga toda amarela. Daí não teve jeito.
Concluindo: através do seguro da empresa produtora, a Sra. White voltou a ter um apartamento imaculadamente branco, pois tudo, completamente tudo foi devidamente reposto. O seguro cobriu até um banho antiamarelo do gato. E o lote amarelo do inseticida que já estava no mercado foi discretamente recolhido e trocado por um lote sem corante. Recall completo!
Que sufoco! Coisas e “causos” da vida.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
O “CAUSO” DO REI DOS RATOS – Parte II
Então, eu contava o “causo” fantástico do rei dos ratos, sua corte e outras estrepolias relatadas pelo celebérrimo Dr. J.J. nos idos dos anos 70, aquele biologista canadense que achava que este era um país de néscios e que ele iria “fazer a América” por aqui.
Eu disse no post I desta série que voltaria a contar a nossos leitores algumas informações contidas em uma espécie de pequena apostila que continha cópia fiel de um de suas palestras (ainda a possuo), cujo inteiro teor me foi repetido oralmente pelo autor em entrevista ocorrida na Prefeitura de São Caetano do Sul/SP.
Lá pelas tantas, o Dr. J.J. enveredou pela emoção e me contou:- “... vou me deter aqui para falar de um traço que existe entre os ratos, muito chocante; trata-se da solidariedade que existe entre eles. Cita-se, por exemplo, o caso de um bando de ratos que havia emigrado de algum local onde a vida tinha-se tornado difícil para eles. Um velho rato cego tinha entre seus dentes um pequeno pauzinho que estava seguro na outra ponta por um outro rato que lhe servia de guia. Duvidam? Um marinheiro do navio Lancaster diz que viu um rato conduzindo pela orelha outro rato maior que ele e que parecia mais velho. Um terceiro rato jovem, juntando-se a eles, percorria o quarto recolhendo migalhas de biscoito que durante a ceia da véspera haviam caído da mesa e as levava ao rato velho. Este estava cego e não mais conseguia encontrar seu alimento. Uma pessoa entrou nesse momento e os dois ratos jovens soltaram um guincho para advertir o rato cego. (a essa altura eu já estava quase em lágrimas!).
Dissertando sobre o comportamento dos ratos, J.J. saiu com esta:- “... o rato também é temeroso. Constatou-se que durante a guerra de 14/18 um pequeno fato entre tantos: nas enlameadas trincheiras, se um soldado conseguisse capturar um rato vivo, ele o enfiava em brasas quentes a fim de somente chamuscá-lo, mas deixando-o vivo; ao soltá-lo, a trincheira ficava tranqüila por 7 ou 8 dias, pois o rato ao fugir, guinchava tanto que seus congêneres fugiam dali temendo sorte semelhante”. (churrasquinho de rato inacabado = um bom método de controle urbano jamais experimentado!).
E, para terminar, J.J. guardou a grande pérola para o final apoteótico:- “... conta-se sobre a invasão das ratazanas na Europa que estas, encontrando-se impedidas de continuar seu trajeto através do rio Volga, permaneceram anos no lado oriental (atual Rússia). Em um dia muito frio de inverno, os camponeses russos confirmaram que viram dezenas de milhares de ratazanas lançando-se no rio, tendo um galho, uma folha morta ou um pouco de palha entre os dentes, permitindo que boiassem nas águas geladas do rio. Com esse amontoado de ratos juntos, a corrente do rio diminuiu no ângulo que eles haviam escolhido e o frio intenso, agindo, as águas foram tomadas por gelo. Imediatamente, com o sacrifício desses milhares de ratazanas, outros milhares de ratos, sem perda de tempo, chegaram em ondas e atravessaram o Volga rapidamente, invadindo a Europa”. (nesse preciso instante... desmaiei!)
Grande Dr. J.J. Que Deus o tenha e que suas penas por mentirinhas já tenham sido cumpridas!
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
O “CAUSO” DO REI DOS RATOS
Faz um tempão que não conto um dos “causos” de minha vida profissional, então vou voltar a contar um deles neste post. Trata-se do “causo” do Rei dos Ratos. Corria o início da década de 70 e, na época, eu trabalhava (entre tantos empregos) na Prefeitura de São Caetano do Sul/SP, desenvolvendo e chefiando a Seção que se tornaria a atual Vigilância Sanitária Municipal. Um dia, recebi a visita de duas pessoas interessadas em promover um raticida, um dos primeiros a surgir no mercado brasileiro à base de warfarina (cumafeno). Tratava-se do representante comercial de uma empresa campineira e de Dr. J.J. (omitiremos o nome por razões éticas e mesmo porque esse senhor já deve ter falecido. Se não faleceu, já deve estar para lá de Bagdad com uns 130 anos talvez!). Era um biologista canadense de língua francesa que mal falava português, contratado pela empresa distribuidora para assessorar tecnicamente as vendas. Estou falando de uma época onde bem poucos profissionais neste país entendiam alguma coisa de roedores, assunto então praticamente desconhecido; eu já havia me interessado por esse tema e já havia começado a estudá-lo meio na raça e com grande dificuldade, pois não existiam as facilidades incríveis que a Internet trouxe, décadas depois.
Pois bem, na entrevista, começou o tal de J.J. a discorrer sobre roedores, sequer imaginando que estava conversando com outro profissional que talvez já conhecesse um pouco do assunto. À medida que palrava, ia se entusiasmando e eu mais me mostrava interessado, posto que os disparates que ele contava como se verdade fossem, muito me divertia. Em um dado momento, ele começou a falar da existência de diversos reis dos ratos, afirmando que ele próprio havia sido testemunha ocular do encontro de alguns desses reis. Ao final da divertida entrevista recebi, das mãos do representante comercial da empresa, um verdadeiro tesouro: uma pequena cópia impressa de uma palestra do Dr. J.J. sobre ratos, a qual sempre guardei como preciosidade até a presente data. Vou reproduzir fielmente alguns trechos desse opúsculo, apenas corrigindo um pouco o português para torná-lo mais compreensível:
Dizia Dr. J.J.:- "... e nós mesmos tivemos a ocasião de encontrar em uma cova na Província de Quebec no Canadá, exatamente em Granby, uma corte do rei dos ratos. Assim chamamos a um conjunto insólito de uma vintena de ratos atados todos pelas caudas e vivendo assim por anos. A que se destinava essa corte, nós perguntávamos. À reprodução? Seus aparelhos genitais eram particularmente desenvolvidos. À comandar? Seus cérebros eram muito mais volumosos que os ratos normais. Não temos respostas” (nessa altura, interrompi o relato perguntando se ele havia tirado uma foto dessa corte ao que ele negou).
E J.J. continuava explicando com cara séria:- “... eu vos descrevo esses indivíduos: eles medem 72 cm de altura, em média pesando 2,800 a 3kg, com pelos longos de 6 a 7cm, embranquecidos pela idade (caramba, pensei, se eu um dia me visse diante de um rato desses, ia sair correndo!).
Acrescentou ele, percebendo meu interesse: “... Essa corte de 20 ratos estava deitada em um leito de lã picada e ao redor dela encontramos cerca de 800 cadáveres mais ou menos de ratos enormes, os quais, ainda que menores, não pesavam menos de 2kg cada um. Alguns desses ratos tinham um aparelho digestivo um tanto especial: eles tinham um estômago de refluxo... pensamos que esses ratos deveriam comer primeiro o alimento destinado aos seus senhores e devolviam o deglutido a seus mestres que, assim, não tinham nenhum esforço a fazer. Seria isso uma espécie de geléia real? Pensamos que sim, pois esses ratos deitados tinham, segundo nossos exames, 35 anos de idade.” (A essa altura, eu já estava sem fala!)
E J.J. arrematou com voz grave e expressão séria, em tom de ameaça quase:- “... eu penso que existe em todas as cidades do Brasil, um rei dos ratos” (Pronto, pensei! Eu estava frito. Minha pequena São Caetano com um rei e sua corte de 20 ratos!). Mas, para meu alívio, aduziu: “... a confirmação ainda não foi feita, pois eles são extremamente difíceis de serem achados. Aquele de Granby, estava a 16 metros do nível da terra embaixo de um segundo porão de uma casa, em uma cova de 1,80m de altura e 3m de diâmetro, com condutores de ar que mediam até 65m de comprimento e com sifões que impediam a inundação da cova”. (Mas que imaginação tinha o gajo! Desde aquele momento até hoje, acho que essa apostilazinha daria em um excelente roteiro para um filme de ficção e terror)
Essa entrevista durou umas duas horas, se lembro. Talvez um pouco mais, pois eu me mostrava propositalmente fascinado. Com certeza eles já estavam dando como certa a venda de um zilhão de toneladas do tal raticida para minha Prefeitura. Ficaram até hoje de mãos abanando, ainda que eu renda minhas justas homenagens póstumas ao Dr. J.J. por sua extraordinária capacidade imaginativa. Nunca encontrei em toda minha vida profissional, alguém com criatividade parelha a daquele senhor. Bem, na verdade encontrei, mas sobre esse honroso segundo lugar, falarei algum dia, depois que ele falecer, obviamente!
E nesse ritmo a entrevista continuava com o J.J. acrescentando novas e incríveis pérolas de conhecimento sobre roedores. Mas, volto ao assunto outro dia e lhes conto. Aguarde.
sábado, 20 de março de 2010
O MISTÉRIO DO FRANGORRATO
Minhas andanças como profissional controlador de pragas nestes últimos 40 anos, me levaram para as mais diferentes regiões do país e sempre tive novas oportunidades de me deparar com problemas verdadeiramente intrigantes e desafiadores. Toda a base teórica do conhecimento desse ramo de especialidade, muito valeu para a busca de solução de cada caso e raramente uma situação ficou sem explicação. Vou lhes contar um “causo” sem final feliz, onde a verdade nunca apareceu. Chamei esse “causo” de - O Mistério do Frangorrato. Vamos lá!
Fui chamado até uma cidade de Sta.Catarina para tentar resolver um incidente no mínimo intrigante. Uma dona de casa foi ao supermercado onde habitualmente se abastecia e adquiriu um frango inteiro frigorificado. O frango congelado adquirido estava devidamente lacrado em sua embalagem original e assim foi levado para a casa dessa senhora que havia planejado um solerte frango com farofa para o almoço dominical da família. Aliás, ela, na verdade, havia comprado dois frangos da mesma marca, ambos de porte avantajado, já que a irmã, o cunhado e dois sobrinhos também estariam presentes no ágape dominical. No dia previsto, a senhora mentalizou o que faria com os frangões (não consegui saber qual a receita que seria usada) e logo cedo os retirou para descongelar. Algumas horas depois, carcaças já descongeladas, essa senhora rompeu a embalagem de um dos frangos, removeu cabeça, pés, fígado e moela que muitos frigoríficos produtores inserem dentro da carcaça, e lavou as peças deixando-as reservadas. Pegou o segundo frangão e já ia proceder da mesma forma quando notou um apêndice estranho apontando do interior da carcaça. Era algo um pouco comprido, cilíndrico, da grossura de um dedo mindinho e com certos anéis em sucessão. Já meio horrorizada, ela aproximou a vista e notou que esse apêndice tinha alguns pelos hirsutos como se fosse uma cauda de algum animal desprovido de penas. Lembrem-se, o filme plástico transparente da embalagem original não havia ainda sido rompido. Parecia uma cauda... e era! Ela, com um grito de espanto e horror, identificou uma cauda de rato! Como? Uma cauda de rato? Que espécie de frango seria aquela que teria uma cauda parecida com a de um rato? Confusão na cozinha, ela chama a empregada e o marido como testemunhas. Pânico geral, por via das dúvidas o frangão retorna rapidamente à geladeira até segunda ordem e a família sai para comer pizza no almoço. Obviamente na segunda feira essa senhora e seu indignado marido iriam ao supermercado para exigir satisfações, levando o frangorrato embaixo do braço. O gerente examinou o réu com muito cuidado e sentenciou que, se a embalagem original estava intacta, como de fato estava, o supermercado não poderia ter culpa no cartório e assim a queixa deveria ser levada ao frigorífico que produziu o frangorrato. Mais ainda, o gerente afirmou que o estabelecimento sentia-se igualmente lesado e que iria pedir ao departamento jurídico um acompanhamento pessoal ao assunto. Dois dias depois desaba no frigorífico que, por sinal, localizava-se na mesma cidade da queixosa, uma verdadeira comissão de injuriados constituída pela vítima principal, seu solerte marido, seu advogado adrede nomeado, o cunhado que queria porque queria servir de testemunha ocular (ou talvez antecipando uma parcela do butim), o Gerente Geral do Supermercado e seu advogado e, obviamente, o frangorrato meio congelado. Recebidos formalmente pelo Gerente de controle de qualidade e dois de seus assistentes, devido à gravidade da situação, e foi realizada uma solene reunião de discussão do assunto. De um lado, o Frigorífico achando, a uma primeira análise, que era "armação" e que a Dona Maria estava querendo dar um golpe; de outro, as vítimas já achando que tinham tirado a sorte grande, e para completar a turma do supermercado querendo ficar de fora nesse "embroglio"! Conversa vai, conversa vem ficou claro diante da prova corporal que o caso do frangorrato era digno de crédito e merecia maiores cuidados. Foi feito um acordo inicial entre as partes, pelo qual o corpo de delito deveria ser submetido a provas e testes laboratoriais e periciais, envolvendo muma polpuda soma em dinheiro que passou rapidamente às mãos da queixosa, de seu marido e, por que não dizer, do cunhado. Sim, o advogado dela também levou uma fatia. Pois bem, agora o frigorífico conseguiu recuperar o frangorrato incriminador e foi à luta. Como e por que esse rato abelhudo havia se introduzido na carcaça do frango?
Fui chamado até uma cidade de Sta.Catarina para tentar resolver um incidente no mínimo intrigante. Uma dona de casa foi ao supermercado onde habitualmente se abastecia e adquiriu um frango inteiro frigorificado. O frango congelado adquirido estava devidamente lacrado em sua embalagem original e assim foi levado para a casa dessa senhora que havia planejado um solerte frango com farofa para o almoço dominical da família. Aliás, ela, na verdade, havia comprado dois frangos da mesma marca, ambos de porte avantajado, já que a irmã, o cunhado e dois sobrinhos também estariam presentes no ágape dominical. No dia previsto, a senhora mentalizou o que faria com os frangões (não consegui saber qual a receita que seria usada) e logo cedo os retirou para descongelar. Algumas horas depois, carcaças já descongeladas, essa senhora rompeu a embalagem de um dos frangos, removeu cabeça, pés, fígado e moela que muitos frigoríficos produtores inserem dentro da carcaça, e lavou as peças deixando-as reservadas. Pegou o segundo frangão e já ia proceder da mesma forma quando notou um apêndice estranho apontando do interior da carcaça. Era algo um pouco comprido, cilíndrico, da grossura de um dedo mindinho e com certos anéis em sucessão. Já meio horrorizada, ela aproximou a vista e notou que esse apêndice tinha alguns pelos hirsutos como se fosse uma cauda de algum animal desprovido de penas. Lembrem-se, o filme plástico transparente da embalagem original não havia ainda sido rompido. Parecia uma cauda... e era! Ela, com um grito de espanto e horror, identificou uma cauda de rato! Como? Uma cauda de rato? Que espécie de frango seria aquela que teria uma cauda parecida com a de um rato? Confusão na cozinha, ela chama a empregada e o marido como testemunhas. Pânico geral, por via das dúvidas o frangão retorna rapidamente à geladeira até segunda ordem e a família sai para comer pizza no almoço. Obviamente na segunda feira essa senhora e seu indignado marido iriam ao supermercado para exigir satisfações, levando o frangorrato embaixo do braço. O gerente examinou o réu com muito cuidado e sentenciou que, se a embalagem original estava intacta, como de fato estava, o supermercado não poderia ter culpa no cartório e assim a queixa deveria ser levada ao frigorífico que produziu o frangorrato. Mais ainda, o gerente afirmou que o estabelecimento sentia-se igualmente lesado e que iria pedir ao departamento jurídico um acompanhamento pessoal ao assunto. Dois dias depois desaba no frigorífico que, por sinal, localizava-se na mesma cidade da queixosa, uma verdadeira comissão de injuriados constituída pela vítima principal, seu solerte marido, seu advogado adrede nomeado, o cunhado que queria porque queria servir de testemunha ocular (ou talvez antecipando uma parcela do butim), o Gerente Geral do Supermercado e seu advogado e, obviamente, o frangorrato meio congelado. Recebidos formalmente pelo Gerente de controle de qualidade e dois de seus assistentes, devido à gravidade da situação, e foi realizada uma solene reunião de discussão do assunto. De um lado, o Frigorífico achando, a uma primeira análise, que era "armação" e que a Dona Maria estava querendo dar um golpe; de outro, as vítimas já achando que tinham tirado a sorte grande, e para completar a turma do supermercado querendo ficar de fora nesse "embroglio"! Conversa vai, conversa vem ficou claro diante da prova corporal que o caso do frangorrato era digno de crédito e merecia maiores cuidados. Foi feito um acordo inicial entre as partes, pelo qual o corpo de delito deveria ser submetido a provas e testes laboratoriais e periciais, envolvendo muma polpuda soma em dinheiro que passou rapidamente às mãos da queixosa, de seu marido e, por que não dizer, do cunhado. Sim, o advogado dela também levou uma fatia. Pois bem, agora o frigorífico conseguiu recuperar o frangorrato incriminador e foi à luta. Como e por que esse rato abelhudo havia se introduzido na carcaça do frango?
E foi aí que eu entrei na história, mas que deixarei para contar numa próxima postagem. Não percam!
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
O “MISTÉRIO DA GOIABADA”: OUTRO “CAUSO” A SER CONTADO

Nessa vida de mais de 40 anos controlando pragas urbanas e rurais, fui observador testemunhal, ou muito de perto, de uma porção de “causos” interessantes e que ficaram guardados na memória. Em postagem anterior (veja abaixo) contei um causo do mistério da panela de arroz. Hoje vou contar o “mistério da goiabada”.
Um dia, recebi um chamado de uma grande indústria paulista solicitando uma consultoria urgente em sua fábrica de enlatados, pois havia aparecido um rato dentro de uma lata de goiabada, cheia! Ouvindo o relato inicial, de imediato denominei o assunto de “o mistério da goiabada” e lá fui eu me sentindo um verdadeiro Sherlock Holmes tupiniquim. Resumindo a história, uma senhora havia comprado uma lata de goiabada daquela marca em um Supermercado e, ao abri-la em casa, deparou-se com um camundongo inteirinho mergulhado no doce. É, um Mus musculus de cabo a rabo! Entre horrorizada e irritada, voltou ao supermercado para reclamar e exigir reparações. Naturalmente o estabelecimento comercial negou qualquer responsabilidade ou envolvimento no problema e igualmente posicionou-se como vítima, recomendando que a senhora reclamasse seus direitos junto ao fabricante. Foi o que ela fez em seguida. A indústria recebeu a denúncia com enorme preocupação, pois uma eventual divulgação pela imprensa desse fato causaria um prejuízo de enormes proporções à sua imagem, que seria arranhada, com reflexos imediatos no volume de vendas. Após algumas reuniões com a interessada e seu advogado (naturalmente ela já havia constituído um representante legal), houve acordo entre as partes envolvendo uma certa compensação financeira (não fiquei sabendo quanto, mas deve ter sido bastante) mais o fornecimento de uma linha completa dos produtos dessa Indústria por um ano. Em troca, a senhora entregou a famigerada lata de goiabada temperada com o nefasto camundongo e assinou um termo de confidencialidade. Pois bem, a partir desse momento entro na história. Logicamente a indústria precisava saber como o camundongo terrorista havia se infiltrado na goiabada sem ser convidado, para evitar a repetição do fato. Resumindo, no processo de fabricação do doce enlatado, a goiabada era preparada a quente (muito quente) em caldeirões de mistura e de lá, através de tubulações, a massa era empurrada para bicos que injetavam quantidades predeterminadas em cada lata aberta que passava abaixo em uma esteira rolante, numa determinada velocidade. Mais à frente, na mesma esteira rolante, as latas eram recolhidas por outra máquina que cravava as respectivas tampas e elas seguiam para o empacotamento em caixas de despacho, tudo automatizado. Fui verificar e observei que o bico de injeção tinha um diâmetro por onde nenhum camundongo poderia passar, mesmo empurrado. Verificando a lata em questão, notei que o tal camundongo estava completamente incluído na massa, evidenciando que ele ali entrara quando a massa ainda estava quente e na forma pastosa. Verifiquei também que havia goiabada sob seu corpo, o que demonstrava que ele não estava na lata quando a massa foi depositada. E assim fui tentando eliminar as possibilidades, já que a explicação não era tão aparente. Claro, minha primeira suspeita havia sido de uma infestação por camundongos naquela área da indústria. Pois, por mais que eu procurasse as evidências de infestação murina, não encontrei absolutamente nada. Ademais, a indústria mantinha sob contrato uma empresa controladora de pragas (boa, por sinal), que sustentava um programa permanente de controle, com visitas quinzenais. Excluídas as possibilidades de queda acidental do camundongo dentro da lata, naturalmente a suspeita seguinte era que ele poderia ter sido “plantado” por algum operário. Difícil dizer, pois não havia qualquer evidência que pudesse comprovar essa teoria! Quebrei a cabeça e não conseguia inicialmente encontrar um meio de comprovar ou não essa hipótese. Essa suspeita era importantíssima para a indústria, pois o mesmo operário poderia repetir a façanha, com conseqüências imprevisíveis. Que mistério danado, esse. Felizmente, tive um lampejo: se o estômago do infeliz contivesse alimento (teria, se ele houvesse se alimentado logo antes de finar-se), eu poderia mandar examinar esse conteúdo gástrico para apurar se era de alimentos encontrados na indústria ou não. Em caso positivo, a evidência seria de que o camundongo era residente na indústria. Em caso negativo, obviamente ele teria sido trazido de fora e “plantado” na lata de goiabada. Entrou aí um golpe de sorte, havia conteúdo estomacal! A vida me ensinou que um pouco de sorte ajuda um bocado! O instituto Adolpho Lutz de São Paulo efetuou essa análise e o laudo mostrou que o conteúdo estomacal era de alimentos tais que... não existiam na indústria. Tradução: o camundongo havia sido trazido de fora e introduzido na lata de goiabada de forma criminosa, com intenção específica de prejudicar a indústria. Assim, fechei meu relatório final para o que havia sido contratado. Não havia muitos operários nessa linha de produção, de sorte que a indústria prontamente tinha seus suspeitos. Mais tarde fiquei sabendo que, de fato, um determinado operário julgando-se prejudicado em alguma questão com a indústria ou mesmo uma desavença com seu chefe, planejara o crime trazendo um camundongo apanhado por uma ratoeira em sua casa e do bolso de seu uniforme, havia sido transferido para a tal lata de goiabada.
O mistério da goiabada acabara de ser resolvido. “- Elementar, meu caro Watson!”
Um dia, recebi um chamado de uma grande indústria paulista solicitando uma consultoria urgente em sua fábrica de enlatados, pois havia aparecido um rato dentro de uma lata de goiabada, cheia! Ouvindo o relato inicial, de imediato denominei o assunto de “o mistério da goiabada” e lá fui eu me sentindo um verdadeiro Sherlock Holmes tupiniquim. Resumindo a história, uma senhora havia comprado uma lata de goiabada daquela marca em um Supermercado e, ao abri-la em casa, deparou-se com um camundongo inteirinho mergulhado no doce. É, um Mus musculus de cabo a rabo! Entre horrorizada e irritada, voltou ao supermercado para reclamar e exigir reparações. Naturalmente o estabelecimento comercial negou qualquer responsabilidade ou envolvimento no problema e igualmente posicionou-se como vítima, recomendando que a senhora reclamasse seus direitos junto ao fabricante. Foi o que ela fez em seguida. A indústria recebeu a denúncia com enorme preocupação, pois uma eventual divulgação pela imprensa desse fato causaria um prejuízo de enormes proporções à sua imagem, que seria arranhada, com reflexos imediatos no volume de vendas. Após algumas reuniões com a interessada e seu advogado (naturalmente ela já havia constituído um representante legal), houve acordo entre as partes envolvendo uma certa compensação financeira (não fiquei sabendo quanto, mas deve ter sido bastante) mais o fornecimento de uma linha completa dos produtos dessa Indústria por um ano. Em troca, a senhora entregou a famigerada lata de goiabada temperada com o nefasto camundongo e assinou um termo de confidencialidade. Pois bem, a partir desse momento entro na história. Logicamente a indústria precisava saber como o camundongo terrorista havia se infiltrado na goiabada sem ser convidado, para evitar a repetição do fato. Resumindo, no processo de fabricação do doce enlatado, a goiabada era preparada a quente (muito quente) em caldeirões de mistura e de lá, através de tubulações, a massa era empurrada para bicos que injetavam quantidades predeterminadas em cada lata aberta que passava abaixo em uma esteira rolante, numa determinada velocidade. Mais à frente, na mesma esteira rolante, as latas eram recolhidas por outra máquina que cravava as respectivas tampas e elas seguiam para o empacotamento em caixas de despacho, tudo automatizado. Fui verificar e observei que o bico de injeção tinha um diâmetro por onde nenhum camundongo poderia passar, mesmo empurrado. Verificando a lata em questão, notei que o tal camundongo estava completamente incluído na massa, evidenciando que ele ali entrara quando a massa ainda estava quente e na forma pastosa. Verifiquei também que havia goiabada sob seu corpo, o que demonstrava que ele não estava na lata quando a massa foi depositada. E assim fui tentando eliminar as possibilidades, já que a explicação não era tão aparente. Claro, minha primeira suspeita havia sido de uma infestação por camundongos naquela área da indústria. Pois, por mais que eu procurasse as evidências de infestação murina, não encontrei absolutamente nada. Ademais, a indústria mantinha sob contrato uma empresa controladora de pragas (boa, por sinal), que sustentava um programa permanente de controle, com visitas quinzenais. Excluídas as possibilidades de queda acidental do camundongo dentro da lata, naturalmente a suspeita seguinte era que ele poderia ter sido “plantado” por algum operário. Difícil dizer, pois não havia qualquer evidência que pudesse comprovar essa teoria! Quebrei a cabeça e não conseguia inicialmente encontrar um meio de comprovar ou não essa hipótese. Essa suspeita era importantíssima para a indústria, pois o mesmo operário poderia repetir a façanha, com conseqüências imprevisíveis. Que mistério danado, esse. Felizmente, tive um lampejo: se o estômago do infeliz contivesse alimento (teria, se ele houvesse se alimentado logo antes de finar-se), eu poderia mandar examinar esse conteúdo gástrico para apurar se era de alimentos encontrados na indústria ou não. Em caso positivo, a evidência seria de que o camundongo era residente na indústria. Em caso negativo, obviamente ele teria sido trazido de fora e “plantado” na lata de goiabada. Entrou aí um golpe de sorte, havia conteúdo estomacal! A vida me ensinou que um pouco de sorte ajuda um bocado! O instituto Adolpho Lutz de São Paulo efetuou essa análise e o laudo mostrou que o conteúdo estomacal era de alimentos tais que... não existiam na indústria. Tradução: o camundongo havia sido trazido de fora e introduzido na lata de goiabada de forma criminosa, com intenção específica de prejudicar a indústria. Assim, fechei meu relatório final para o que havia sido contratado. Não havia muitos operários nessa linha de produção, de sorte que a indústria prontamente tinha seus suspeitos. Mais tarde fiquei sabendo que, de fato, um determinado operário julgando-se prejudicado em alguma questão com a indústria ou mesmo uma desavença com seu chefe, planejara o crime trazendo um camundongo apanhado por uma ratoeira em sua casa e do bolso de seu uniforme, havia sido transferido para a tal lata de goiabada.
O mistério da goiabada acabara de ser resolvido. “- Elementar, meu caro Watson!”
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
CONTANDO UM "CAUSO": O MISTÉRIO DA PANELA DE ARROZ
Em minha vida profissionalde de mais de 40 anos controlando pragas (pelo menos tentando), me deparei com muitas situações inusitadas e acabei registrando um ou outro "causo", aquelas historinhas engraçadas ou que parecem mentira. De algumas, participei diretamente e/ou fui observador presente; outras vezes, ouvi de pessoas comuns com quem tive o grande prazer de tropeçar em minhas andanças por nosso imenso país. Lembrei-me de um certo "causo" muito curioso e que quero compartir com meus leitores. Trata-se de um acontecido em uma residência na zona rural de uma família simples e que me foi relatado entre risadas pela própria senhora moradora dessa casa localizada em algum lugar de Santa Catarina. Entitulei esse "causo" de "O Mistério da Panela de Arroz". Contou-me que ali morava ela, seu marido (ambos já um pouco idosos) e um jovem estudante pensionista descendente de orientais, recém chegado,bom moço, admitido para melhorar um pouco as finanças do casal, em regime de meia pensão incluídos café da manhã e jantar. Procurando deixar o pensionista bem à vontade, mas não querendo ruídos noturnos na casa que pudessem interromper o sono do casal, Dona Maria (um nome fictício) o instruiu para que comesse à vontade no jantar, pois não haveria direito à boca livre durante a noite. Na manhã seguinte, Dona Maria encontrou a panela de arroz destampada sobre o fogão e semivazia e imaginou que o pensionista japonês havia, contrariando a regra da casa, feito uma visita noturna às sobras do jantar em altas horas. Na noite seguinte e na consecutiva, o fato se repetiu. Dona Maria ficou agastada e resolveu espreitar à noite para convencer-se do fato e confrontar o elemento nipônico, pois não queria levantar falso. Lá pelas tantas, da cama, Dona Maria percebeu que a luz da cozinha se acendeu, ouviu a tampa da panela de arroz sendo removida ruidosamente e depois um silêncio por alguns minutos. Em seguida a luz foi apagada e fez-se completo silêncio. Dona Maria ficou realmente irritada com o pensionista e despertou o Seu Mateus (outro nome fictício) para lhe contar o sucedido, qualificando a si mesma como testemunha de acusação. Seu Mateus não queria acreditar a princípio e contestou dizendo que Dona Maria deveria estar sonhando e confundindo com a realidade. Naturalmente Dona Maria não gostou nem um pouco da dúvida que pairou sobre seu fiel testemunho auricular e retrucou, dando início a mais uma daquelas intermináveis discussões entre marido e mulher. Tentando conciliar o problema gerado e desejando voltar logo a dormir, Seu Mateus propôs que os dois ficassem acordados na noite seguinte para juntos testemunharem o crime, o que foi aceito por Dona Maria que sentiu-se satisfeita com o plano. Ela mal pode dormir aquela noite e passou o dia inteiro aguardando a peritagem noturna. Mal terminou de jantar, já recolheu-se ao leito, notificando o jovem pensionista que iria fazê-lo e que provavelmente iria dormir pesado, de tão cansada que se encontrava. No quarto ficou o casal a ler e a ouvir baixinho um solerte programa de rádio que tocava músicas sertanejas com dedicatórias tipo "de fulano para sicrana com muito amor". A noite avançava e entre cochilos e sobressaltos o casal aguardava os acontecimentos. Por volta do mesmo horário na madrugada, de repente, a luz da cozinha foi acesa. Dona Maria e Seu Mateus apuraram os ouvidos e em seguida ouviram o som de destampar a panela; silêncio e depois a luz foi apagada. Levantaram-se pressurosos e foram diretamente à cozinha onde acenderam a luz e viram a prova do crime: a panela de arroz estava semivazia novamente. Dona Maria não cabia em si de contentamento, pois havia provado seu testemunho. Seu Mateus, intrigado, observou que só o arroz fora comido e não havia sinais de ataques paralelos a outros alimentos; imaginou que sendo descendente de orientais, o pensionista se interessava em forragear apenas no arroz. Foram rapidamente à porta do quarto do moço tentando auscultar ruídos que demonstrassem estar ele acordado, mas nada conseguiram ouvir. Voltando au quarto, discutiram o assunto e após muitas considerações resolveram que deveriam surpreender o larápio durante a ação gastronômica na próxima madrugada. Que lástima iria ser, consideraram, pois o rapaz era tão bonzinho, tão educado, mas tinha essa falha de caráter. Na noite seguinte, nem mudaram as roupas e Seu Mateus sequer descalçou as botinas; apenas aguardavam o momento final para resolver ao vivo o mistério da panela de arroz. De madrugada... pimba! A luz da cozinha foi acesa e a panela foi destampada. Solertes, os dois pularam da cama e rapidamente entraram de sopetão na cozinha preparadíssimos para dar um grande pito no jovem nissei larápio de arroz. O que viram? Um rotundo rato preto, bem cevado, enfiado no arroz da panela, apenas com as patas trazeiras na borda, mastigando com deleite seu jantar de cada noite. Os dois ficaram aturdidos sem entender nada do que se passava e maior susto levou o rato com a súbita aparição do bicho homem durante sua calma refeição.
Rapidamente o rato volteou o corpo, abandonou a panela e celeremente fez seu trajeto de volta à segurança do ninho: de um salto alcançou o cano externo à parede onde corriam os fios elétricos instalados pós contrução da casa dispondo de um daqueles interruptores de luz tipo circular tão comuns; em velocidade, agarrado ao cano, passou sobre o interruptor e... a luz da cozinha se apagou! Estava finalmente esclarecido o mistério da panela de arroz! Quando o rato descia do forro usando o cano de fio elétrico como via de acesso, passava sobre o interruptor acendendo a luz; destampava a panela, coisa que um rato aprende a fazer com grande facilidade e se alimentava; quando voltava ao ninho usando a mesma rota contrária, seu corpo tocava o interruptor e a luz se apagava.
Enquanto isso, no seu quarto de estudante, o tranquilo pensionista japonês dormia seu sono de inocência. No café da manhã, encontrou ele outro clima em casa, bem mais afável. Não entendeu bem o porquê da mudança do casal que voltara a tratá-lo com sorrisos e amabilidades, mas imaginou que isso era coisa de brasileiros, tão esquisitos!
Enquanto isso, no seu quarto de estudante, o tranquilo pensionista japonês dormia seu sono de inocência. No café da manhã, encontrou ele outro clima em casa, bem mais afável. Não entendeu bem o porquê da mudança do casal que voltara a tratá-lo com sorrisos e amabilidades, mas imaginou que isso era coisa de brasileiros, tão esquisitos!
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