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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O ”CAUSO” DAS ARANHAS MALDITAS

Já confessei aqui minha aversão por aranhas. Cobra, sapo, escorpião, rato, lacraias, marimbondos e vespas, nada disso me causa qualquer reação que mereça ser digna de nota. Mas, aranhas... Por isso vou lhes contar um “causo” verídico de minha vida profissional, pois envolve justamente aranhas. Aranhas das boas, daquelas cabeludas e enormes que, de tão grandes, receberam o nome popular de caranguejeras, quer dizer, do tamanho de caranguejos! Pois bem, esse causo serviu para mostrar que não sou eu o único fariseu a temer as malditas aranhas. Tá bom, vai, reconheço o importantíssimo papel que as aranhas desempenham na Natureza, que são exímias e necessárias caçadoras de insetos, etc, etc, etc. Mas, há aranhas e aranhas. Há as pititicas chamadas de papa-moscas e que nos ajudam a combater pequenos insetos dentro de casa; há outras que habitam nossos jardins e fazem suas teias nos beirais das casas; há uma infinidade de outras aranhas, mas todas estão por aí nas matas e em qualquer outro tipo de ambiente no mundo inteiro. OK, mas acontece que tem as danadas caranguejeras que só servem para surgir nos nossos pesadelos quando menos se espera! E também para figurar em filmes de terror, com destaque! Certa vez, minha empresa controladora de pragas (abri, curti e fechei em um espaço de 20 anos) foi chamada para resolver uma situação, para mim, arrepiante: uma infestação de caranguejeras em uma casa de campo que era utilizada de tempos em tempos por seus proprietários. Atendi pessoalmente esse caso (aliás, como de praxe) e marquei com o proprietário uma visita de inspeção à casa infestada. Eu precisava avaliar onde, como e o grau de infestação antes de qualquer ação de controle; peguei meu operador mais safo e lá fui eu entre preocupado e intrigado. O dono da casa estava nos esperando conforme o combinado e nas perguntas iniciais já percebi algumas coisas: de fato a casa deveria estar bem infestada, nos últimos dois anos a família só veio à casa duas vezes e na derradeira foram embora no meio da noite porque a filha mais velha foi fazer uma visitinha à geladeira e, bem no meio da cozinha, uma caranguejera estava à caça; a filha gritou (sabe aquele grito de terror que usam nos filmes do mesmo gênero? Pois foi em altíssimos decibéis que a garota anunciou seu aterrorizante achado). Disse o proprietário que a menina pulou para cima do sofá na sala e apanhou uma almofada para se proteger; junto, veio outra caranguejera! Oh, dia; oh, mês... (como há muito tempo atrás se queixava Hardy Har Har, a hiena amiga da tartaruga Touché – já não se faz desenhos animados tão bons como aqueles!). 15 minutos depois, se tanto, a família (sem esquecer o Totó, o cãozinho poodle mais covarde daquele grupo social) já estava dentro do carro e foi dormir em uma pousada próxima. O bravo pai transferiu as férias para outras paragens e foi providenciar a solução para o aterrorizante problema, chamando uma empresa controladora de pragas que, nos contou o proprietário, não deu nada certo. Isso posto, lá fomos nós, o proprietário, o caseiro, meu operador safo e este temente a Deus que vos tecla, em busca das origens da questão. Onde estariam as caranguejeras e por que ali estavam! Procura daqui, procura dali e nada. Explicável: era de dia e elas, as malditas, não estavam caçando. Insistimos e finalmente meu esperto operador encontrou um exemplar entocado numa pilha de lenha cortada de forma bem comportada ao lado da lareira aguardando o próximo inverno. O Proprietário nem disfarçou: rapidamente tomou o último lugar na fila, enquanto explicava que tinha aversão a aranhas, torcendo as mãos. Com ares de entendido (assim esperavam todos) fui espiar a bandida. Meus amigos... deveria ser a mãe de todas as caranguejeras, pois nunca vi uma que fosse tão grande e tão cabeluda! Eu olhava para ela e ela olhava para mim com seus “trocentos” olhos negros, suas quelíceras ameaçadoras. Por aí já percebi que eu estava em desvantagem. Em um movimento de defesa, ergueu a parte dianteira do corpo e estendeu seu primeiro par de patas para o alto em posição de ataque. E eu na frente do grupo! Que situação. A essa altura não vi mais o dono da casa que rapidamente sumiu sem dar satisfações. Covardão! Eu, pelo menos, não tinha arrepiado carreira e aguentei firme a provação. Puseram a pérfida dentro de um jarro de maionese vazio e continuamos a procurar. Deveria haver muitas mais e precisávamos descobrir se haveria um local de concentração ou talvez um ou mais ninhos, já que as caranguejeras não tecem teias elaboradas. Nada encontrando por ali, resolvemos inspecionar o sótão. Essas casas de campo quando rústicas, frequentemente têm sótão onde as famílias guardam tranqueiras em geral, daí nossas suspeitas. Em uma maldita fila indiana (única maneira de se entrar em um sótão) subimos a estreita escada e, sem outra alternativa, abri o alçapão e corajosamente (mas com a boca completamente seca, me lembro) adentrei ao terrificante sótão, apenas armado com uma potente lanterna de meu uso pessoal (uma possante MagLite de seis pilhas). Entrei e aguardei a entrada da brigada ligeira, porque não sou bobo, nem nada. O ambiente era mais ou menos o que eu esperava: muita tranqueira, muito traste, uma grossa camada de pó e incontáveis pontos onde as malditas pudessem estar aninhadas. Sim, a essa altura o proprietário que sempre discretamente se posicionava atrás da fila, estava suando em bicas e estava ofegante, com um lanternão enorme na mão, manejado nervosamente; comentava que a primeira coisa que iria providenciar naquele sótão era instalar iluminação e fazer a maior fogueira que a vizinhança já tinha visto, com toda aquela tranqueira ali acumulada por décadas. Confessou ele que nunca havia subido ao sótão desde que compara a casa havia cerca de dez ou quinze anos atrás. Por azar, por “caipora” como se diz no interior, por acidente, por acaso de destino, pela célebre Lei de Murphy ou por qualquer outra razão, de repente ocorreu um fato muito estranho. A tranqueira era tanta que para caminharmos, tínhamos que remover de nossa frente, aqui ou ali, certos trastes que bloqueavam nosso caminho. Pois não é que o dono ao remover um velho almofadão empoeirado, se deparou com uma colônia de caranguejeras de diferentes tamanhos que, instintivamente se pôs em posição de defesa. Não cheguei a vê-las claramente e nem esperei por ângulos mais fotogênicos, mas enquanto eu numa fração de segundo buscava com os olhos o caminho mais reto e curto para sair dali, o proprietário da casa soltou um valente berro que deve ter assustado até as aranhas, pois elas ficaram imóveis (claro, os conhecimentos sobre a biologia das aranhas explicam tudo isso que falo, mas, naquele momento... vocês me desculpem!). Pois o proprietário atravessou o espaço que ia dar na claraboia em um piscar de olhos, antes que o eco do berro que ele havia dado terminasse. Literalmente jogou-se pela estreita escada abaixo, saiu correndo da sala onde a claraboia ficava, espaventou-se da casa e foi para uns 30 ou 40 metros de distância no jardim. Desci a escada e dali comecei a dar instruções ao meu esperto operador de como faríamos para tentar remover o maior número possível de aranhas daquele sótão. De que essas caranguejeras estava se alimentando no sótão? A casa, construída em estilo rústico, tinha um forro (laje) e um telhado imitando palha, vazado, por onde o ar circulava. Morcegos e pássaros também ali faziam seus ninhos. Um banquete permanente para as pérfidas caranguejeras! Fingindo que eu nem havia observado a estratégica retirada do proprietário da casa, fui procurá-lo para as necessárias explicações técnicas, etc. Enquanto eu raciocinava maneiras de abordar e resolver o problema, calculando mentalmente os parâmetros dos valores para o serviço, fiquei de ouvidos moucos escutando as repetitivas explicações e justificativas para sua retirada galopante. Afinal, minha empresa foi contratada e fizemos um ótimo trabalho solucionando o problema de nosso cliente; nas vizinhanças, grande número de casas tinham infestações de morcegos. Acabei ganhando um bom dinheirinho por ali! Coisas e “causos” da vida!

sexta-feira, 15 de março de 2013

SOBRE AS ARANHAS – PARTE IV

As caranguejeiras também merecem que a gente fale um pouco sobre elas. Diferentemente dos quatro gêneros anteriores, as chamadas aranhas caranguejeiras têm vários gêneros e numerosas espécies (só no Brasil já foram catalogadas mais de 400 espécies diferentes), mas geralmente são aranhas grandes e peludas, razão pela qual causam muito medo na espécie humana. Contudo, são tão mansas que com frequência encontramos pessoas que as domesticaram a ponto de tornarem-se “pets” (bichos de estimação). Vivem uma enormidade (há exemplares que, em cativeiro onde a vida é fácil, chegam a ter 15 anos de idade) e é fácil alimentar-se, pois aceitam camundongos albinos, desses de laboratório (jovens ou mesmo adultos), filhotes de passarinhos ainda sem penas, gafanhotos, baratas, pequenas rãs ou mesmo pedaços de carne bovina diretamente dos açougues (mas, aí, temos que colocar o naco bem debaixo de suas quelíceras para que elas aceitem), lagartixas, aranhas menores, escorpiões. Com toda essa facilidade, podem jejuar até 13 meses, desde que tenha água com fartura. Aliás, em cativeiro, tomam banho mergulhando em um pote com água, diariamente. Algumas caranguejeiras são relativamente pequenas, mas algumas espécies são enormes como as gigantescas Grammostolas do Sul do Brasil ou as temidas Aviculárias da região amazônica (muito exploradas em filmes de terror, porque são assustadoras, mas muito mansas); estas podem pesar até 50g e sua pernas atingem de 16 a 20 cm de extensão, quer dizer, é uma baita aranha! Seus ferrões negros são poderosos (1 cm de comprimento e 3 cm de largura). Entretanto, não há até hoje registro médico de alguma pessoa que tivesse sido morta pelo veneno de uma caranguejeira. O veneno não provoca dor e os animais caçados por elas morrem em letargia por parada respiratória. Por essa razão, não se fabrica soro anti caranguejeiras. Não tecem teias organizadas e como seus ninhos geralmente se situam no chão, cavam buracos e forram com um tapete bem tecido onde apoiam confortavelmente seu corpo. As caranguejeiras são noturnas (ou crepusculares); passam a maior parte da vida, isoladas; são intrépidas caçadoras, a maioria tem oito olhos e as fêmeas é que deveriam ser chamadas de “viúvas negras” (embora não sejam tão negras assim), posto que matam o macho depois da cópula. Nas residências e outras construções, buscam abrigo sob entulhos, gramados irregulares, acúmulos de materiais de construção, folhas mortas, pequenos arbustos, etc. Assim completamos nosso rápidos passeio sobre as aranhas mais perigosas em nosso país e agora precisamos comentar sobre a metodologia de combatê-las. Dentro do conceito do MIP (Manejo Integrado de Pragas), o melhor combate passa pelas ações corretivas e as preventivas, antes de pensarmos em eliminá-las. Localizar e destruir as teias impede que as aranhas em geral proliferem sem freio. Buscar, identificar as presas (insetos e artrópodes, etc) que as estão alimentando e eliminá-las, já cria dificuldades para que as aranhas se instalem confortavelmente. OK, mas porque é tão difícil controlarmos aranhas domésticas em geral? A razão é bem simples: a maioria das aranhas tem o corpo muito leve e, portanto, elas não precisam apoiá-lo no solo ou qualquer outra superfície para descansar; dessa forma, as aranhas caminham sobre as patas que terminam em “unhas” (a ponta de seus tarsos). Consequentemente, uma porção muito diminuta de seu corpo toca o solo ou mesmo suas teias. Óra, o que fazemos é aplicar biocidas nas paredes ou outras superfícies por onde as aranhas foram vistas, achando que vamos afetá-las tanto quanto os insetos rasteiros. Ledo engano! Caminhando na pontinha de suas patas, as aranhas praticamente não se expõem aos biocidas aplicados e, portanto, não serão afetadas. Fazem exceção as caranguejeiras que em algum momento acabam apoiando seu corpo em alguma superfície tratada. A solução está em utilizarmos algum biocida microencapsulado. Caminhando sobre uma superfície assim tratada, mesmo que apoiando apenas a pontas dos seus oito tarsos, a aranha vai colher um número suficiente de microcápsulas, suficiente para intoxicá-la e pouco tempo. Problema resolvido. A tecnologia dos biocidas evoluiu tanto que ousaríamos dizer que não há situação que não possa ser equacionada e competentemente resolvida, bastando entender as características de cada situação. Para isso, a palavra chave continua sendo: INFORMAÇÃO! Afinal, saber nunca ocupou espaço!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

SOBRE AS ARANHAS – PARTE III

Ficou faltando falarmos um pouco sobre as perigosas aranhas viúvas negras e as temidas aranhas marrons. As viúvas negras são as do gênero Latrodectus spp (“ladrão escondido”, em bom latim) conhecidíssimas no mundo todo; cita-se o espantoso número de 10.000 vítimas por ano no mundo inteiro com algumas dezenas de mortes. Quem já viu uma viúva negra (refiro-me à aranha, ora pois pois!) não esquece, porque ela tem pernas fininhas, um corpo arredondado de cor negra e uma característica mancha vermelha em forma de ampulheta situada no ventre. Medem cerca de 8 a 1,5 cm de corpo e outro tanto de pernas; portanto são relativamente pequenas. Movimentam-se lentamente e são tímidas, sempre abrigadas sob uma folha ou algum detrito vegetal; têm notada preferência para habitar as regiões litorâneas, especialmente na vegetação da orla das praias. Constroem teias irregulares sob as plantas das praias ou qualquer outro local escuro, onde não sopre o vento. Os machos são bem menores que as fêmeas e se alimentam de restos de insetos capturados pelas teias construídas pelas fêmeas. A viúva negra recebeu esse nome, porque logo após o coito, as pontas dos “êmbolos”, os apêndices (2) sexuais dos machos, quebram-se e eles morrem ficando seu cadáver preso à teia, razão pela qual se pensava que eram as fêmeas que os matavam. Injustiçadas! O veneno das Latrodectus é potente e afeta tanto o sistema nervoso periférico (dor), como o central, fazendo efeito sobre a musculatura lisa que reveste alguns importantes órgãos internos (ex: coração). No local da picada quase não há alterações, mas quando o veneno começa a se espalhar pelo corpo, a vítima chega a gritar de dor; calafrios, tremores, cãibras principalmente nas pernas, pés e dedos do pé que se encurvam. Palpitações cardíacas, suores frios, retenção de urina, alucinações mentais, fadiga e outras encrencas mais dependendo do peso da vítima e da quantidade de veneno injetado. O soro antilatrodectus reverte esse quadro quando secundado por terapêutica de suporte (medicamentos contra a dor, tônicos cardíacos, calmantes, etc). É muita encrenca para uma aranha tão pequena! Encrenca? Encrenca é o que causa nossa próxima aranha: a aranha marrom! Nome científico: Loxosceles spp. Em certas regiões do Paraná, por exemplo, é o problema número 1 em saúde pública. Seis olhos brilhantes como pérolas, corpo de cor cinza esverdeada (lembrando uma azeitona) e pernas, hábitos estritamente noturnos, vida sedentária em sua teia, corpo entre 8 e 15 mm apenas e pernas longas (até 23 mm) e dotadas de um veneno potentíssimo. São encontradas sempre em lugares escuros, buracos, fendas, nos entulhos e materiais de construção, sob cascas de árvores e folhas mortas, nas adegas, garagens, alpendres, quartos de despejo, etc. Constroem uma teiazinha irregular onde ficam imóveis, são pacíficas, não picam e parecem não prejudicar ninguém até que sejam tocadas inadvertidamente. Nesse instante, essa aranha anteriormente mansa reage rapidamente, ferroando a vítima, quando inocula uma pequena quantidade de seu veneno; a partir daí, o mal está feito. Sua toxina é necrosante (provoca gangrena em torno do ponto da picada) e boa parte da pele, musculatura e outros tecidos locais entram em necrose, resultando a perda de todo esse conjunto, às vezes deformando seriamente a vítima. Tô fora! Já não gosto de aranha mesmo, o que dizer dessa aí! Antes que vocês perguntem, vamos sim falar das caranguejeiras e depois do combate às aranhas. Aguarde nosso post a respeito e que será o derradeiro sobre esse tema, prometo. Não perca!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

SOBRE AS ARANHAS – PARTE II

Eu dizia que sendo as aranhas tão úteis ao eliminarem insetos e outros artrópodes que podem devastar nossas lavouras, por que tanta gente sente grande aversão e mesmo medo ao se depararem com uma aranha? A resposta está nos tempos longínquos, nos primórdios da civilização quando cohabitávamos, os humanoides e certas aranhas, nas cavernas onde buscávamos abrigo das intempéries. Lá, aprendemos a evitá-las, pois a dor, o sofrimento e até mesmo a morte podia ocorrer com uma simples picada. Isso ficou gravado de forma atávica em nossos cérebros e nossa tendência natural é evitarmos o contato ou mesmo a simples presença de aranhas em nossos lares (leia “cavernas”). Esse temor não é sem razão, pois existem, em nosso país, algumas espécies perigosas, tais como: as aranhas marrons, as viúvas negras, as armadeiras e as tarântulas. Vamos falar um pouquinho de cada grupo. A “aranha armadeira” (Phoneutria spp) é a aranha mais perigosa do mundo! O povo deu esse nome porque quando ameaçada, costuma armar-se para o bote, isto é, colocando-se rapidamente em pé, encolhe os dois últimos pares de pernas como dois feixes de mola enrolados, eleva seu corpo quase em posição vertical, ergue ameaçadoramente o par dianteiro de pernas e distende suas presas de veneno. Prepara-se e segue os movimentos do inimigo. Se um incauto ou distraído chegar a cerca de 20 ou 30 cm de distância, ela salta rapidamente e crava na vítima seus “punhais” veneníferos. A aranha armadeira vive solitária, não faz teia, é irrascível e feroz, não tolerando nem a presença de outra aranha de sua própria espécie. Em certas épocas do ano adentram às residências passando geralmente por baixo da porta e com frequência escondem-se dentro dos sapatos. Seu corpo mede cerca de três e suas pernas cinco centímetros; tem pelos cinzentos curtos e oito olhos dispostos na frente do que popularmente chamamos de cabeça (cefalotórax), por isso têm excelente visão inclusive à noite. Caçam geralmente ao final do dia e à noite e buscam grilos e gafanhotos, vagalumes e besouros, baratas e outras aranhas menores. Em busca de presas, invadem jardins, lavanderias, garagens. Durante o dia, buscam esconder-se sob móveis, atrás de cortinas, nos armários de roupas que não estejam fechados e, principalmente, dentro de sapatos. A dor de sua picada é extremamente forte, se instala em minutos e perdura por horas a fio. Pulso rápido, suores principalmente na nuca, dificuldades respiratórias, vertigem, queda das pálpebras, dificuldades na visão e, em casos gravíssimos, morte por sufocação. Com o próprio veneno dessas aranhas, perigosa, mas habilmente retirado em laboratório, cavalos são injetados e seu soro sanguíneo conterá anticorpos anti aranha armadeira que tantas vidas têm salvado. Quero ainda falar um pouco sobre as temidas tarântulas, as Lycosas. Vocês já ouviram palavras como atarantado (estonteado, aturdido) ou o verbo atarantar (estontear, confundir, perturbar)? Ou quem sabe a palavra tarantela (um ritmo de dança popular napolitana)? Pois todas essas palavras remetem às aranhas tarântulas que infestavam sem controle desde os tempos dos romanos a cidade de Trento, ou Tarento, no sul da Itália. Os acidentes com humanos eram tantos que já na Idade Média reconhecia-se uma doença chamada de tarantismo ou tarantulismo. Intensa agitação nervosa, perda momentânea do controle de movimentos voluntários, violentas crises dolorosas, convulsões, risos histéricos e choros em altos brados, eram alguns dos sintomas manifestados pelas pessoas picadas por tarântulas. Muitos acidentados dançavam freneticamente até ficarem banhados de suor e caírem de cansaço. No dia seguinte estavam sãos e não se lembravam de nada que haviam feito. Quando então muitas pessoas eram picadas ao mesmo tempo, uma verdadeira multidão dançava freneticamente, gritava e suava. Ao som de um violino e tamborim, com ritmo em compasso de seis por oito, nascia assim a tarantela! Uma vez falei que eu adoro cultura inútil! E como esses ataques coletivos de tarantismo ocorriam em determinadas épocas de ano (época da maior procriação das tarântulas, hoje se sabe), principalmente em torno do dia de São Guido, as procissões seguiam a “dança de São Guido”, coletiva e divertida, dois passos para a frente e um para trás. De minha infância lembro-me os comentários dos mais velhos diante de alguma criança energizada que não parava de se movimentar: “- Está com a dança de São Guido”. Cientificamente, as tarântulas foram denominadas Lycosas e só no Brasil já foram identificadas cerca de 120 espécies. Corpo com um pouco menos de três centímetros e pernas de quatro, pelos de cor cinzenta, mas com listras brancas no dorso; covardes, evitam o confronto e procuram fugir quando descobertas. Não fazem teias e vivem em pequenos buracos no solo onde tenha proteção de vegetais (como a grama dos jardins). Nas residências procuram a proximidade de piscinas; as fêmeas carregam uma bola de ovos presa à extremidade de seu corpo. Para o tratamento da picada das tarântulas, usa-se o soro antilicósico produzido pelo Instituto Vital Brasil. Falta ainda falar das viúvas negras e das temíveis aranhas marrons, o que faremos na terceira parte deste palpitante post!

sábado, 26 de janeiro de 2013

SOBRE AS ARANHAS – PARTE I

Preparando uma aula sobre aranhas e escorpiões, reli alguns trabalhos sobre os aracnídeos, especialmente um livro publicado em 1972, de autoria de Wolfgang Bücherl, hoje já falecido, emérito pesquisador do Instituto Butantan e que dedicou sua vida a estudar animais peçonhentos, tais como cobras (serpentes), aranhas, escorpiões, escolopendras (lacraias), abelhas, vespas e outros mais. Afinal, tem gosto para tudo! Nossa memória não retém tudo o que ouvimos ou lemos (ainda bem!) e foi um grande prazer reler parte dos estudos científicos, sua documentação e conclusões a que aquele estudioso chegou e nos ensinou. Por exemplo, ele cita fósseis de aranhas que datam de mais de quatrocentos milhões de anos, lá no período Siluriano de nosso planeta e que durante a formação do período Carbonífero, começou a diversificação em espécies. De lá para cá as aranhas tiveram muito tempo para evoluir, havendo hoje pesquisadores que calculam o número atual de espécies em cerca de 50.000. Muitas dessas espécies são tão férteis que chegam a produzir algo entre mil e dois mil ovos por ano, dos quais nascem praticamente todos os filhotes. Quer dizer, se todos vingassem, o que está longe de acontecer, teríamos em poucos anos uma camada de aranhas de algumas dezenas de metros de espessura, o suficiente para sepultar literalmente toda a Terra! O freio biológico que impede tal fato é a seleção natural onde só os mais aptos sobrevivem e, naturalmente, um pouco de sorte os seleciona. As aranhas vivem em toda parte, sobre a vegetação e abaixo dela, dentro de fendas e gretas, em túneis, buracos e ocos de árvores, no campo, nas florestas e, naturalmente, nas cidades ou qualquer conglomerado humano. A maioria das aranhas são completamente inofensivas, mas algumas espécies são bastante venenosas e picam. A imensa maioria delas passa a vida completamente despercebida, ainda que todas sejam carnívoras; preferem caçar suas presas de uma forma ou de outra. Caçam, matam e as ingerem sugando-lhes os fluidos vitais. As aranhas arbóreas e as domésticas alimentam-se de insetos em geral como moscas e outros voadores, baratas, percevejos, grilos ou qualquer um que caia em suas teias de captura ou armadilhas. As aranhas de maior porte, como as caranguejeiras, caçam filhotes de lagartixas ou de pássaros, minhocas, e até camundongos recém nascidos. Podem comer seu próprio peso em alimento de uma só vez, mas são capazes de ficar até um ano sem se alimentar ou mesmo um pouco mais. Para caçar sua presa, há dois métodos bem diferentes: o primeiro consiste em detectar a presença da caça, aproximar-se (ou atraí-la) dar o um bote e cravar suas pinças veneníferas injetando a peçonha e assim matá-la. As aranhas que usam tal método confiam em sua visão, o bote é muito rápido, não constroem teias, são errantes e costumam andar sozinhas. Nesse grupo estão as caranguejeiras, as tarântulas, as fonêutrias (perdoem-me o aportuguesamento do termo), todas potencialmente perigosas para o ser humano, e o imenso grupo das salticidas, ou papamoscas que costumam caçar pelas janelas de nossas casas e nos são completamente inofensivas. O segundo método de caça é o da construção de uma teia sedosa e colante para capturar insetos alados mais desavisados que passem por ali. As teias têm uma série infindável de formas, algumas são verdadeiras obras de engenharia e precisão. A fábrica de fios está instalada dentro de seu abdome, geralmente com um par de glândulas excretoras situado na porção anterior do abdome. Na verdade, um fio dessa seda é constituído de centenas de fios individuais, é cerca de 80 vezes mais resistente do que um fio de aço da mesma espessura e é capaz de ceder cerca de 20% de seu comprimento antes de romper-se. Lembrem-se que ela viveram milhões de anos aperfeiçoando-se! Tudo isso para capturar insetos. Se considerarmos que existem trilhões de aranhas sobre a Terra e que todas são carnívoras, veremos que diariamente elas destroem bilhões e bilhões de insetos nocivos às nossas plantações e colheitas. Alguns aracnólogos (estudiosos das aranhas) dizem que “sem a colaboração delas, o homem morreria de forme!” Então, por que a maioria das pessoas tem profunda aversão e medo (como eu, confesso) das aranhas? A resposta a essa palpitante pergunta será respondida em nosso próximo post. Não perca!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

UM POUCO SOBRE ARANHAS

Tenho sido, com certa freqüência, perguntado sobre o tema aranhas em seus mais diferentes aspectos. Quais os riscos, que espécies são perigosas, como controlar, etc. Então, achei que seria interessante fazermos uma revisão superficial sobre esse tema, dividindo em duas partes, OK?
As estatísticas dizem que 50% das mulheres e 10% dos homens sofrem de aracnofobia (medo de aranhas). Pois é! Pode ser uma resposta instintiva ao risco de ser ferroado, herdado de nossos antepassados. Quem são elas, as aranhas? Já foram cientificamente identificadas mais de 40.000 espécies diferentes de aranhas em todo o mundo. São artrópodes peçonhentos (produzem e têm ferrões injetores de veneno), quatro pares de pernas, os segmentos do corpo (cabeça, tórax e abdome) fundidos em dois: cefalotórax e abdome, geralmente quatro pares de olhos, não possuem antenas e são produtoras de seda (glândulas localizadas no interior do abdome). Os fósseis de aracnídeos mais encontrados e estudados, datam do período Devoniano, ou seja, cerca de 386 milhões de anos atrás! Contudo, existe um exemplar de aracnídeo (Palaeotarbus jerami) que data do periodo Siluriano, com 420 milhões de anos e que já possuía uma forma bastante parecida com a forma das aranhas atuais! Vejam como as aranhas são evoluídas.
Praticamente todas as espécies de aranhas são carnívoras e caçadoras (algumas poucas são herbívoras), se alimentando geralmente de insetos, mas as de maior porte como as caranguejeiras, podem capturar filhotes recém nascidos de roedores e aves; não se alimentam de cadáveres. Na verdade, as aranhas só podem se alimentar de alimentos pastosos ou liquefeitos; algumas injetam na vítima enzimas que predigerem os órgãos internos e depois sugam esse conteúdo; outras rompem o tegumento da vítima e ingerem a hemolinfa (o que seria o sangue do inseto).
De uma maneira geral as aranhas vivem isoladas e só se agrupam nas épocas do acasalamento; em muitas espécies esse é um ato terminal, com a fêmea devorando o macho após o coito! Algumas espécies demonstram comportamento social formando colônias, o que é bastante útil quando se trata da defesa da prole. Algumas espécies tecem teias dos mais diferentes modelos, outras produzem tufos de seda apenas para forrar seu ninho. As fêmeas, segundo sua espécie, pode produzir de 1.000 a 2.000 ovos que geralmente ficam protegidos dentro de uma bolsa de seda até o momento da eclosão, quando saem as primeiras ninfas já dotadas de ferrão e glândulas de veneno.
Determinadas espécies são potencialmente perigosas devido à potência de seu veneno. Apenas alguns venenos de aranhas já foram estudados em detalhes. Esses venenos já estudados mostraram uma estrutura molecular complexa e contêm enzimas (e outras proteínas) que causam, no ser humano ferroado, diferentes sintomas e com diversos graus de severidade. Podemos citar dentre as aranhas mais perigosas em nosso país: a armadeira, a marrom, a viúva negra e as caranguejeiras.
Phoneutria (várias espécies): chamada de aranha armadeira, aranha saltadeira, aranha da bananeira. As armadeiras são de hábitos noturnos e não constroem teias, fazendo seu ninho em pequenas escavações e buracos na terra. Locais mais freqüentados: cantos escuros e isolados, escondidas em galhos secos caídos ao solo, pilhas de taboas de madeira, folhagens, em cachos de bananas, restos de materiais de construção. São bastante sensíveis à variação de temperaturas e, quando isto ocorre, buscam refúgio em ambientes mais quentes como, por exemplo, o interior das casas onde, com freqüência, se escondem dentro de sapatos. Quando ameaçadas, tornam-se agressivas e levantam e esticam verticalmente as patas anteriores preparando-se para dar o bote e ferroar. Os sintomas na pessoa picada se caracterizam por dor intensa no local da picada, náuseas, salivação abundante, suores frios e tremores no corpo todo. É preciso tratar com soroterapia em unidade hospitalar especializada.
Loxoceles (oito espécies no Brasil): conhecida como aranha marrom, com cerca de 5cm de tamanho incluindo as pernas, representa um dos maiores problemas de saúde pública no sul do país. Não é uma aranha agressiva (imagine se fosse!), mas seu veneno é muito potente e tem um efeito necrosante (produz deformações) na musculatura do ponto da picada. Eu vi pessoalmente uma menina que havia sido picada na coxa há algumas semanas por uma aranha marrom; coisa feia! Faltava um grande pedaço que havia necrosado e teve que ser extirpado cirurgicamente. No momento da picada, a dor parece à da queimadura de cigarro, o local começa a inchar e algumas horas depois o tecido em volta começa a necrosar. Pode produzir sintomas gerais como náuseas, febre, mal estar e urina de cor achocolatada. O tratamento exige soro antiloxoceles.
Latrodectus (três espécies no Brasil): chamada de viúva negra, essa pequena aranha (até 1 cm de circunferência), costuma habitar o solo em teias bem simples, principalmente onde haja vegetação rasteira, muito comum no litoral. De corpo escuro quase negro, tem uma característica marca vermelha em forma de ampulheta em seu ventre. Não dá para errar. Seu veneno não é muito potente e provoca sintomas moderados, como sudorese, mal estar, agitação e contrações musculares involuntárias.
Lycosa (várias espécies): são as conhecidas e temidas tarântulas (ou caranguejeiras) que, ao contrário do que se pensa, têm um veneno pouco potente. Figurante indispensável nos filmes de terror, a tarântula pode atingir grandes dimensões chegando a um palmo ou mais de diâmetro incluindo as pernas com muitos pelos. A maior aranha do mundo é uma tarântula que ocorre na região amazônica da Venezuela e do Brasil; é a Theraphosa blondi que chega a pesar 150g e ocupa uma área de 30cm de diâmetro incluindo as patas. É um bicharoco de meter medo. Quem quiser conhecê-la, ao vivo e a cores, basta visitar o Instituto Butantan de São Paulo. Lá tem cada uma! A bicha vive sozinha em buracos que escava na terra, forrados com sua seda. Algumas espécies constroem uma armadilha tipo alçapão capaz de capturar insetos que nela pisem (na armadilha, não na aranha, meu!). Alimentam-se de insetos, mas têm clara preferência por pequenos lagartos, filhotes de roedores e de pássaros. As tarântulas, defendem-se girando a traseira de seu corpo para o inimigo e com as pernas traseiras, executam rápidos movimentos de raspagem do terço final das costas, atirando seus pelos contra o animal ou a pessoa que a ameaça; esse pelos são urticantes e alergênicos. Se não conseguir espantar a ameaça, então prepara-se para defender-se com os ferrões, levantando suas patas dianteiras na vertical e preparando um bote, que é curto, diga-se de passagem. Nesse momento, ela dobra de tamanho! Lá mesmo no Butantan, quando ainda era estudante, fui observar mais de perto uma tarântula das cabeludas, devidamente encerrada dentro de um frasco de vidro grosso, o que me pôs mais à vontade. Essa aranha tinha nada menos que 8 olhos, dois dos quais bem grandes e eu podia jurar que ela também me observava, olhos no olho! Girei meu corpo um pouco à esquerda e ela voltou a cabeça para aquele lado; na dúvida, girei para o outro lado e a danada também girou o corpo, continuando a me encarar de frente. Dei a volta no frasco e ela também me acompanhou dando um giro completo. Quer dizer, tive a sensação que ela estava me avaliando como uma refeição em potencial! Tá bom, confesso, eu estou naqueles 10% dos homens que têm aracnofobia. Isso me fez lembrar uma cena do filme “Aracnofobia” (nome muito sugestivo) que fez um certo sucesso há uns 10 anos atrás. Havia um personagem, um Zé Bombinha americano (lá nos Estados Unidos também tem disso, ora se tem!) que levava duas pistolas em coldres na cinta, ligadas a dois pequenos tanques portados às suas costas e ele saia atirando nas aranhas, possivelmente um ácido porque as aranhas atingidas explodiam! Uma pândega, vale à pena ver buscar esse filme (quem ainda encontrar nas videotecas, um comércio em extinção). Pois é, esse coleguinha quando conhecia alguém, logo disparava a pergunta: “- Rato, cobra ou aranha?” A pessoa não entendia e ele explicava: “- Você tem medo do que?” Não é que o carinha tinha razão! Anos mais tarde, trabalhei com um técnico de laboratório na Seção de Vigilância Sanitária da Prefeitura de São Caetano do Sul; bom cara, competente e trabalhador, oriundo do Instituto Biológico, apelidado de Barba por motivos óbvios. Lá pelas tantas, horrorizado, descobri que ele mantinha escondida numa de suas gavetas, uma enorme tarântula como bichinho de estimação e que ela era alimentada com filhotes de camundongos albinos que eram criados no nosso biotério para serem usados no diagnóstico biológico da Raiva. Aproveitando minha condição de chefe, dei um ultimato: ou ele levava a monstrenga embora ou eu mandaria desinfestar o local. Um dia, ainda me informaram que as tarântulas têm vida longa, mais de 10 ou 15 anos! Quer dizer, a tarântula de estimação do Barba deve estar viva até hoje! Gorda, bem tratada! No Livro Guinness de recordes há o registro de uma tarântula que viveu 49 anos! Tô fora! A verdade é que há muita gente que cria as dóceis tarântulas como bichinho de estimação (já vi à venda em PetShops). Mas, tem cada uma!
De novo isso já ficou longo demais. Continuo outro dia.