sábado, 17 de abril de 2010

REVISÃO TÉCNICA: PULGAS – PARTE II

Na Parte I desta rápida revisão, vimos alguns pontos fundamentais da biologia e comportamento das pulgas domésticas, os quais servirão de base para abordarmos a questão de seu controle. Caso o leitor esteja acessando o blog pela primeira vez e se interesse por este tema, sugiro a leitura da Parte I (logo abaixo) antes da leitura desta Parte II.
Retomando, qual o melhor método para controlar pulgas, digamos, em uma residência?
Tradicionalmente, o combate às pulgas domésticas tem sido feito aplicando-se inseticidas no ambiente infestado, embora nem sempre os resultados sejam os melhores. Hoje já se sabe algumas razões que impedem o pleno sucesso. Na verdade, o conhecimento do controle das pulgas em residências avançou bastante, exatamente pelo aprofundamento dos conhecimentos da biologia da pulga e de lá foram tirados os fundamentos do controle. Por exemplo, a pulga pré-adulta quando está dentro de seu casulo protetor (fase de pupa) é capaz de detectar a presença de inseticidas no ambiente (para elas, um agente agressor) e assim, simplesmente não eclode e fica quietinha dentro desse casulo aguardando melhores tempos, isto é, que os inseticidas aplicados tenham perdido seu efeito, o que certamente ocorrerá em algumas semanas. Lembram-se que eu havia comentado que as pulgas podem ficar dentro de seus casulos até um ano sem se alimentar? E não é só isso! Para sair do casulo, a pulga doméstica detecta a presença de um certo teor de CO2 (dióxido de carbono) no ar ambiente que é, exatamente, o resultado da respiração dos mamíferos. A presença desse gás no ar do ambiente infestado, significa para a pulga a presença segura de uma fonte de alimento (sangue), um cão, um gato ou mesmo um ser humano. Quando ela percebe isso, imediatamente irrompe do casulo uma pulga adulta, literalmente esfomeada, buscando sua primeira vítima. Outro fator que pode provocar a eclosão dos casulos, são as vibrações que as pisadas dessa vítima provocam quando caminham nesse ambiente. As pulgas, um ser predador que teve milhões de anos para evoluir junto de suas presas (nós e nossos animais domesticados), desenvolveu essa capacidade de “ler e interpretar” o ambiente onde se encontra ainda dentro de seus casulos; combina a presença do CO2 atmosférico em taxas razoáveis com as vibrações das pisadas e sai do casulo. Mas, ela não fica imóvel depois que sai do casulo, esperando passivamente que sua vítima passe por perto. Na verdade, a pulga fica saltando o tempo todo. Descobriu-se que na base de suas desenvolvidas pernas posteriores (como todo inseto, a pulga tem três pares de pernas) existe uma proteína chamada resilina, que forma uma espécie de almofada de borracha elástica (usei essa comparação somente para melhor esclarecer, OK?) e que permite à pulga dar grandes saltos (até 30cm de altura) sem parar e sem se cansar, pois quase não há nenhum dispêndio de energia, graças à resilina. Pois é o que ela faz: saiu do casulo, começa a saltar feito uma louca. Qual é o objetivo desses saltos incessantes? É que nas pernas da pulga, existem umas espécies de farpas, ou ganchos de quitina (a proteína que forma seu esqueleto) e, se um gato ou cão por ali passar, talvez em um desses saltos ela apanhe o animal passante, se prendendo aos pelos da vítima com esses ganchos. Pronto, a pulga recém eclodida está salva! Caminha rapidamente por entre os pelos da vítima, busca preferentemente uma área do corpo do animal onde ele não consiga atingir com a língua (geralmente o dorso ou a parte posterior da cabeça e pescoço), e faz confortavelmente sua primeira refeição. Por outro lado, milhões de anos de estreita convivência entre cães ou gatos e seus principais ectoparasitas, as pulgas, deu às vítimas algumas armas de combate como, por exemplo, línguas ásperas (especialmente nos gatos) destinadas a remover pulgas dentro da pelagem. A Natureza é perfeita, não acham?
Isso tudo explica porque quando alguém entra em uma casa onde havia um animal de estimação presente e que tenha ficado fechada por meses (por exemplo, à espera de um locatário), mal dá alguns passos e suas pernas podem ficar lotadas de pulgas agarradas às calças do infeliz. São elas esperando pacientemente uma vítima salvadora. Quer dizer, se não tem tu (cão ou gato), vai tu mesmo (um ser humano)! Elas precisam desesperadamente de alimento e, embora não apreciem o sangue humano, na hora da necessidade ingerem o que tem. Mais tarde, se houver um cão ou um gato presente no ambiente, abandonam o ser humano e ficam por lá novamente pulando adoidadas aguardando que sua vítima de eleição passe por perto despreocupada.
O que mais? E tem mais ainda? Tem... tem um monte de coisas sobre as pulgas que já sabemos e, pode não parecer, mas isto aqui é apenas um resumo. Uma coisa só a mais: as larvas das pulgas buscam pontos do piso onde se juntem cisco e poeira, pois vão precisar desses materiais para formar seus casulos protetores quando chegar a hora de mudar de fase. E também é nesses pontos que vão existir fezes de pulgas adultas em maior quantidade, alimento necessários às larvas. As fezes caem livremente do corpo do cão ou gato em qualquer ponto da casa, basta que o animal se sacuda (as fezes de pulgas são aqueles pontinhos pretos que a gente observa junto à pele, quando abrimos o pelame do animal). Sim, tanto esses ciscos, como as fezes das pulgas, são depositados nesses pontos (junção de tacos ou das tábuas do assoalho, junções das lajotas de piso frio, tapetes, por exemplo), através das varreduras superficiais quando a casa está sendo limpa.
Caramba... este post já está ficando comprido demais e ainda não falamos do combate! Ta bom, então vamos interromper aqui e voltaremos a falar na Parte III que, prometo, não vai demorar muito, OK?Isso aqui já está parecendo o crime da mala, sô!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

REVISÃO TÉCNICA: PULGAS - PARTE I

Claro que um tema técnico dessa abrangência, não é assunto para um simples blog, eu concordo. Mas, começaram a me solicitar resumos de certas pragas urbanas para rememorar pontos importantes que poderiam estar presentes nas conversações dos profissionais controladores de pragas com seus clientes e mesmo certos pontos que pudessem ser expostos nas propostas de serviços. Dessa forma, vamos dar um rápido passeio sobre a pulga e suas implicações, sem esquecer o tratamento.
Como isto é apenas um resumo, embora dividido em duas partes, vamos por tópicos:
· As pulgas adultas são hóspedes permanentes dos animais, quer dizer, não ficam paradonas no ambiente esperando um cachorro ou gato passar. Na verdade, se tudo der certo, depois que conseguiram uma carona na sua vítima, procuram dela não mais sair Ali alimentam-se, acasalam, põem seus ovos e morrem (de velhice, se nada for feito contra elas ou se o animal não as removê-las com a língua)
· As pulgas não abandonam o animal para depositar seus ovos.
· Os ovos das pulgas não são pegajosos (como os dos piolhos ) e assim podem cair do animal em qualquer ponto da casa.
· A maioria das pulgas encontradas sobre um cão ou gato, originou-se na própria casa a partir de uma pulga fêmea que já estava maturando seus ovos quando passou um animal por perto durante um passeio externo.
· Poucas pulgas são coletadas pelo animal fora de casa. Portanto, o problema está no interior das residências e não lá fora.
· O alimento das pulgas adultas é sangue, exclusivamente sangue e nada mais.
· As diferentes espécies de pulgas acabaram se especializando na preferência pelo sangue de determinadas espécies de animais. Dessa forma, a chamada pulga do gato (Ctenocephalides felis) tem preferência pelo sangue de felinos, embora possa infestar um cão. Já a pulga do cão (Ctenocephalides canis), prefere o sangue de canídeos, mas se não tiver cão...
· A pulga é um inseto que se desenvolve por metamorfose completa: ovos – larvas (são 3 estadios) – pupas – adultos. Nas fases larvárias, se alimentam de bactérias, mofo e fezes das pulgas adultas onde há grande porcentagem de sangue mal digerido. Na fase de pupa, a pulga não se alimenta e na fase adulta, sangue.
· Na derradeira fase larvária, esta procura um ponto onde haja ciscos e poeira que ela vai utilizar para formar o casulo da pupa.
· Dentro da pupa, protegido, o préadulto pode aguardar as melhores condições ambientais (incluindo a presença de um animal de sangue quente – pode ser uma pessoa) por até um ano sem se alimentar, em estado de dormência.
· Nos países e regiões de clima mais quente ou tropical, o ciclo completo da pulga (de ovo a ovo) pode ocorrer em apenas duas semanas.
· Uma vez encontrado um hospedeiro, a pulga vai procurar infestá-lo permanentemente, onde se alimenta, copula, põe ovos.
· Se a pulga adulta não encontrar um hospedeiro dentro de 12 dias após ter saído do casulo, morre. E sobre o animal, também não vai muito longe (cerca de 7 ou 10 dias), pois a habilidade que os cães e especialmente os gatos em removê-las enquanto penteia seu próprio pelame através de vigorosas e repetidas lambidas, é notória.
· As pulgas podem provocar vários problemas aos animais que infestam. Transmitem tênias aos cães e gatos (Dipylidium caninum), produzem dermatites à vezes severas, podem causar anemia sobretudo em animais jovens. Ao ser humano, a pulga dos ratos (Xenopsylla cheopis) pode transmitir a peste bubônica e o tifo murino.
Quais o melhores métodos para combater as pulgas domésticas? Como este post já está ficando comprido demais, vamos examinar isso numa futura postagem, certo? Não demora, não!

A Arca (para matar a saudade)

Já que falamos em Arca de Noé, vale a pena recordar um de nossos cartoons do Higiene Atual impresso.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

FORMIGAS DOCEIRAS: ONDE NÃO TEM?

Lá vão elas! Em fila quase indiana para cá e para lá. São incansáveis, são trabalhadoras, são rápidas e estão em quase todas as residências, casas comerciais, indústrias, estabelecimentos alimentícios, hospitais e outros estabelecimentos de saúde, até em escritórios. Quando se encontram na trilha, se tocam rapidamente e “conversam”, na linguagem das formigas, obviamente (toques de antenas com diferentes intensidades, feromônios, odores). São numerosas e seus formigueiros quase sempre são muito simples, destituídos de estruturas complexas como os das formigas de jardim ou do campo. Saem detrás de batentes de portas e janelas, das placas de interruptores nas paredes, de rejuntes de azulejos quebrados, de rachaduras e gretas nas paredes, do interior de eletrodomésticos, de pequenos vãos, etc. À noite, saem aos montões e de dia, também saem, mas em menor número. Quando encontram um alimento, por mínimo que seja, se juntam para forragear ali mesmo ou para transportar pedaços ao formigueiro. Sua estrutura social é também simples quando comparada às espécies externas: uma rainha fértil (pode haver mais de uma) e operárias inférteis que realizam todas as tarefas necessárias à manutenção do formigueiro; machos só parecem nas épocas das revoadas nupciais quando os futuros reis e rainhas ganham asas. Uma característica interessante nas revoadas: as asas se desprendem alguns minutos depois que esses machos e fêmeas alados tocam o solo.
Existem numerosas espécies de formigas urbanas, mas há um pequeno grupo de cerca de seis ou sete espécies, chamadas no seu conjunto de formigas doceiras, que insistem em fazer em nossas casas seu habitat. As mais comuns são: a formiga fantasma (Tapinoma melanocephalum) que ganhou esse nome porque a cabeça e tórax são escuros, mas o abdome e pernas são bem claras, quase brancas; a formiga carpinteira (Camponotus spp) que são um pouco maiores que a fantasma e que usam falhas nas estruturas de madeira para abrigar seus formigueiros (atenção: não se alimentam de celulose); a formiga louca (Paratrechina longicornis) que anda em círculos em seu deslocamento, daí advindo seu nome; a formiga faraó (Monomorium faraonis) que é agressiva e domina as outras espécies onde chega; a formiga lavapés (Solenopsis spp) que prefere construir seus formigueiros no exterior da residência, fazendo monturos de terra bem aparentes; a formiga acrobática (Crematogaster spp) que pode ser reconhecidas pelo tórax (gaster) em forma de coração quando visto de cima; a formiga pixixica (Wasmannia auropunctata), fácil de ser encontrada nas roupas de cama e que ferroa de forma muito dolorosa; a formiga cabeçuda (Pheidole spp) assim chamada por motivos óbvios; a formiga argentina (Leniphitema humile) que não tem nada de humilde, aliás... Há ainda outras espécies doceiras que variam de região para região. Atrás desse inocente nome de "doceiras" reside uma grande perigo, pois as formigas caseiras podem levar em suas patas uma série de bactérias, algumas patogênicas (causadoras de doenças), um enorme risco, por exemplo, em hospitais e assemelhados.
Não são todos e nem qualquer inseticida que conseguem de fato controlar infestações dessas formigas. Algumas espécies, sentindo a presença de um inseticida aplicado em seu território, simplesmente se recolhem a seus formigueiros e ali ficam até que o efeito do produto passe ou o inseticida seja removido. Quer uma sugestão? Use um bom inseticida microencapsulado (elas não percebem!), mas que seja de boa qualidade e não deixe odor onde aplicado, se não...

terça-feira, 30 de março de 2010

NOSSA ARCA DE NOÉ É MAIS COMPLICADA

No bairro do Morumbi, em São Paulo, uma senhora toma um enorme susto com uma cobra que passeava pelo seu jardim. Em Belo Horizonte, uma menina de pouca idade é ferroada por um escorpião amarelo ao colocar o tênis assim que acordou. Passa mal, é internada e falece. No Rio de Janeiro e em Salvador, as autoridades sanitárias declaram-se incapazes de evitar um pico epidêmico de dengue hemorrágico que ocorre no verão e cuja taxa de mortalidade chega a 2%; a razão é uma infestação urbana descontrolada do mosquito Aedes, o transmissor dessa temida enfermidade. O Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura de são Paulo prevê um grande número de casos humanos de leptospirose, se voltarem a ocorrer inundações na cidade em decorrência das fortes chuvas de verão; a leptospirose é uma doença transmitida pela urina de ratos que habitam os esgotos da cidade. As autoridades sanitárias federais estão realizando sucessivos levantamentos em berçários de diversas maternidades no Brasil, devido ao expressivo número de óbitos em bebês prematuros que vêm sendo registrados; os resultados iniciais desses estudos demonstram que as bactérias causadoras das mortes dos bebês possivelmente estejam sendo disseminadas por baratas ou até mesmo formigas doceiras.
Seja como for, gostemos ou não, dividimos nosso meio ambiente urbano com uma enorme série de diferentes espécies animais que, em conjunto, sobrepassam-nos em número muitíssimas vezes. Muitos desses animais, infelizmente, são importantes transmissores de algumas doenças à espécie humana (zoonoses), por isso com eles nos preocupamos. Todo mundo sabe que cães e gatos podem transmitir a raiva e por isso necessitam ser vacinados todos os anos. Mas, quantos sabem que os inocentes camundongos podem transmitir a leptospirose de curso mortal em 11% dos casos? Que os lerdos escorpiões provocam cerca de 1% de óbitos entre as pessoas que foram ferroadas? Que as aparentemente indefesas e pequenas aranhas marrons causam a necrose de grandes porções de pele e músculo no ponto da picada, deformando as vítimas? Que uma simples picada da pulga de um rato pode nos transmitir a temida peste bubônica em algumas regiões do Brasil? Que um ridículo mosquito pode literalmente arrasar nossa saúde e nos por em risco de vida?
E quem é que cuida de tudo isso? Quem está fazendo alguma coisa para por um pouco de ordem nessa grande arca de Noé em que vivemos?
Bem, há uma porção de gente boa envolvida nos esforços permanentes e incansáveis de lidar com todas essas questões. Tem o pessoal dos órgãos públicos sanitários nas esferas federal, estaduais e municipais assoberbados com enormes problemas de saúde pública. Tem os pesquisadores e professores dos institutos de pesquisa e de ensino técnico especializado, que diuturnamente buscam novas abordagens de controle das pragas urbanas. Tem o pessoal das indústrias produtoras de insumos que permitem alcançar níveis de controle ou até mesmo erradicação. E tem os profissionais controladores de pragas, último recurso do cidadão comum para defender-se dos agravos de saúde trazidos por certas pragas. É muita gente envolvida nesse tema, todos os dias! Axé, minha gente, muito axé!

sábado, 27 de março de 2010

O MISTÉRIO DO FRANGORRATO – PARTE II

OK, vamos continuar a contar o mistério do Frangorrato. Dêem uma olhada logo aí abaixo para relembrar como a coisa começou e até que ponto havíamos chegado. Eu dizia que um acordo fechou a discussão e os queixosos saíram felizes (bem felizes!). O frigorífico também ficou feliz, por que não, já que conseguiram impedir que o caso fosse levado à mídia, o que contentou bastante o supermercado. Bem, o frigorífico não estava super feliz porque agora se preocupava em saber como aquele rato havia entrado no frango. Primeiramente, fotografaram exaustivamente o réu e enviaram-no para uma Universidade para melhores exames. O laudo (simples) apenas confirmou que o rato dividia seu espaço na carcaça com os pés, a moela, a cabeça e o fígado do galinhão, como era de se esperar. O intruso foi identificado como sendo uma ratazana (R.norvegicus) macho adulto (mais de 200g de peso). E nada mais. Sim a embalagem original não havia sido violada! O pessoal do frigorífico até que se esforçou bastante para tentar entender o que havia ocorrido, mas as hipóteses levantadas não satisfaziam. Então, nem me lembro como, fui chamado para tentar descobrir a trama. Lógico, no primeiro contato, uma reunião com o pessoal do frigorífico serviu para algumas respostas importantes. Antes de mais nada, eles mantinham sob contrato, uma empresa local controladora de pragas há cerca de 5 anos e nunca haviam registrado problemas com roedores no perímetro de suas instalações. Fui conhecer a linha de produção que mais ou menos era a seguinte: os frangos eram abatidos mecanicamente por corte do pescoço, as carcaças recebiam um banho com água ferventes já dependuradas em um sistema que se movia o tempo todo (como uma linha de montagem de uma fábrica de automóveis), passavam por uma despenadeira, eram evisceradas logo adiante, a cabeça, pés, moela e fígado eram separados e caiam em uma esteira rolante. A carcaça continuava e era depositada em uma mesa para preparo final, onde operárias colocavam as vísceras no interior de cada uma; a carcaça era então depositada sobre uma bandeja de isopor e envelopada por uma máquina. Dentro do processo, cada carcaça era manipulada e verificada no mínimo por três pessoas. Quer dizer, para que alguma operária dessa linha pudesse enfiar um rato morto dentro de uma carcaça, teria que haver um conluio entre elas, o que era altamente improvável, para não dizer impossível. Não encontrei sequer uma cíbala (fezes) de roedores no frigorífico. Examinei a canaleta de drenagem de águas utilizadas na linha de manipulação: limpa, higienizada e gradeada. Nada encontrei de suspeito na câmara frigorífica onde as carcaças eram estocadas até seu despacho para o comércio. Revisei meus conhecimentos e não encontrei uma única teoria que pudesse minimamente juntar o quebra-cabeças. Fui embora assoviando para disfarçar e até hoje me questiono, sem sucesso! Por via das dúvidas, anotei bem a marca do frango!
O mistério do frangorrato... continua um mistério!

quinta-feira, 25 de março de 2010

SOBRE O ÓLEO DE CITRONELA NA REPELÊNCIA A INSETOS

Recebo em meu e-mail uma consulta sobre a eficiência do óleo de citronela como repelente a insetos. Minha primeira impressão é que os profissionais controladores de pragas estão cada vez mais interessados nesses diferentes óleos essenciais vegetais para uso contra certas pragas. Outro dia falei sobre o Óleo de Nim (vide abaixo) e hoje vou comentar um pouco sobre o Óleo de Citronela, a pedido.
A citronela é uma espécie de capim aromático (lembra o napier usado para arraçoar gado bovino) originária do Pacífico e existem duas espécies (com diferentes teores de citronelal e geraniol, os princípios ativos responsáveis pela ação repelente). Uma é a citronela de Java (Cymbopogon winterianus) que possui maior teor repelente e a segunda é a citronela do Ceilão (Cymbopogon nardus). O conhecimento da ação repelente da citronela sobre insetos, especialmente alados, é milenar e há registros antigos de seu uso em diferentes situações. Na verdade, há vários outros usos interessantes para a citronela como nas dores, reumatismos, LER e inflamações articulares em massagens e fricções. O óleo essencial da citronela tem também sido empregado em coleiras de cães para evitar os ataques de moscas sugadoras e mutucas e até carrapatos e pulgas. Algumas gotas em dois litros de água produzem um ótimo desinfetante tanto para superfícies (pias, mesas, tábuas de carne, etc), como para verduras e legumes. Usado em velas, cremes e loções, o óleo de citronela demonstra uma notável capacidade de repelir insetos e proteger pessoas em áreas de borrachudos, mosquitos e outros voadores picadores.
Com essa capacidade em mente, usar o óleo de citronela combinado com inseticidas pode ser um contrassenso. Se queremos que o inseto entre em contato direto com a superfície onde aplicamos um inseticida, não devemos associar citronela, não é isso? Mas para o profissional controlador de pragas, o óleo de citronela pode ser uma interessante ferramenta para afastar (proteger) um determinado ponto de uma instalação do acesso de pragas, principalmente voadoras. E a planta, pode repelir? A resposta também é afirmativa, obviamente se forem plantadas em pontos aproveitando a direção dos ventos predominantes. Uma vez, recomendei numa granja de aves, que se plantasse pés de citronela intervalados por 1,5m formando uma linha de proteção em torno do galpão das galinhas. Funcionou muito bem! Ajudou bastante a reduzir o problema de moscas. O resto do controle foi químico e manejo adequado.

sábado, 20 de março de 2010

O MISTÉRIO DO FRANGORRATO

Minhas andanças como profissional controlador de pragas nestes últimos 40 anos, me levaram para as mais diferentes regiões do país e sempre tive novas oportunidades de me deparar com problemas verdadeiramente intrigantes e desafiadores. Toda a base teórica do conhecimento desse ramo de especialidade, muito valeu para a busca de solução de cada caso e raramente uma situação ficou sem explicação. Vou lhes contar um “causo” sem final feliz, onde a verdade nunca apareceu. Chamei esse “causo” de - O Mistério do Frangorrato. Vamos lá!
Fui chamado até uma cidade de Sta.Catarina para tentar resolver um incidente no mínimo intrigante. Uma dona de casa foi ao supermercado onde habitualmente se abastecia e adquiriu um frango inteiro frigorificado. O frango congelado adquirido estava devidamente lacrado em sua embalagem original e assim foi levado para a casa dessa senhora que havia planejado um solerte frango com farofa para o almoço dominical da família. Aliás, ela, na verdade, havia comprado dois frangos da mesma marca, ambos de porte avantajado, já que a irmã, o cunhado e dois sobrinhos também estariam presentes no ágape dominical. No dia previsto, a senhora mentalizou o que faria com os frangões (não consegui saber qual a receita que seria usada) e logo cedo os retirou para descongelar. Algumas horas depois, carcaças já descongeladas, essa senhora rompeu a embalagem de um dos frangos, removeu cabeça, pés, fígado e moela que muitos frigoríficos produtores inserem dentro da carcaça, e lavou as peças deixando-as reservadas. Pegou o segundo frangão e já ia proceder da mesma forma quando notou um apêndice estranho apontando do interior da carcaça. Era algo um pouco comprido, cilíndrico, da grossura de um dedo mindinho e com certos anéis em sucessão. Já meio horrorizada, ela aproximou a vista e notou que esse apêndice tinha alguns pelos hirsutos como se fosse uma cauda de algum animal desprovido de penas. Lembrem-se, o filme plástico transparente da embalagem original não havia ainda sido rompido. Parecia uma cauda... e era! Ela, com um grito de espanto e horror, identificou uma cauda de rato! Como? Uma cauda de rato? Que espécie de frango seria aquela que teria uma cauda parecida com a de um rato? Confusão na cozinha, ela chama a empregada e o marido como testemunhas. Pânico geral, por via das dúvidas o frangão retorna rapidamente à geladeira até segunda ordem e a família sai para comer pizza no almoço. Obviamente na segunda feira essa senhora e seu indignado marido iriam ao supermercado para exigir satisfações, levando o frangorrato embaixo do braço. O gerente examinou o réu com muito cuidado e sentenciou que, se a embalagem original estava intacta, como de fato estava, o supermercado não poderia ter culpa no cartório e assim a queixa deveria ser levada ao frigorífico que produziu o frangorrato. Mais ainda, o gerente afirmou que o estabelecimento sentia-se igualmente lesado e que iria pedir ao departamento jurídico um acompanhamento pessoal ao assunto. Dois dias depois desaba no frigorífico que, por sinal, localizava-se na mesma cidade da queixosa, uma verdadeira comissão de injuriados constituída pela vítima principal, seu solerte marido, seu advogado adrede nomeado, o cunhado que queria porque queria servir de testemunha ocular (ou talvez antecipando uma parcela do butim), o Gerente Geral do Supermercado e seu advogado e, obviamente, o frangorrato meio congelado. Recebidos formalmente pelo Gerente de controle de qualidade e dois de seus assistentes, devido à gravidade da situação, e foi realizada uma solene reunião de discussão do assunto. De um lado, o Frigorífico achando, a uma primeira análise, que era "armação" e que a Dona Maria estava querendo dar um golpe; de outro, as vítimas já achando que tinham tirado a sorte grande, e para completar a turma do supermercado querendo ficar de fora nesse "embroglio"! Conversa vai, conversa vem ficou claro diante da prova corporal que o caso do frangorrato era digno de crédito e merecia maiores cuidados. Foi feito um acordo inicial entre as partes, pelo qual o corpo de delito deveria ser submetido a provas e testes laboratoriais e periciais, envolvendo muma polpuda soma em dinheiro que passou rapidamente às mãos da queixosa, de seu marido e, por que não dizer, do cunhado. Sim, o advogado dela também levou uma fatia. Pois bem, agora o frigorífico conseguiu recuperar o frangorrato incriminador e foi à luta. Como e por que esse rato abelhudo havia se introduzido na carcaça do frango?
E foi aí que eu entrei na história, mas que deixarei para contar numa próxima postagem. Não percam!

quinta-feira, 11 de março de 2010

COMBATE A ESCORPIÕES: UMA DISCUSSÃO ANTIGA

Um colega mineiro me escreveu solicitando informações sobre o combate químico aos escorpiões, pois sua empresa tem sido consultada com frequência crescente sobre o problema. Ao mesmo tempo, cita que não pode ficar dizendo a seus clientes que não há nada a fazer, exceto medidas ambientais de prevenção. Contou que ficou numa “saia justa” quando ele deu essa orientação a um cliente que replicou: “- E o que eu faço com as dezenas de escorpiões que já invadiram o perímetro de minha casa e estão em toda parte?”
Para esse colega e para os leitores interessarem, comento:
1) Nas décadas de 50 e 60, os escorpiões eram combatidos (com certo sucesso) através da aplicação de organoclorados como o DDT, o BHC, o Lindane e o Clordane. Biocidas pesados e de amplo espectro, eram na época utilizados contra a maioria dos insetos e aracnídeos, tanto na lavoura quanto nas cidades.
2) Todavia, os organoclorados tiveram seu uso progressivamente limitado até que acabaram proscritos na década de 70. Isso se deveu ao seu persistente poder residual que mantinha esses biocidas por muitos anos no ambiente onde eram aplicados.
3) Por que os organoclorados eram eficazes contra escorpiões, já que esses artrópodes podiam perceber (através de suas organelas quimiorreceptoras situadas nos palpos e no peito) a presença de agentes agressivos no ambiente e assim permaneciam protegidos em seus esconderijos, sem se exporem por até um ano e sem se alimentarem? Porque a persistência no ambiente dos organoclorados era bem maior que apenas um ano e quando, finalmente, por uma questão até de sobrevivência, os escorpiões, vencidos pela fome, se expunham fora de seus abrigos, eram afetados pelos organoclorados ali aplicados e sucumbiam.
4) Depois de proibidos os organoclorados, como combatê-los? Foram tempos difíceis, porque os demais grupos de biocidas existentes na época (organofosforados, piretróides, carbamatos e outros de menor relevância), simplesmente não eram capazes de controlar uma infestação de escorpiões de qualquer espécie.
5) Por que isso acontecia? Os escorpiões eram imunes a esses compostos? De jeito nenhum! Se você pulverizasse diretamente um escorpião com a calda de qualquer inseticida, ele morria. Quer dizer, os escorpiões nunca foram imunes a tais grupos químicos.
6) O que acontece na prática é que os escorpiões nunca estão expostos, dando sopa, a espera que venham lhes borrifar com um biocida qualquer. Estão é muito bem protegidos em seus esconderijos. E esses grupos químicos têm uma meia vida pós aplicados muito menor que os organoclorados. Na verdade, seus efeitos residuais duram apenas algumas semanas. Ora, o que fazem os escorpiões? Simplesmente esperam que o efeito residual acabe e só então saem de seus abrigos para caçar. Por isso é que ficamos algumas décadas sem armas químicas eficazes contra escorpiões.
7) Nesse período, tanto os serviços públicos quanto os controladores particulares só podiam ensinar medidas preventivas - higiene ambiental, não acumulem entulhos que possam servir de abrigo, matem as baratas (principal fonte de alimentação urbana dos escorpiões), cuidado ao vestir roupas em áreas infestadas, etc.
8) Porém, na década de 90, uma nova formulação foi desenvolvida e passou a ser comercializada também no Brasil: os microencapsulados que alteraram radicalmente o combate químico aos escorpiões. Nessa formulação o ingrediente ativo do produto está encerrado dentro de diminutas microcápsulas de um polímero semelhante ao nylon. Dessa maneira, quando aplicamos um microencapsulado, o i.a. não está exposto e assim os escorpiões, incapazes de percebê-lo no meio ambiente, se expõem e deambulam em áreas que foram tratadas. As microcápsulas aderem ao corpo do escorpião e terminam por intoxicá-lo.
9) Portanto, novamente voltamos a ter uma arma eficaz de combate químico ao escorpião e centenas e centenas de casos de infestação de escorpiões foram resolvidos sem mais delongas.
10) Um alerta: pelo menos um dos microencapsulados existentes no mercado tem fraco efeito no controle de escorpiões, porque suas microcápsulas se rompem com facilidade já durante a manipulação do produto e, portanto, quando aplicado no ambiente, alerta os escorpiões os quais, então, não se expõem.
11) Sucede que nem tudo são flores no caminho do controlador de pragas. A instituição máxima da Saúde Pública em nosso país, a ANVISA, no que tange à saúde ambiental, sem ter realizado testes de campo e sem acompanhar a evolução natural do conhecimento, até hoje não recomenda o controle químico contra escorpiões limitando-se às velhas recomendações preventivas. Se fizeram testes, não publicaram os resultados para conhecimento dos técnicos. Apenas se posicionaram contra. Lamentável!
12) Há disponíveis no comércio especializado, pelo menos três produtos que a própria Anvisa concedeu registro como eficientes contra escorpiões. No entanto, a Anvisa não prestou atenção nesse detalhe e desrecomenda o combate químico aos escorpiões. Puro contrassenso.
Em minha opinião como técnico especializado e por ter estudado bastante o combate químico aos escorpiões (tendo inclusive publicado trabalho científico a respeito em co-autoria com o Eng.Agr. Clóvis Yassuda), os escorpiões de qualquer espécie podem ser combatidos e eliminados com a aplicação correta e adequada de certos biocidas microencapsulados de uso profissional exclusivo disponíveis no mercado nacional.
Qualquer coisa em contrário, vão ter que me convencer! Omessa!

terça-feira, 9 de março de 2010

REPELENTE PARA MOSQUITOS (AEDES E CULEX)

Recebi um e-mail interessante sobre um tal repelente para mosquitos feito em casa que gostaria de partilhar com meus leitores. Aviso antecipadamente que não o testei ainda; produzi, mas não tive a oportunidade de testá-lo. O criador, Sr.Ioshiko Nobukuni (nobukuniste@gmail.com) que se autodenominou um sobrevivente da dengue hemorrágica, afirma que os resultados são infalíveis. E denominou o repelente de “Repelente dos Pescadores”. Aí vai (apenas copiei e colei):

FAÇA O REPELENTE DOS PESCADORES EM CASA:
1/2 litro de álcool;- 1 pacote de cravo da Índia (10 gr);- 1 vidro de óleo de nenê (100ml)
Deixe o cravo curtindo no álcool uns 4 dias agitando, cedo e de tarde;
Depois coloque o óleo corporal (pode ser de amêndoas, camomila, erva-doce, aloe vera).
Passe só uma gota no braço e pernas e o mosquito foge do cômodo. O cravo espanta formigas da cozinha e dos eletrônicos, espanta as pulgas dos animais.
O repelente evita que o mosquito sugue o sangue, assim, ele não consegue maturar os ovos e atrapalha a postura, vai diminuindo a proliferação. A comunidade toda tem de usar, como num mutirão. Não forneça sangue para o Aedes aegypti!

Como eu disse, não testei. Será que algum leitor gostaria de “servir de cobaia” e depois nos contar se funcionou mesmo? A comunidade agradece!

domingo, 7 de março de 2010

CRENÇAS E CRENDICES Parte III

- As três espécies de roedores urbanos (sinantrópicas) nunca são encontradas no mesmo ambiente, porque os ratos pretos (R.rattus) eliminam os camundongos (M.musculus) e as ratazanas (R.norvegicus) eliminam os ratos pretos, certo? Errado! Embora não tão freqüente, podemos sim encontrar as três espécies comensais compartilhando o mesmo ambiente, bastando que cada espécie ocupe um nicho diferente e haja alimento à vontade para sustentar todas as diferentes colônias. De fato, a ratazana por ser de maior porte e mais agressiva, prevalece sobre ratos pretos e camundongos e os elimina em confrontos diretos. Sucede que esses confrontos raramente acontecem, primeiro porque as duas espécies menores, ao perceberem que seu território foi invadido por ratazanas, procuram imediatamente fugir e saem em busca de outro local onde possam estar mais seguras. E segundo, porque cada espécie tem seu nicho próprio: as ratazanas procuram o subsolo para fazer suas tocas e ninhos, os ratos pretos buscam permanecer longe do solo e os camundongos procuram aninhar-se em desvãos diminutos. Vi dois tipos de situações onde as três espécies conviviam. Uma foi em um Supermercado onde alimento não era problema para nenhuma das espécies infestantes; ratos pretos no forro de onde desciam somente para se alimentar, ratazanas em tocas escavadas nas junções de paredes e piso da área de serviço, entrando e saindo na área comercial e camundongos alojados em motores de balcões e gôndolas frigorificadas. A outra situação foi em granjas (avícolas e suinícolas) onde a ração dos animais provia todo o alimento que os roedores infestantes necessitavam: ratazanas esburacando o solo, ratos pretos alojados nas estruturas de sustentação dos telhados dos galpões de criação e camundongos aninhados nas pilhas de sacos de ração e de outros materiais. Portanto, ao inspecionar alguma instalação em busca de sinais que lhe permitam identificar a espécie infestante, admita a possibilidade de existir outras espécies presentes e procure as evidências. Lembre-se: as técnicas de combate são diferentes para cada espécie comensal.

- “As baratas têm os olhos tão desenvolvidos que conseguem enxergar em plena escuridão”. Não mesmo! Sendo um inseto noturno, as baratas não se orientam pela visão quando em plena escuridão. Para começar, as baratas tornaram-se ativas durante a noite e escondem-se durante a luz do dia, para terem mais chances de escapar de seus predadores que são incontáveis. Afinal, devido ao alto teor protéico das baratas, são elas alvos permanentes de uma série de predadores naturais: qualquer ave aprecia uma barata no almoço com destaque para as galinhas, incansáveis ciscadeiras, gatos brincalhões adoram treinar suas patadas em fugazes baratas que se expõem indevidamente, até ratos podem se aproveitar de um momento de descuido e mastigar uma barata mais lerda. Durante a noite, as baratas, tão permanentemente em risco durante o dia, podem relaxar e sair em busca de alimentos e água. Mas, isso se não houver algum voraz escorpião por perto, um aracnídeo também noturno. Como a escuridão impede a boa visão (exceto para os caçadores noturnos que desenvolveram a chamada “visão noturna” como os felinos, jacarés, corujas e cobras), a opção evolutiva das baratas foi desenvolverem outros sentidos e, quando na escuridão, orientam-se através do tato e do olfato (ambos situados em suas antenas). Seus olhos são relativamente pequenos e situados na cabeça que fica sempre fletida para baixo, abrigada por um escudo protetor. Portanto, baratas não enxergam bem no escuro.
Aliás, aí vai uma pitada de Cultura Inútil: os romanos dos primeiros tempos de sua civilização, chamaram as baratas de “lucífugas” (as que fogem da luz) e só mais tarde é que mudaram o nome para “blatta”.

quarta-feira, 3 de março de 2010

EXTRA, EXTRA: A RDC 52 VAI SER ALTERADA!

Acabo de saber que o item 9 da Seção III da RDC 52, o item mais crítico da Portaria, vai ser alterado. A Feprag e outras Associações de controladores de pragas estiveram em Brasília em contato direto com a Anvisa e conseguiram convencer as autoridades que a redação dada a esse item é bastante prejudicial aos interesses das empresas. Na verdade, tornou o negócio inexeqüível comercialmente (veja referência anterior neste mesmo blog postada em 17/02/2010).
A redação atual proíbe a instalação de empresa desinfestadora em prédio ou edificação de uso coletivo, seja residencial ou comercial, e em áreas adjacentes a residências ou locais de alimentação, creches, escolas e hospitais...
A nova redação, ao que parece, vai apenas proibir a instalação no mesmo prédio em que funciona estabelecimento de uso coletivo. Todavia, devemos esperar que a modificação seja publicada no Diário Oficial da União para que tenha valor legal e possamos comemorar dignamente.

PARA CONTROLAR BARATAS, INSETICIDA GEL/PASTA OU CALDA ?

Há uns 15 anos atrás mais ou menos, chegaram no Brasil os baraticidas em forma de pasta ou gel. Antecipados pelas notícias de sucesso no mercado norteamericano, essas então novas formulações foram bem aceitas por nossos profissionais desinfestadores. Afinal, era a grande novidade do mercado e como tal foi bem recebida por alguns (os progressistas) e nem tanto por outros (os conservadores). Lembro-me do esforço que o velho amigo Cenise (da Sol, distribuidora) teve que fazer para difundir e popularizar o Siege, então da Cyanamid e hoje da Basf, a primeira marca comercial lançada em nosso mercado. Foram dezenas e dezenas de reuniões, palestras técnicas e lançamentos comerciais em diferentes cidades brasileiras. Era preciso literalmente ensinar o novo conceito de substituir as costumeiras pulverizações por aplicação de pontinhos de pasta ou gel. O Siege (palavra inglesa de origem francesa que significa “cerco”) vinha até com um coldre e uma pistola dosadora remetendo à imagem de um sherife do velho oeste americano, obviamente apoiado em um plano de marketing que não havia sido adaptado à nossa cultura. Pouco tempo depois surgiram outros produtos similares e essas formulações acabaram por demonstrar sua eficiência e eficácia, umas mais e outras menos. A discussão inicial se aquela nova proposta para controlar baratas era melhor ou pior do que a pulverização de caldas inseticidas, perdura até hoje em certos núcleos de profissionais desinfestadores. O que se sabe, ao certo, é que ambas as técnicas podem ser eficientes, na dependência das condições ambientais onde o combate será travado, do grau de infestação, do manejo dado ao ambiente, do grau de treinamento dos operadores, da qualidade dos biocidas selecionados, da urgência na obtenção de resultados e outros fatores mais. Há vantagens para cada método e desvantagens também. Certamente, a pulverização de uma calda inseticida diretamente nas frestas, nichos, gretas e reentrâncias produzirá um resultado mais rápido e abrangente, porém o emprego de baraticidas gel ou pastas provocará bem menos distúrbio no ambiente tratado, contaminando-o significativamente menos e não tem necessidade de período de interdição. Cabe ao profissional avaliar os prós e contras de cada metodologia em função do ambiente a ser tratado para tomar sua decisão. Pense bem, não raro, a adoção das duas abordagens em tempos diferentes pode ser a chave do sucesso. Hoje já se fala até na aplicação de dois produtos em gel, aproveitando os melhores benefícios de cada (vide revista Vetores&Pragas Ano XII n°.23, pgs 22 -24). Quem decide é o leitor, afinal.

Contudo, cabe uma última discussão sobre essa formulação sólida; gel ou pasta? São diferentes e apresentam resultados diferentes? Vamos lembrar que pasta é uma formulação de base aquosa, enquanto o gel é uma formulação à base de derivados de petróleo. Os géis não desidratam e nem escorrem em ambientes quentes como cozinhas comerciais ou industriais. As pastas são mais úmidas, sofrem fermentação e por isso atraem mais as baratas. Mais uma vez chamo a atenção dos leitores: como em todos os ramos, há bons e maus produtos. No nosso ramo contudo, os resultados obtidos são fortemente influenciados pela qualidade do biocida empregado. Portanto, avalie bem a questão custo-benefício antes de decidir-se por este ou aquele produto. Para isso mesmo que você é um profissional desinfestador, afinal!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

BOAS PRÁTICAS OPERACIONAIS PARA DESINFESTADORAS

A Internet tornou-se progressivamente uma ferramenta de trabalho (e também de laser) nas duas últimas décadas. Hoje, já é raro encontrarmos uma empresa que se preze, por menor que seja, que não esteja equipada minimamente com um computador envolvido em dezenas de tarefas de controle e de planejamento. Por extensão, a maioria dos profissionais desinfestadores ambientais faz uso de um PC (computador pessoal) ou de um notebook, um instrumento precioso no exercício de seu trabalho.
No mundo, o uso de computadores pessoais ou empresariais tornou-se corriqueiro e o profissional que deseja estar permanentemente antenado em tudo o que acontece em nosso planetinha, especialmente no seu ramo de trabalho, conecta-se diariamente à web para diferentes fins. Um interessante instrumento accessível a qualquer pessoa que deseje, são os livros virtuais, conhecidos internacionalmente como “E-Books”. Há centenas de sites que oferecem a possibilidade ao interessado de baixar um livro completo e mantê-lo em seu computador para livre consulta quando deseje. Fantástico! Posso montar, por exemplo e se eu quiser, uma verdadeira biblioteca sobre os assuntos de meu interesse, ao toque de algumas teclas seguindo as orientações seqüenciais necessárias.
No Brasil, em língua portuguesa, já há incontáveis E-Books disponíveis na Internet, mas não havia até agora nenhum livro técnico sobre o controle de pragas e assuntos correlatos a esse ramo de atividade profissional. Eu disse... não havia! Pois acaba de ser lançado o primeiro E-Book técnico dessa especialidade em nosso país, em língua portuguesa. Trata-se do GTO 02 (Guia Técnico Operacional) “Boas Práticas Operacionais para Empresas Controladoras de Pragas”, um livro impresso lançado há alguns anos atrás que se esgotou rapidamente e não havia ganho uma segunda edição até agora. Só que desta vez, o livro está sendo apresentado na forma moderna de um E-Book que pode ser baixado diretamente no computador do profissional interessado, onde ficará permanentemente à disposição para leitura e consultas quando for desejado.
Alojado no site especializado em controle de pragas - PragasOnLine – o E-Book pode ser adquirido bastando seguir as instruções de procedimento.
Esse livro é de autoria deste blogueiro e foi escrito para ajudar às empresas desinfestadoras ambientais nos meandros da exigências legais desse ramo de atividade, seja para instalar-se, seja para corrigir não conformidades. Procurei abordar a maioria dos quesitos que as Vigilâncias Sanitárias buscam para fiscalizar o correto cumprimento das disposições legais. É, portanto, um auxiliar no cumprimento dessas disposições. Mas, há também, outras iniciativas comentadas no livro, baseadas apenas no bom senso.
Para fazer o download desse E-Book (baixar), basta acessar o site do PragasOnLine e seguir as instruções. Anote: www.pragas.com.br

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

RDC 52 – MAIS DÚVIDAS!

Nossa leitora Ivone da Extermipest postou um comentário na matéria sobre o óleo Nim (vide abaixo), com uma dúvida sobre a RDC 52, que copio e respondo neste outro post.
Diz Ivone:
“Gostaria de tirar mais uma duvida sobre a RDC 52 de 22/10/09 inciso V ref. licença ambiental. Pois na portaria 9 de 16/11/200 não tenho certeza mais parece que não tem nada sobre esse assunto. Já liguei na vigilância sanitária da minha cidade e eles não sabem, de nada, liguei também na cetesb e ele também nem sabiam disto. Achei estranho! O senhor pode me orientar quanto a isso ou algum lugar que eu poderia me informar?
Respondo:
Eis outro ponto muito controverso na RDC 52. A rigor, pelo que está disposto nessa Resolução, as empresas deveriam se registrar, além da Secretaria de Saúde Estadual, também na Secretaria de Meio Ambiente Estadual, ou qualquer outro órgão equivalente de acordo com o Estado envolvido. Ao que parece, entretanto, nenhuma Secretaria Ambiental estava informada de que teria que conceder licença ambiental também para empresas desinfestadoras e, não estavam, como não estão, preparadas para tanto. Quer dizer, mais uma vez a legislação veio de cima para baixo, imposta à revelia e sem planejamento. Grande novidade! Não é à toa que a Cetesb (órgão ambiental do Estado de São Paulo) afirmou desconhecer o assunto! Essa questão é dúbia e faz parte do pacote de discussões que a Feprag e algumas Associações de Controladores de Pragas de alguns Estados estão tendo com a Anvisa. Esse item ainda não pode ser formalmente cumprido pelas empresas desinfestadores, na data em que faço este comentário. Portanto, minha recomendação é que devamos aguardar um pouco mais para que essas coisas se aclarem ou sejam revistas. Esperamos que isso ocorra logo!

CRENÇAS E CRENDICES Parte II

- Não, não há “suicídios” entre os escorpiões. Mas os exibicionistas adoram demonstrar que o escorpião se suicida! Colocam o pobre escorpião no centro da mesa de botequim, despejam um pouco de cachaça em volta do infeliz formando um círculo e ateiam fogo. O escorpião, aturdido, permanece quieto, aos poucos sua cauda vai se encurvando, se encurvando em direção à cabeça, onde o ferrão acaba tocando. E o escorpião morre durinho. Pronto! A roda de manguaceiros explode em risadas e piadinhas (“- Bem que minha sogra poderia ter ferrão, porque venenosa ela já é!” ou “- Vou fazer uma roda de fogo em volta da minha mulher”). Mas, o testemunhado “suicídio”do escorpião é pura crendice. Na verdade, sob a ação das altas temperaturas geradas pelo círculo de fogo em torno de si, o escorpião rapidamente se desidrata e as placas do sua carapaça se contraem e se encaixam umas nas outras, fazendo com que a cauda se retorça aparentemente em direção à cabeça. Quando o ferrão encosta na cabeça (às vezes isso não acontece porque a cauda se retorce em outra direção), o infeliz do escorpião já estará mortinho, com os requintes de crueldade dos mentecaptos observadores e praticantes da cena. Suicídio... mas que besteira!

- E já que estamos falando de crendices, não custa comentar que morcego não é uma espécie de “rato voador”. Nada a ver! São dois gêneros completamente diferentes. De comum, ambos são mamíferos e é só. Na classificação sistemática (científica) ambos pertencem à Classe Mammalia, mas as Ordens já são diferentes: o morcego pertence à Ordem Chiroptera (chiro=mão; ptera=asa) e os roedores pertencem à Ordem Rodentia (que roe). A confusão talvez venha dos antigos romanos que, ao nomearem aquele animal, assumiram que ele era um rato que voava: morcego = do latim “rato cego que voa”. A julgar pelos fósseis já encontrados, os morcegos desenvolveram-se na Terra há muito mais tempo que os roedores, ou seja, morcegos já existiam a 60 milhões de anos atrás (final do período Cretáceo, início da era Cenozóica) enquanto que os roedores fizeram sua aparição na forma com que os conhecemos, há apenas 13 milhões de anos (período Pleisto-Pliocênico). O morcego é o único mamífero que voa e rato caminha pelo chão e ligeirinho, para não virar jantar de algum predador qualquer (e são muitos os que buscam roedores para se alimentar). Uma vez ouvi de uma platéia a afirmação que morcego era o rato que morria e criava asas! Até hoje não cheguei à conclusão se o palpiteiro falava sério ou se estava me gozando...
Fiquei quieto e apenas esperei as risadas acabarem.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

RDC 52: MAIS DISCUSSÕES EM ANDAMENTO

Em post anterior, onde comentei sobre a oficialização da RDC 52, a nova legislação baixada pela ANVISA/MS que passou a regulamentar em nível federal as atividades das empresas controladoras de pragas, prometi que analisaria bem o conteúdo dessa nova regulamentação e o comentaria. Bem que tentei, mas surgiram algumas dúvidas que preciso entender antes de me manifestar. Essas dúvidas não são só minhas, obviamente, e as entidades que representam os profissionais e as empresas desinfestadoras, tais como a Feprag (a federação que congrega as associações estaduais) e diversas dessas associações, estão se mobilizando para tentar aclarar e mesmo modificar certos parágrafos e itens da RDC 52. Várias reuniões já foram feitas nesse sentido e uma posição de consenso já foi apresentada à Anvisa que mostrou-se receptiva à argumentação. O parágrafo mais polêmico é o 9º (Seção III – Das instalações), o qual dispõe que... “é vedada a instalação do estabelecimento operacional em... e em áreas adjacentes a residências ou locais de alimentação, creches, escolas e hospitais...”. Aí está o principal ponto de controvérsia. Imaginem a seguinte situação: um empresário investidor decide comprar um terreno para instalar uma empresa desinfestadora; verifica a legislação e descobre um terreno que não tem nem escola, nem creche, nem hospital e nem nada nos terrenos adjacentes, como manda a RDC 52. Adquire o terreno, constrói as instalações operacionais, investe e começa a trabalhar. Daí, um belo dia, uma escola, por exemplo, compra o terreno adjacente e constrói sua sede. Pronto! Quem fica fora da lei? A empresa desinfestadora, mesmo que lá estivesse há anos. Evidentemente essa disposição é incongruente e deve ser modificada até por bom senso, se não por outra razão. Por isso a Feprag, em nome das associações que representa e várias delas igual e diretamente representadas no movimento, estão batalhando para que seja alterado o tal Artigo 9º da Seção III. Quem sabe já nas próximas semanas tenhamos uma definição por parte da Anvisa sobre o assunto. Assim que eu souber de alguma coisa, comunico a vocês, OK?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

DESCOBERTO FÓSSIL DE PEQUENO ROEDOR COM 8 MILHÕES DE ANOS


No centro do Estado de Utah/Estados Unidos, no Condado de Sevier, há um sítio muito freqüentado por paleontologistas (especialistas em fósseis) em busca de novas descobertas, pois a composição do terreno favorece a conservação de fósseis. Esse sítio foi localizado em 1996 por um casal de paleontólogos amadores, Jeff e Denise Roberts, e, desde então, ali já foram descobertos fósseis de ancestrais de camelos, de carnívoros e até de elefantes. Pois agora, um relatório publicado na edição de janeiro da revista científica Journal of Vertebrate Paleontology, nos dá conta que nesse sítio foi descoberta uma pequena hemimandíbula de um roedor ancestral, contendo um dente incisivo e dois molares. Don DeBlieux, o paleontologista coautor do relatório, denominou a nova espécie extinta como Basirepomys robertsi, naturalmente homenageando o casal de descobridores do sítio.
É... roedores estão neste planetinha há muito tempo!
(Fonte: Deseret News / Colaboração: Lucy Figueiredo)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

CRENÇAS E CRENDICES (PARTE I)

Vez ou outra, nas minhas andanças, deparo-me com algumas confusões conceituais de colegas profissionais controladores de pragas, seja por repentinos lapsos de memória, seja por mera desatenção, seja porque apenas repete o que ouviu dizer, seja por desconhecimento de causa mesmo. O fato é que alguns profissionais citam certas pragas como causadoras deste ou aquele problema, em completo desacordo com o conhecimento técnico já existente. Por exemplo: roedores transmitindo a Raiva, Leptospirose via latinha de cerveja, baratas como transmissoras eventuais da Febre Amarela e por aí vai. Então, até para surpresa de alguns, vamos ver se esclarecemos algumas dessas crendices e embasar certas crenças.
- Roedores são transmissores potenciais de 32 doenças ao homem (zoonoses) e a outros animais, mas não os incriminem pela transmissão da Raiva. O vírus rábico, potencialmente perigoso e mortal para todos os mamíferos já estudados, ao penetrar de alguma forma em um roedor (coisa meio difícil de ocorrer na Natureza), provoca uma sintomatologia algo diferente. Ao invés de passar pela fase furiosa (fase em que cães e gatos por exemplo tornam-se extremamente agressivos e mordem transmitindo o vírus pela saliva), passa direto da fase prodrômica (a fase inicial onde o vírus apenas se multiplica dentro do hospedeiro) para a fase paralítica. Quer dizer um rato que contrai o vírus rábico não fica agressivo e em pouco tempo já tem as paralisias que a doença provoca; nessa condição, esse rato sequer poderia morder, mesmo que quisesse. Resultado: os roedores não transmitem a Raiva. Tanto que a OMS – Organização Mundial da Saúde – há décadas deixou de indicar tratamento antirrábico para vítimas de mordeduras de roedores.
- Latinhas de cerveja não causam a Leptospirose. Até que poderiam, sob condições muito especiais e particulares, pouco prováveis de ocorrer na prática. A Leptospirose, uma zoonose (doença transmitida ao homem por animais) muito comum em nosso país, especialmente em grandes cidades sujeitas a enchentes nas estações chuvosas, é causada por uma bactéria (espiroqueta) denominada leptospira com inúmeras espécies diferentes. Na Natureza, essas bactérias adaptaram-se perfeitamente aos roedores como seus hospedeiros permanentes, a tal ponto que neles, essas bactérias sequer provocam doença; passam a viver muito bem, alojadas nos rins dos roedores e ali se multiplicam. O roedor assim contaminado, nada sente, mas cada vez que urina, milhares de leptospiras saem para o meio externo onde vão aguardar uma oportunidade de penetrar em outro hospedeiro. No meio ambiente onde foram depositadas junto com a urina do roedor contaminado, as leptospiras permanecem por algum tempo vivas; inicialmente a própria urina, um meio líquido, as protege, mas quando a urina seca, as leptospiras têm pouco tempo de vida. Se caíram em um local úmido, sombreado e quente, vão conseguir sobreviver até uma semana ou pouco mais. Mas, se caíram em meio seco, ensolarado ou frio, sobrevivem apenas por alguns minutos. Pois bem, uma tampa lacrada de uma latinha de cerveja não é exatamente úmida, quente e escurinha, onde a leptospira pudesse sobreviver aguardando uma boca sedenta e incauta que pudesse removê-la. Ao contrário, ali é um local seco, exposto e, muito provavelmente gelado antes que venha o bocão da vítima. Mas, vamos ainda assim supor que de alguma forma essa leptospira conseguisse sobreviver na tampa da latinha de cerveja, embora eu não possa imaginar como. Vamos imaginar também que nosso bebedor estivesse com tanta sede que nem esperou a cerveja gelar. Vamos imaginar que ele (a vítima) não tivesse sentido o forte odor acre da urina de rato na tampa, embora ela estivesse a centímetros de seu nariz. Vamos imaginar que tudo isso aconteceu e que o incauto cidadão bebeu a cerveja e com ela, leptospiras que alegremente conseguiram seu intento de penetrar em um mamífero (ou deveríamos dizer “cervejífero”?) antes de morrerem. Caem no estômago de nosso amigo e ali, imediatamente vão ser eliminadas pelo suco gástrico tremendamente ácido por natureza. Quer dizer, são tantas as variáveis que deveriam ocorrer para que uma pessoa pudesse adquirir leptospirose a partir de uma latinha de cerveja, que muito dificilmente ocorreria esse caminho todo. Impossível, então? Bem, em biologia não existem as palavras “sempre”e “nunca”. Vai que o cidadão tivesse uma ferida aberta na boca ou uma úlcera esofagiana ou estomacal. Por aí as leptospiras poderiam eventual e remotamente penetrar, mas é bem pouco provável, bem pouco mesmo! Portanto, sempre é bom lavar a latinha da cerveja (ou do refrigerante) antes de ir colocando o bocão sedento para beber, mas por razões higiênicas, muito mais do que por medo de contrair leptospirose. Bebam sem medo! Mas com moderação sempre.
Obs: conseqüentemente, aquela história que circulou pela Internet do pai de uma famosa modelo que teria morrido (ele, não ela, a qual continua vivinha da silva para deleite de nossos olhos) por ter contraído leptospirose a partir de uma lata de cerveja, é conto-da-carochinha, mesmo porque aquela matéria que foi pretensamente atribuída a um professor de epidemiologia da Unesp, foi repudiada pelo indignado e incriminado autor, que afirmou que seu nome foi ali colocado por alguns estudantes, por brincadeira.
Crenças e crendices são tantas que vamos repartir o assunto em tópicos subsequentes, para que a gente possa comentar cada uma delas. Outro dia prosseguiremos com esse tema, OK?


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O “MISTÉRIO DA GOIABADA”: OUTRO “CAUSO” A SER CONTADO


Nessa vida de mais de 40 anos controlando pragas urbanas e rurais, fui observador testemunhal, ou muito de perto, de uma porção de “causos” interessantes e que ficaram guardados na memória. Em postagem anterior (veja abaixo) contei um causo do mistério da panela de arroz. Hoje vou contar o “mistério da goiabada”.
Um dia, recebi um chamado de uma grande indústria paulista solicitando uma consultoria urgente em sua fábrica de enlatados, pois havia aparecido um rato dentro de uma lata de goiabada, cheia! Ouvindo o relato inicial, de imediato denominei o assunto de “o mistério da goiabada” e lá fui eu me sentindo um verdadeiro Sherlock Holmes tupiniquim. Resumindo a história, uma senhora havia comprado uma lata de goiabada daquela marca em um Supermercado e, ao abri-la em casa, deparou-se com um camundongo inteirinho mergulhado no doce. É, um Mus musculus de cabo a rabo! Entre horrorizada e irritada, voltou ao supermercado para reclamar e exigir reparações. Naturalmente o estabelecimento comercial negou qualquer responsabilidade ou envolvimento no problema e igualmente posicionou-se como vítima, recomendando que a senhora reclamasse seus direitos junto ao fabricante. Foi o que ela fez em seguida. A indústria recebeu a denúncia com enorme preocupação, pois uma eventual divulgação pela imprensa desse fato causaria um prejuízo de enormes proporções à sua imagem, que seria arranhada, com reflexos imediatos no volume de vendas. Após algumas reuniões com a interessada e seu advogado (naturalmente ela já havia constituído um representante legal), houve acordo entre as partes envolvendo uma certa compensação financeira (não fiquei sabendo quanto, mas deve ter sido bastante) mais o fornecimento de uma linha completa dos produtos dessa Indústria por um ano. Em troca, a senhora entregou a famigerada lata de goiabada temperada com o nefasto camundongo e assinou um termo de confidencialidade. Pois bem, a partir desse momento entro na história. Logicamente a indústria precisava saber como o camundongo terrorista havia se infiltrado na goiabada sem ser convidado, para evitar a repetição do fato. Resumindo, no processo de fabricação do doce enlatado, a goiabada era preparada a quente (muito quente) em caldeirões de mistura e de lá, através de tubulações, a massa era empurrada para bicos que injetavam quantidades predeterminadas em cada lata aberta que passava abaixo em uma esteira rolante, numa determinada velocidade. Mais à frente, na mesma esteira rolante, as latas eram recolhidas por outra máquina que cravava as respectivas tampas e elas seguiam para o empacotamento em caixas de despacho, tudo automatizado. Fui verificar e observei que o bico de injeção tinha um diâmetro por onde nenhum camundongo poderia passar, mesmo empurrado. Verificando a lata em questão, notei que o tal camundongo estava completamente incluído na massa, evidenciando que ele ali entrara quando a massa ainda estava quente e na forma pastosa. Verifiquei também que havia goiabada sob seu corpo, o que demonstrava que ele não estava na lata quando a massa foi depositada. E assim fui tentando eliminar as possibilidades, já que a explicação não era tão aparente. Claro, minha primeira suspeita havia sido de uma infestação por camundongos naquela área da indústria. Pois, por mais que eu procurasse as evidências de infestação murina, não encontrei absolutamente nada. Ademais, a indústria mantinha sob contrato uma empresa controladora de pragas (boa, por sinal), que sustentava um programa permanente de controle, com visitas quinzenais. Excluídas as possibilidades de queda acidental do camundongo dentro da lata, naturalmente a suspeita seguinte era que ele poderia ter sido “plantado” por algum operário. Difícil dizer, pois não havia qualquer evidência que pudesse comprovar essa teoria! Quebrei a cabeça e não conseguia inicialmente encontrar um meio de comprovar ou não essa hipótese. Essa suspeita era importantíssima para a indústria, pois o mesmo operário poderia repetir a façanha, com conseqüências imprevisíveis. Que mistério danado, esse. Felizmente, tive um lampejo: se o estômago do infeliz contivesse alimento (teria, se ele houvesse se alimentado logo antes de finar-se), eu poderia mandar examinar esse conteúdo gástrico para apurar se era de alimentos encontrados na indústria ou não. Em caso positivo, a evidência seria de que o camundongo era residente na indústria. Em caso negativo, obviamente ele teria sido trazido de fora e “plantado” na lata de goiabada. Entrou aí um golpe de sorte, havia conteúdo estomacal! A vida me ensinou que um pouco de sorte ajuda um bocado! O instituto Adolpho Lutz de São Paulo efetuou essa análise e o laudo mostrou que o conteúdo estomacal era de alimentos tais que... não existiam na indústria. Tradução: o camundongo havia sido trazido de fora e introduzido na lata de goiabada de forma criminosa, com intenção específica de prejudicar a indústria. Assim, fechei meu relatório final para o que havia sido contratado. Não havia muitos operários nessa linha de produção, de sorte que a indústria prontamente tinha seus suspeitos. Mais tarde fiquei sabendo que, de fato, um determinado operário julgando-se prejudicado em alguma questão com a indústria ou mesmo uma desavença com seu chefe, planejara o crime trazendo um camundongo apanhado por uma ratoeira em sua casa e do bolso de seu uniforme, havia sido transferido para a tal lata de goiabada.
O mistério da goiabada acabara de ser resolvido. “- Elementar, meu caro Watson!”