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sexta-feira, 27 de julho de 2012

COMO OCORREM AS INTOXICAÇÕES POR INSETICIDAS PROFISSIONAIS

Não é toda hora que ocorre, ainda bem, mas vez ou outra a gente escuta falar que alguém, geralmente um operador do controle de pragas, se intoxicou com algum inseticida, ainda que esse fato seja discretamente encoberto pela maioria das empresas controladoras. Se não fosse a rádio peão, não haveria estatística para contar. Independentemente disso, o fato é que intoxicações acontecem. Mas, como acontecem? Foi o que nos perguntou José Alexandre de Sta.Catarina. Vamos ver se consigo resumir: • Pela boca: a. Pós e pulverizados entrando pela boca. Geralmente quando o operador tem suas vias respiratórias semi bloqueadas por algum processo inflamatório, como gripes e resfriados, ele desiste de usar a máscara nasal protetora e assim acaba inalando pela boca o inseticida que está aplicando. b. Ao beber algo que estava em algum recipiente que anteriormente continha inseticida ou que foi contaminado durante a aplicação aérea. c. Comendo algum alimento contaminado. Uma vez soube de um caso onde os operadores estavam tratando uma cozinha de hotel e um deles, aproveitando o descuido do preposto que os acompanhava, rapidamente ingeriu uma grossa fatia de bolo, resto de uma sobremesa não servida e que, como acontece nos hotéis, vai para o lixo. Sucede que outro operador, inadvertida e displicentemente, havia pulverizado inseticida na área e a fatia de bolo acabou sendo contaminada. Duplo erro. Quem pagou o pato foi nosso coleguinha que avidamente quis provar o acepipe a ser desprezado. Foi para Hospital, depressinha. d. Usando a boca para começar a sifonar inseticida de um recipiente para outro. e. Passando a mão contaminada pelos lábios. • Através da pele: a. Respingos acidentais diretamente sobre a pele ou indiretamente nas vestimentas do operador. b. Pulverizando contra o vento. c. Pulverizando sem luvas de proteção ou com guarda pó de mangas curtas. d. Durante o preparo da calda inseticida, derramar ou respingar sobre a pele. e. Durante a execução de alguma manobra de manutenção de equipamentos contaminados ou mal lavados. f. Contato direto com superfícies recém tratadas e ainda molhadas. • Pela respiração: a. Inalando (sem máscara nasal protetora) pós, nuvens de pulverizados ou fumos inseticidas. b. Fumando durante a aplicação ou através de cigarros contaminados. Portanto, olho vivo moçada!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

AS FORMULAÇÕES DOS INSETICIDAS – Parte I


Posso estar errado, mas não me lembro de nenhum inseticida profissional ou raticida que esteja no comércio na sua forma técnica (100% de concentração do i.a.). O composto puro precisa ser misturado (ou formulado) com outros ingredientes para melhorar suas propriedades como a segurança, a solubilidade, o odor, a resistência a fatores adversos, a eficácia, a facilidade de manipulação ou aplicação, a estocagem, etc. Por isso lança-se mão de diluentes, agentes umectantes, solventes e cossolventes, emulsificantes, surfactantes e outros. E busca-se formulações que beneficiem de alguma forma o i.a. (ingrediente ativo) para tornar o produto bem aceito no (disputadíssimo) mercado dos biocidas de uso profissional. Para os inseticidas, os tipos de formulações possíveis são: concentrados emulsionáveis (CE) ou emulsões concentradas (EC), pós molháveis (PM ou WP), suspensões concentradas (SC), microencapsulados (CS), pós solúveis (PS ou SP), soluções oleosas concentradas, iscas, grânulos (G ou GR) e pós (D). Muitos inseticidas são apresentados no mercado em mais de uma formulação, com o objetivo de dar ao profissional controlador de pragas, opções de escolha. Os raticidas (o certo seria dizer rodenticidas) podem ser iscas, pós de contato e blocos. A legislação brasileira não permite raticidas em formulações de pastas ou géis.
Vamos lá, moçada. Vamos começar explicando, antes de tudo, o que significam certos termos que podemos encontrar tanto nos rótulos dos biocidas, como na literatura que aborda esse tema:
• Ingrediente ativo (i.a.): é a substância responsável pelo efeito letal nos insetos, outros artrópodes e roedores.
• Ingrediente inerte: todo composto encontrado em um produto para apenas dar suporte ao i.a. e que não tenha efeito sobre a praga alvo. São o inertes que “desenham” o produto.
• Material técnico: é o i.a. em sua forma pura (95 a 100% de concentração) assim como foi produzido antes de se tornar um produto comercial. Não há no comércio, creio, nenhum material técnico disponível no Brasil. Isso é adquirido pelos laboratórios produtores que levam ao mercado, produtos com concentrações variadas do i.a.
• Formulação: é a forma com que o biocida é apresentado no mercado para ser adquirido por profissionais controladores de pragas (ou cidadãos comuns quando o produto tem uso livre); é composta do i.a. + ingredientes inertes.
• Adjuvante: é a substância (em um produto pode ser mais de uma) que melhora o desempenho do produto, tais como: solventes, emulsificantes, etc.
• Carreador: é um líquido ou sólido inerte que é adicionado ao produto apenas para carrear o produto até a praga alvo. Exemplos: solventes nos quais o i.a. é dissolvido, grânulos nos quais o i.a. é absorvido, pós nos quais o i.a. é misturado.
• Diluente: é todo material líquido ou sólido usado para diluir o i.a. técnico. Água e querosene são dois exemplos de diluentes para inseticidas líquidos; talco ou dolomita são diluentes comuns nos biocidas pós.
• Solução: é a mistura de uma ou mais substâncias em outra substância (geralmente um líquido) na qual os ingredientes ficam completamente dissolvidos.
• Solvente: é um líquido capaz de dissolver certos compostos químicos.
• Emulsão: é uma mistura na qual um líquido fica suspenso em pequeníssimas gotículas em outro líquido.
• Suspensão: é quando partículas de um sólido ou líquido não miscível ficam dispersas em um líquido (mas não dissolvidas). Em uma suspensão estável, essas partículas não decantam no fundo do frasco.
• Emulsificante: é uma substância tenso ativa que estabiliza uma suspensão de gotículas de um líquido em outro líquido, sem o que eles não se misturariam. É comumente usada para misturar, por exemplo, égua e óleo.
• Há ainda outras substâncias que podem estar contidas em um produto biocida, mas vamos ficar por aqui, mesmo porque isto aqui não é, nem pretende ser, um tratado químico! E chega de “entretantos” para irmos aos “finalmentes”, parafraseando o saudoso coronel Odorico Paraguassu.

A escolha da formulação a ser empregada é tão importante quanto à própria seleção do i.a. que vai ser empregado, razão pela qual o profissional deve estar muito atento para esse detalhe. Uma escolha mal feita pode comprometer o resultado final do tratamento, mesmo que o i.a. seja eficiente contra a praga alvo. Ao contrário, uma formulação bem escolhida para o caso, pode produzir excelentes resultados. Na prática, porém, poucos profissionais estão atentos para esse detalhe e acabam escolhendo o produto que vão utilizar, muito mais pela marca (e o que é pior, pelo preço) do que de maneira analítica, raciocinando qual o tipo mais indicado de formulação naquela determinada situação.
Mas, vamos interromper o post neste ponto, para que nossos leitores possam dar um respiro geral. É muita “massarocada” de uma só vez! Um dia, ainda dou um curso para Responsáveis Técnicos e daí eles vão ver o que é bom para a tosse!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOBRE OS INSETICIDAS – PARTE III


Terceiro capítulo dessa emocionante novela “Os inseticidas”. No capítulo anterior, vimos que os IGRs (Insect Growth Regulators), também conhecidos como Reguladores do Crescimento dos Insetos, entravam em cena à galope, desfraldando a bandeira dos inseticidas politicamente corretos, auto sustentáveis, ecológicos, entre tantas bandeiras da modernitude.

IGR (inibidores do crescimento dos insetos):- constituem um moderno grupo de inseticidas, único por afetarem unicamente os processos metabólicos dos insetos e não de mamíferos. Um tipo de IGR, os Juvenóides, interfere no crescimento de insetos por imitar a presença do hormônio natural juvenil (JH), cuja ausência deflagra, na Natureza, o crescimento (e mudança) para a fase seguinte. Os insetos afetados pelo hormônio juvenóide sintético, podem apresentar retardos no desenvolvimento, mudanças de coloração da quitina, efeitos ovicidas (ovos não eclodem), adultos estéreis, asas atrofiadas e impossibilidade de mudança de fase acarretando a morte. Formam um segundo grupo de IGRs, os inibidores da síntese da quitina (a proteína essencial para formar o exoesqueleto dos insetos). Esse grupo interfere na formação de uma enzima sintetizadora da quitina, necessária para a formação de nova cutícula que ocorre a cada mudança de fase do inseto na Natureza. Resulta uma quitina mal formada, incapaz de suportar a pressão atmosférica e de sustentar a musculatura do inseto que, assim, morre na próxima mudança de fase. Ambos os grupos apresentam baixa toxicidade para mamíferos, pássaros, peixes e outras espécies não alvos. Alguns IGRs disponíveis no mercado são:
• Metoprene: um juvenóide que foi o primeiro IGR a ser comercializado, introduzido em 1975 para o controle de mosquitos. Apresentava rápida degradação na água e luz solar, problema contornado através de formulações mais resistentes e de lenta liberação (brickets). Usado em focos larvários com sucesso, mas não afeta pupas. Usado em aerossóis contra pulgas, apresenta longa vida residual.
• Hidroprene: muito ativo contra baratas e pragas de grãos. Introduzido na metade dos anos 80s, o hidroprene permite que as ninfas das baratas atinjam a idade adulta, mas esses adultos geralmente apresentam asas malformadas e são incapazes de se reproduzirem. Não afetando ninfas, o hidroprne destina-se a um controle a médio e longo prazo (entre quatro e seis meses), razão pela qual geralmente o hidroprene é empregado em associação a algum inseticida de efeito mais rápido.
• Fenoxicarb: introduzido no mercado nos final dos anos 80s, esse juvenóide foi utilizado para controlar baratas, pulgas e formigas fogo. Hoje é mais empregado apenas contra formigas.
• Piriproxifen: é um juvenóide de amplo espectro, ativo contra grande variedade de insetos (cupins, moscas, baratas, pulgas, mosquitos, etc). Tem longa vida residual. Pode ser associado a outros inseticidas quando se deseja um efeito mais rápido.
• Diflubenzuron: um inibidor de quitina, começou combatendo pragas agrícolas em 1976, é praticamente não tóxico para aves, mamíferos peixes e abelhas, mas é muito tóxico para invertebrados aquáticos. Hoje é muito utilizado na forma de iscas contra cupins.
• Hexaflumuron: outro inibidor da síntese de quitina, da família da benzoil-ureia descoberta em 1981 pela DowElanco. Não tem odor e apresenta alta solubilidade em água. Baixa toxicidade para mamíferos, aves e peixes, mas afeta invertebrados aquáticos. É empregado com sucesso contra cupins subterrâneos.

Neonicotinóides (ou clorocotinis): é um grupo moderno de inseticidas com mecanismo de ação diferente. No final dos anos 70s, químicos da Shell investigavam compostos denominados nitrometilenos que pareciam ser inseticidas potenciais e já em 1979, cerca de 2.000 compostos nitrometilenos estavam sendo estudados como inseticidas. Em 1985 a Bayer japonesa sintetizou a imidacloprid que mostrou-se ativa contra uma série de insetos. Na esteira, vieram outros neonicotinóides como o thiametoxan, o acetamiprid, o tiacloprid e o nitempiran.
• Imidacloprid:- essa molécula tem registro em mais de 120 países e é usada tanto em ambientes urbanos como agrícolas. Afeta grande variedade de insetos como moscas, besouros, cupins, pulgas, formigas e baratas. A imidacloprid é muito solúvel em água, não é volátil e é estável quando exposta à luz solar em terreno seco. É virtualmente sem odor nas formulações e atua nas sinapses nervosas do inseto, impedindo a acetilcolina de atuar no transporte do estímulo nervoso. No Brasil, foi introduzida no mercado na forma de isca contra moscas.
• Thiametoxan:- com mecanismo de ação semelhante ao imidacloprid, mas ocupando os dois sítios de acoplagem da acetilcolina que transporta o estímulo nervoso de neurônio para neurônio, esse composto apresenta resultados formidáveis no combate a moscas principalmente, embora possa ser empregado contra baratas. No Brasil já está sendo introduzido em diferentes formulações inseticidas com ótimos resultados, pela Novartis/Syngenta.

Sulfonamidas fluoralifáticas: por enquanto só há um composto representante desse grupo, muito utilizado contra formigas, baratas e iscas de cupins.
• Sulfluramida:- tem ação retardada o que permite que o biocida seja transferido de um inseto para outro na colônia (efeito dominó). É um inibidor metabólico para os insetos, de toxicidade oral e dermal baixa para mamíferos e levemente tóxico para peixes a artrópodes aquáticos.

Amidinohidrazonas: grupo representado pela hidrametilnona, sintetizada em 1977 pela American Cyanamid.
• Hidrametilnona:- entrou no mercado do controle de pragas em 1980 em várias formulações para o controle de baratas, formigas e cupins na forma de isca. Atua inibindo a formação do ATP (trifosfato de adenosina), responsável pela produção de energia dentro das células. Foi descoberto que a hidrametilnona encontrada nas fezes das baratas que ingeriram o produto, é capaz de eliminar outras baratas que ingerirem essas fezes (coprofagia é coisa corriqueira na Natureza). No mercado há formulações em pasta e gel.

Fenilpirazóis: outro grupo que tem apenas um representante já comercializado e que tem mostrado bons resultados contra mais de 500 espécies de insetos e ácaros (urbanos e rurais). Descoberto em 1987, começou a ser produzido comercialmente em 1993 e tem registro em mais de 100 países.
• Fipronil:- age por contato e/ou ingestão, afetando o sistema nervoso ao bloquear os canalículos de sódio do sistema nervoso central. Não sendo repelente aos cupins, o fipronil pode ser transferido a outros membros da colônia. Fluidos produzidos por baratas afetadas podem matar outras baratas que os ingerirem (efeito dominó). Também é bastante eficaz contra formigas e mesmo carrapatos. Disponível na forma de iscas de pronto uso, géis, pastas e líquidos para pulverização.

Avermectinas: são inseticidas derivados do fungo Streptomyces avermitilis, um microorganismo que vive no solo.
• Abamectina:- o fungo que a produz foi isolado em 1970 por pesquisadores da Merck a partir de solo coletado no Japão e dele foram isoladas quatro avermectinas de composições diferentes; a chamada abamectina tem 80% de avermectina A com 20% da avermectina B. Vida bem curta (24 horas) quando exposta ao sol, apresenta toxicidade baixa para animais não alvos e paralisa os mecanismos de alimentação do inseto, provocando-lhes a morte. É usada para controlar baratas, mas ainda não há nenhum produto domissanitário com esse i.a. disponível no mercado brasileiro.
Há outros compostos e outros grupos de menor importância no controle urbano de pragas que nao serao abordados neste post.

Não se pode falar de inseticidas sem abordar a questão das formulações, já que um determinado i.a. pode apresentar perfil bastante diferente conforme a formulação em que seja apresentado. Mas, isso será tema de outro post, OK?
Dá um tempo, meu!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

SOBRE OS INSETICIDAS – PARTE II

Seguindo o que estávamos comentando na primeira parte deste tema, vamos falar um pouco sobre o grupo dos inseticidas orgânicos.
Inseticidas Sintéticos Orgânicos: é o maior grupo de inseticidas usado por controladores de pragas profissionais em nossos dias. Compreende: os organoclorados, os organofosforados, os carbamatos, os piretróides, os IDIs (Inibidores do Desenvolvimento dos Insetos), a sulfonamida fluoralifática, a amidinohidrazona, os fenilpirazóis e as vermectinas. Um pouquinho sobre cada classe.
Os organoclorados:- na molécula de todos eles há carbono, cloro e hidrogênio e foi o primeiro grupo dos inseticidas orgânicos sintéticos, ou seja, produzidos artificialmente pela indústria, marcando o ponto de virada na nossa eterna luta para controlar pragas (urbanas e agrícolas). Vejam a matéria que publicamos sobre o DDT aqui neste blog. Em boa parte dos países, a maioria desses compostos já está proibida, especialmente em zona urbana, como o próprio DDT, o aldrin, o BHC, o dieldrin, o lindane, o clordane e o heptaclor).
Os organofosforados:- na molécula há átomos de carbono, de hidrogênio e de fósforo. Comparados aos clorados, os fosforados são menos estáveis, mais voláteis e de ação mais rápida; outra característica: têm odor mais desagradável (problema resolvido nas formulações microencapsuladas). Atuam nos insetos inibindo a colinesterase, uma enzima responsável pela transmissão do estímulo nervoso nas conexões das células nervosas. Intoxicações acidentais podem ser tratadas com sucesso através de antídotos como o sulfato de atropina. Alguns organofosforados estão sendo alvo de preocupações ambientalistas e estão sendo banidos em muitos países do uso urbano ou em recintos fechados, como é o caso do diazinon e do malation. O clorpirifós foi muito utilizado por apresentar ótimos resultados em um amplo espectro de pragas. Atua por contato, ingestão e ação de vapor, com moderado efeito residual. A Dow Química introduziu vários produtos da linha Dursban no Brasil, à base de clorpirifós. Atualmente o clorpirifós tem seu uso restrito a áreas abertas. O diazinon, outro organofosforado muito empregado anteriormente e com muito sucesso, hoje também está sofrendo restrições e caminha para a proibição de uso, assim como o propetanfós. Dos organofosforados, o que tem vida comercial bem longa é o diclorvós (DDVP) porque sua meia vida é muito curta e se degrada no ambiente após ser aplicado, em não mais de 72 horas.
Os carbamatos:- a extinta Ciba-Geigy foi a empresa que no final dos anos 50 sintetizou os primeiros carbamatos que eram igualmente inibidores da colinesterase nos insetos, mas tinham caráter de reversão em caso de intoxicação acidental. O melhor exemplo desse grupo foi o carbaril, hoje em desuso, seguido do bendiocarb. Ainda em uso está o metomil desde 1966, ainda muito empregado contra moscas em diferentes formulações. O propoxur tem características interessantes, especialmente empregado na forma de aerossóis em produtos de uso doméstico.
Os piretróides:- sintetizados a partir dos piretros (hoje com poucas semelhanças), o primeiro deles foi a aletrina e o grupo tem algumas características interessantes que o tornou muito empregado nos tratamentos profissionais contra pragas em ambiente urbano, embora apresentem certos problemas: têm ação rápida e efeito desalojante, são tóxicos para insetos mesmo em pequenas concentrações de uso, têm baixa toxicidade para mamíferos, têm odor relativamente baixo, são relativamente fotoestáveis e pouco voláteis (exceto os primeiros que surgiram) o que lhe concede uma meia vida relativamente longa em torno de algumas semanas, têm baixa solubilidade em água, podem causar irritações cutâneas nos operadores que trabalham desprotegidos, são tóxicos para peixes e podem causar repelência em certos insetos sob determinadas condições de emprego. Depois da aletrina (primeira geração de piretróides) veio a segunda geração (tetrametrina, resmetrina e bioaletrina). Seguiu-se a terceira geração (fenvalerato e permetrina) e a quarta (beta-ciflutrina, bifentrina, ciflutrina, cipermetrina, deltametrina, esfenvalerato, lambdacialotrina, para citar os i.a. já comercializados no Brasil). A cada nova geração, o perfil do grupo foi sendo aperfeiçoado em determinadas características. Os piretróides estimulam o sistema nervoso dos insetos que passa a produzir repetidas descargas elétricas nas células nervosas, provocando paralisia e morte (ação sobre os canalículos de sódio da bainha das células nervosas)
Os IGRs (Insect Growth Regulators ou Reguladores do Crescimento dos Insetos): vamos parar por aqui e retomamos no próximo post, OK?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

SOBRE INSETICIDAS – PARTE I


Já faz algum tempo que tenho vontade de escrever um post sobre os inseticidas em geral. Ensaio, postergo, me preparo, adio e nunca começo. Hoje, resolvi escrevê-lo. Não esperem nenhum tratado científico sobre o assunto, posto que isto aqui é um mero blog cuja intenção é a de trazer aos leitores um pouco de assuntos técnicos de forma leve e abrangente. Pretendo muito mais relembrar certas matérias, discuti-las, repassar e dar um passeio sobre os temas que posto (será que em bom português já existe o termo postar no sentido de colocar no ar via internet alguma coisa?).
Nenhum ramo do fértil e complexo campo do conhecimento humano sobre o controle de pragas caminhou mais rápido e mais fundo do que os inseticidas, nestes últimos 50 anos. Novos compostos químicos tornam-se rapidamente conhecidos devido à agilidade da Internet, com sua sempre crescente rede de “sites da web” (cada vez mais temos que engolir esses galicismos porque se tornam termos universais até mesmo antes de ganhar alguma tradução), sejam das indústrias, das universidades, dos distribuidores, das agências governamentais, sejam mesmo de blogs como este. Ao lado dos novos compostos que vão sendo disponibilizados de forma comercial, outros se vão, descontinuados por seus produtores ou proibidos por decisões regulatórias das agências governamentais. Vocês sabiam que de cada 10.000 novas moléculas químicas pesquisadas apenas uma chega à fase comercial e que, de sua sintetização até sua comercialização, leva um tempo médio de oito a 10 anos?
Já percebi que este post vai longe e que vamos ter que dividi-lo em partes para publicação! Mas, vamos lá!
Gosto do termo “biocida” para designar uma substância ou composto capaz de eliminar pragas; gosto e o uso com freqüência. Acho melhor que praguicida (um tanto agrícola para meu gosto). Para mim, o termo biocida compreende tanto os inseticidas (e outros específicos como acaricidas, mosquicidas, pulicidas, fungicidas, escorpionicidas, etc), como os rodenticidas (ou raticidas). Portanto, inseticida é um biocida específico destinado a eliminar insetos, embora possa ser empregado (com sucesso) contra outros artrópodes como aranhas, escorpiões, carrapatos, milípedes e ácaros (todos não insetos).
Os inseticidas são definidos por sua fórmula química e ganham nomes comuns quando na fase de comercialização. Por exemplo: um composto cuja fórmula química é ciano (4-fluoro-3-phenoxifenilo) metil 3 (2,2-dicloroetenil) -2,2- dimetilciclo –propano -carboxilato ganha o nome comum de apenas... ciflutrina! Ainda bem!
Há várias classificações e grupos que podem juntar moléculas do mesmo tipo ou que tenham alguma similaridade. Por exemplo, podemos agrupar os inseticidas quanto à rota de penetração nos insetos; dessa forma teremos inseticidas de contato, de ingestão ou de inalação. Cada inseticida pode penetrar no inseto por uma ou mais rotas, sendo a mais comum, o contato. Ou podemos classificá-los pelo tempo de ação: fulminantes ou residuais. Há alguns que devido sua alta tensão de vapor, volatilizam-se com facilidade e o vapor gerado já é letal para o inseto se inalado; ex: DDVP (ou diclorvos) que atua em minutos. Entre os residuais, posso citar aqueles que são formulados como microencapsulados (CS), com longa duração de meses.
Para efeito deste post, vamos agrupar os inseticidas em cinco grandes tipos: Os inseticidas inorgânicos, os botânicos, os orgânicos, os bioinseticidas e um grupo de miscelânea.
Inseticidas inorgânicos: muito em voga antes da Segunda Grande Guerra (1939-1945), esses compostos eram quase todos de origem mineral e não tinham nenhuma molécula de carbono em suas fórmulas. Os mais conhecidos eram os compostos de Bóro, destacando-se o ácido bórico. Seu interesse está longe de ter morrido, pois além de sua baixa toxicidade para mamíferos, não induz resistência em insetos. Sua desvantagem é que leva um tempo considerável para atuar (de sete a 10 dias) no inseto que com ele se contaminou. É usado na forma de pó e age por contato e ingestão. A Sílica Gel e a Terra Diatomácea são outros inseticidas inorgânicos ainda utilizados no controle de pragas urbanas sob certas circunstâncias. Ambas são derivadas da sílica amorfa (a sílica gel é fabricada a partir da areia e a terra diatomácea provém de depósitos de diatomita, forma fossilizada de uma pequena planta denominada diatoma). Em tempo: como disse há muitos posts atrás, adoro cultura inútil!
Inseticidas botânicos: derivados de plantas. Os mais conheci dos são os piretros que geraram, sinteticamente, os piretróides(sobre os quais falaremos mais adiante). O ácido crisantêmico, a origem desse grupo, foi isolado a partir de certas linhagens de crisântemos, flores sobre as quais, foi observado, nenhum inseto se atrevia a pousar. Mais cultura inútil: essas flores foram usadas para repelir insetos (especialmente voadores) na Pérsia e na Dalmácia (atual Iugoslávia) em priscas eras. Os piretros são ainda hoje, muito utilizados em todo o mundo para controlar insetos profissionalmente. Sabem de onde vem a maior produção de piretro contido nos crisântemos? Do Quênia e da Tasmânia. Mas há grande produção de crisântemos também na Tanzânia, em Ruanda, na Nova Guiné e até no Equador. Como alguns piretros podem produzir apenas um efeito de choque em certos insetos que após um lapso de tempo se recobram, passou-se a adicionar aos produtos à base desses compostos, algumas substâncias sinergistas (aumentam o efeito) como o butóxido de piperonila, por exemplo. Os piretros são inseticidas de contato de baixa toxicidade para mamíferos e quase não têm efeito residual, porque se degradam rapidamente sob ação da luz. Contudo em áreas escuras e protegidas, seu efeito pode alcançar até duas semanas. Geralmente seu efeito fulminante é forte, além de serem irritantes para insetos como baratas, produzindo o chamado efeito desalojador.
Temos que falar agora dos inseticidas orgânicos sintéticos, mas vamos fazê-lo no próximo post, OK?