quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O “CAUSO” DO REI DOS RATOS – Parte II


Então, eu contava o “causo” fantástico do rei dos ratos, sua corte e outras estrepolias relatadas pelo celebérrimo Dr. J.J. nos idos dos anos 70, aquele biologista canadense que achava que este era um país de néscios e que ele iria “fazer a América” por aqui.
Eu disse no post I desta série que voltaria a contar a nossos leitores algumas informações contidas em uma espécie de pequena apostila que continha cópia fiel de um de suas palestras (ainda a possuo), cujo inteiro teor me foi repetido oralmente pelo autor em entrevista ocorrida na Prefeitura de São Caetano do Sul/SP.
Lá pelas tantas, o Dr. J.J. enveredou pela emoção e me contou:- “... vou me deter aqui para falar de um traço que existe entre os ratos, muito chocante; trata-se da solidariedade que existe entre eles. Cita-se, por exemplo, o caso de um bando de ratos que havia emigrado de algum local onde a vida tinha-se tornado difícil para eles. Um velho rato cego tinha entre seus dentes um pequeno pauzinho que estava seguro na outra ponta por um outro rato que lhe servia de guia. Duvidam? Um marinheiro do navio Lancaster diz que viu um rato conduzindo pela orelha outro rato maior que ele e que parecia mais velho. Um terceiro rato jovem, juntando-se a eles, percorria o quarto recolhendo migalhas de biscoito que durante a ceia da véspera haviam caído da mesa e as levava ao rato velho. Este estava cego e não mais conseguia encontrar seu alimento. Uma pessoa entrou nesse momento e os dois ratos jovens soltaram um guincho para advertir o rato cego. (a essa altura eu já estava quase em lágrimas!).
Dissertando sobre o comportamento dos ratos, J.J. saiu com esta:- “... o rato também é temeroso. Constatou-se que durante a guerra de 14/18 um pequeno fato entre tantos: nas enlameadas trincheiras, se um soldado conseguisse capturar um rato vivo, ele o enfiava em brasas quentes a fim de somente chamuscá-lo, mas deixando-o vivo; ao soltá-lo, a trincheira ficava tranqüila por 7 ou 8 dias, pois o rato ao fugir, guinchava tanto que seus congêneres fugiam dali temendo sorte semelhante”. (churrasquinho de rato inacabado = um bom método de controle urbano jamais experimentado!).
E, para terminar, J.J. guardou a grande pérola para o final apoteótico:- “... conta-se sobre a invasão das ratazanas na Europa que estas, encontrando-se impedidas de continuar seu trajeto através do rio Volga, permaneceram anos no lado oriental (atual Rússia). Em um dia muito frio de inverno, os camponeses russos confirmaram que viram dezenas de milhares de ratazanas lançando-se no rio, tendo um galho, uma folha morta ou um pouco de palha entre os dentes, permitindo que boiassem nas águas geladas do rio. Com esse amontoado de ratos juntos, a corrente do rio diminuiu no ângulo que eles haviam escolhido e o frio intenso, agindo, as águas foram tomadas por gelo. Imediatamente, com o sacrifício desses milhares de ratazanas, outros milhares de ratos, sem perda de tempo, chegaram em ondas e atravessaram o Volga rapidamente, invadindo a Europa”. (nesse preciso instante... desmaiei!)
Grande Dr. J.J. Que Deus o tenha e que suas penas por mentirinhas já tenham sido cumpridas!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O “CAUSO” DO REI DOS RATOS


Faz um tempão que não conto um dos “causos” de minha vida profissional, então vou voltar a contar um deles neste post. Trata-se do “causo” do Rei dos Ratos. Corria o início da década de 70 e, na época, eu trabalhava (entre tantos empregos) na Prefeitura de São Caetano do Sul/SP, desenvolvendo e chefiando a Seção que se tornaria a atual Vigilância Sanitária Municipal. Um dia, recebi a visita de duas pessoas interessadas em promover um raticida, um dos primeiros a surgir no mercado brasileiro à base de warfarina (cumafeno). Tratava-se do representante comercial de uma empresa campineira e de Dr. J.J. (omitiremos o nome por razões éticas e mesmo porque esse senhor já deve ter falecido. Se não faleceu, já deve estar para lá de Bagdad com uns 130 anos talvez!). Era um biologista canadense de língua francesa que mal falava português, contratado pela empresa distribuidora para assessorar tecnicamente as vendas. Estou falando de uma época onde bem poucos profissionais neste país entendiam alguma coisa de roedores, assunto então praticamente desconhecido; eu já havia me interessado por esse tema e já havia começado a estudá-lo meio na raça e com grande dificuldade, pois não existiam as facilidades incríveis que a Internet trouxe, décadas depois.
Pois bem, na entrevista, começou o tal de J.J. a discorrer sobre roedores, sequer imaginando que estava conversando com outro profissional que talvez já conhecesse um pouco do assunto. À medida que palrava, ia se entusiasmando e eu mais me mostrava interessado, posto que os disparates que ele contava como se verdade fossem, muito me divertia. Em um dado momento, ele começou a falar da existência de diversos reis dos ratos, afirmando que ele próprio havia sido testemunha ocular do encontro de alguns desses reis. Ao final da divertida entrevista recebi, das mãos do representante comercial da empresa, um verdadeiro tesouro: uma pequena cópia impressa de uma palestra do Dr. J.J. sobre ratos, a qual sempre guardei como preciosidade até a presente data. Vou reproduzir fielmente alguns trechos desse opúsculo, apenas corrigindo um pouco o português para torná-lo mais compreensível:
Dizia Dr. J.J.:- "... e nós mesmos tivemos a ocasião de encontrar em uma cova na Província de Quebec no Canadá, exatamente em Granby, uma corte do rei dos ratos. Assim chamamos a um conjunto insólito de uma vintena de ratos atados todos pelas caudas e vivendo assim por anos. A que se destinava essa corte, nós perguntávamos. À reprodução? Seus aparelhos genitais eram particularmente desenvolvidos. À comandar? Seus cérebros eram muito mais volumosos que os ratos normais. Não temos respostas” (nessa altura, interrompi o relato perguntando se ele havia tirado uma foto dessa corte ao que ele negou).
E J.J. continuava explicando com cara séria:- “... eu vos descrevo esses indivíduos: eles medem 72 cm de altura, em média pesando 2,800 a 3kg, com pelos longos de 6 a 7cm, embranquecidos pela idade (caramba, pensei, se eu um dia me visse diante de um rato desses, ia sair correndo!).
Acrescentou ele, percebendo meu interesse: “... Essa corte de 20 ratos estava deitada em um leito de lã picada e ao redor dela encontramos cerca de 800 cadáveres mais ou menos de ratos enormes, os quais, ainda que menores, não pesavam menos de 2kg cada um. Alguns desses ratos tinham um aparelho digestivo um tanto especial: eles tinham um estômago de refluxo... pensamos que esses ratos deveriam comer primeiro o alimento destinado aos seus senhores e devolviam o deglutido a seus mestres que, assim, não tinham nenhum esforço a fazer. Seria isso uma espécie de geléia real? Pensamos que sim, pois esses ratos deitados tinham, segundo nossos exames, 35 anos de idade.” (A essa altura, eu já estava sem fala!)
E J.J. arrematou com voz grave e expressão séria, em tom de ameaça quase:- “... eu penso que existe em todas as cidades do Brasil, um rei dos ratos” (Pronto, pensei! Eu estava frito. Minha pequena São Caetano com um rei e sua corte de 20 ratos!). Mas, para meu alívio, aduziu: “... a confirmação ainda não foi feita, pois eles são extremamente difíceis de serem achados. Aquele de Granby, estava a 16 metros do nível da terra embaixo de um segundo porão de uma casa, em uma cova de 1,80m de altura e 3m de diâmetro, com condutores de ar que mediam até 65m de comprimento e com sifões que impediam a inundação da cova”. (Mas que imaginação tinha o gajo! Desde aquele momento até hoje, acho que essa apostilazinha daria em um excelente roteiro para um filme de ficção e terror)
Essa entrevista durou umas duas horas, se lembro. Talvez um pouco mais, pois eu me mostrava propositalmente fascinado. Com certeza eles já estavam dando como certa a venda de um zilhão de toneladas do tal raticida para minha Prefeitura. Ficaram até hoje de mãos abanando, ainda que eu renda minhas justas homenagens póstumas ao Dr. J.J. por sua extraordinária capacidade imaginativa. Nunca encontrei em toda minha vida profissional, alguém com criatividade parelha a daquele senhor. Bem, na verdade encontrei, mas sobre esse honroso segundo lugar, falarei algum dia, depois que ele falecer, obviamente!
E nesse ritmo a entrevista continuava com o J.J. acrescentando novas e incríveis pérolas de conhecimento sobre roedores. Mas, volto ao assunto outro dia e lhes conto. Aguarde.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOBRE OS INSETICIDAS – PARTE III


Terceiro capítulo dessa emocionante novela “Os inseticidas”. No capítulo anterior, vimos que os IGRs (Insect Growth Regulators), também conhecidos como Reguladores do Crescimento dos Insetos, entravam em cena à galope, desfraldando a bandeira dos inseticidas politicamente corretos, auto sustentáveis, ecológicos, entre tantas bandeiras da modernitude.

IGR (inibidores do crescimento dos insetos):- constituem um moderno grupo de inseticidas, único por afetarem unicamente os processos metabólicos dos insetos e não de mamíferos. Um tipo de IGR, os Juvenóides, interfere no crescimento de insetos por imitar a presença do hormônio natural juvenil (JH), cuja ausência deflagra, na Natureza, o crescimento (e mudança) para a fase seguinte. Os insetos afetados pelo hormônio juvenóide sintético, podem apresentar retardos no desenvolvimento, mudanças de coloração da quitina, efeitos ovicidas (ovos não eclodem), adultos estéreis, asas atrofiadas e impossibilidade de mudança de fase acarretando a morte. Formam um segundo grupo de IGRs, os inibidores da síntese da quitina (a proteína essencial para formar o exoesqueleto dos insetos). Esse grupo interfere na formação de uma enzima sintetizadora da quitina, necessária para a formação de nova cutícula que ocorre a cada mudança de fase do inseto na Natureza. Resulta uma quitina mal formada, incapaz de suportar a pressão atmosférica e de sustentar a musculatura do inseto que, assim, morre na próxima mudança de fase. Ambos os grupos apresentam baixa toxicidade para mamíferos, pássaros, peixes e outras espécies não alvos. Alguns IGRs disponíveis no mercado são:
• Metoprene: um juvenóide que foi o primeiro IGR a ser comercializado, introduzido em 1975 para o controle de mosquitos. Apresentava rápida degradação na água e luz solar, problema contornado através de formulações mais resistentes e de lenta liberação (brickets). Usado em focos larvários com sucesso, mas não afeta pupas. Usado em aerossóis contra pulgas, apresenta longa vida residual.
• Hidroprene: muito ativo contra baratas e pragas de grãos. Introduzido na metade dos anos 80s, o hidroprene permite que as ninfas das baratas atinjam a idade adulta, mas esses adultos geralmente apresentam asas malformadas e são incapazes de se reproduzirem. Não afetando ninfas, o hidroprne destina-se a um controle a médio e longo prazo (entre quatro e seis meses), razão pela qual geralmente o hidroprene é empregado em associação a algum inseticida de efeito mais rápido.
• Fenoxicarb: introduzido no mercado nos final dos anos 80s, esse juvenóide foi utilizado para controlar baratas, pulgas e formigas fogo. Hoje é mais empregado apenas contra formigas.
• Piriproxifen: é um juvenóide de amplo espectro, ativo contra grande variedade de insetos (cupins, moscas, baratas, pulgas, mosquitos, etc). Tem longa vida residual. Pode ser associado a outros inseticidas quando se deseja um efeito mais rápido.
• Diflubenzuron: um inibidor de quitina, começou combatendo pragas agrícolas em 1976, é praticamente não tóxico para aves, mamíferos peixes e abelhas, mas é muito tóxico para invertebrados aquáticos. Hoje é muito utilizado na forma de iscas contra cupins.
• Hexaflumuron: outro inibidor da síntese de quitina, da família da benzoil-ureia descoberta em 1981 pela DowElanco. Não tem odor e apresenta alta solubilidade em água. Baixa toxicidade para mamíferos, aves e peixes, mas afeta invertebrados aquáticos. É empregado com sucesso contra cupins subterrâneos.

Neonicotinóides (ou clorocotinis): é um grupo moderno de inseticidas com mecanismo de ação diferente. No final dos anos 70s, químicos da Shell investigavam compostos denominados nitrometilenos que pareciam ser inseticidas potenciais e já em 1979, cerca de 2.000 compostos nitrometilenos estavam sendo estudados como inseticidas. Em 1985 a Bayer japonesa sintetizou a imidacloprid que mostrou-se ativa contra uma série de insetos. Na esteira, vieram outros neonicotinóides como o thiametoxan, o acetamiprid, o tiacloprid e o nitempiran.
• Imidacloprid:- essa molécula tem registro em mais de 120 países e é usada tanto em ambientes urbanos como agrícolas. Afeta grande variedade de insetos como moscas, besouros, cupins, pulgas, formigas e baratas. A imidacloprid é muito solúvel em água, não é volátil e é estável quando exposta à luz solar em terreno seco. É virtualmente sem odor nas formulações e atua nas sinapses nervosas do inseto, impedindo a acetilcolina de atuar no transporte do estímulo nervoso. No Brasil, foi introduzida no mercado na forma de isca contra moscas.
• Thiametoxan:- com mecanismo de ação semelhante ao imidacloprid, mas ocupando os dois sítios de acoplagem da acetilcolina que transporta o estímulo nervoso de neurônio para neurônio, esse composto apresenta resultados formidáveis no combate a moscas principalmente, embora possa ser empregado contra baratas. No Brasil já está sendo introduzido em diferentes formulações inseticidas com ótimos resultados, pela Novartis/Syngenta.

Sulfonamidas fluoralifáticas: por enquanto só há um composto representante desse grupo, muito utilizado contra formigas, baratas e iscas de cupins.
• Sulfluramida:- tem ação retardada o que permite que o biocida seja transferido de um inseto para outro na colônia (efeito dominó). É um inibidor metabólico para os insetos, de toxicidade oral e dermal baixa para mamíferos e levemente tóxico para peixes a artrópodes aquáticos.

Amidinohidrazonas: grupo representado pela hidrametilnona, sintetizada em 1977 pela American Cyanamid.
• Hidrametilnona:- entrou no mercado do controle de pragas em 1980 em várias formulações para o controle de baratas, formigas e cupins na forma de isca. Atua inibindo a formação do ATP (trifosfato de adenosina), responsável pela produção de energia dentro das células. Foi descoberto que a hidrametilnona encontrada nas fezes das baratas que ingeriram o produto, é capaz de eliminar outras baratas que ingerirem essas fezes (coprofagia é coisa corriqueira na Natureza). No mercado há formulações em pasta e gel.

Fenilpirazóis: outro grupo que tem apenas um representante já comercializado e que tem mostrado bons resultados contra mais de 500 espécies de insetos e ácaros (urbanos e rurais). Descoberto em 1987, começou a ser produzido comercialmente em 1993 e tem registro em mais de 100 países.
• Fipronil:- age por contato e/ou ingestão, afetando o sistema nervoso ao bloquear os canalículos de sódio do sistema nervoso central. Não sendo repelente aos cupins, o fipronil pode ser transferido a outros membros da colônia. Fluidos produzidos por baratas afetadas podem matar outras baratas que os ingerirem (efeito dominó). Também é bastante eficaz contra formigas e mesmo carrapatos. Disponível na forma de iscas de pronto uso, géis, pastas e líquidos para pulverização.

Avermectinas: são inseticidas derivados do fungo Streptomyces avermitilis, um microorganismo que vive no solo.
• Abamectina:- o fungo que a produz foi isolado em 1970 por pesquisadores da Merck a partir de solo coletado no Japão e dele foram isoladas quatro avermectinas de composições diferentes; a chamada abamectina tem 80% de avermectina A com 20% da avermectina B. Vida bem curta (24 horas) quando exposta ao sol, apresenta toxicidade baixa para animais não alvos e paralisa os mecanismos de alimentação do inseto, provocando-lhes a morte. É usada para controlar baratas, mas ainda não há nenhum produto domissanitário com esse i.a. disponível no mercado brasileiro.
Há outros compostos e outros grupos de menor importância no controle urbano de pragas que nao serao abordados neste post.

Não se pode falar de inseticidas sem abordar a questão das formulações, já que um determinado i.a. pode apresentar perfil bastante diferente conforme a formulação em que seja apresentado. Mas, isso será tema de outro post, OK?
Dá um tempo, meu!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

SOBRE OS INSETICIDAS – PARTE II

Seguindo o que estávamos comentando na primeira parte deste tema, vamos falar um pouco sobre o grupo dos inseticidas orgânicos.
Inseticidas Sintéticos Orgânicos: é o maior grupo de inseticidas usado por controladores de pragas profissionais em nossos dias. Compreende: os organoclorados, os organofosforados, os carbamatos, os piretróides, os IDIs (Inibidores do Desenvolvimento dos Insetos), a sulfonamida fluoralifática, a amidinohidrazona, os fenilpirazóis e as vermectinas. Um pouquinho sobre cada classe.
Os organoclorados:- na molécula de todos eles há carbono, cloro e hidrogênio e foi o primeiro grupo dos inseticidas orgânicos sintéticos, ou seja, produzidos artificialmente pela indústria, marcando o ponto de virada na nossa eterna luta para controlar pragas (urbanas e agrícolas). Vejam a matéria que publicamos sobre o DDT aqui neste blog. Em boa parte dos países, a maioria desses compostos já está proibida, especialmente em zona urbana, como o próprio DDT, o aldrin, o BHC, o dieldrin, o lindane, o clordane e o heptaclor).
Os organofosforados:- na molécula há átomos de carbono, de hidrogênio e de fósforo. Comparados aos clorados, os fosforados são menos estáveis, mais voláteis e de ação mais rápida; outra característica: têm odor mais desagradável (problema resolvido nas formulações microencapsuladas). Atuam nos insetos inibindo a colinesterase, uma enzima responsável pela transmissão do estímulo nervoso nas conexões das células nervosas. Intoxicações acidentais podem ser tratadas com sucesso através de antídotos como o sulfato de atropina. Alguns organofosforados estão sendo alvo de preocupações ambientalistas e estão sendo banidos em muitos países do uso urbano ou em recintos fechados, como é o caso do diazinon e do malation. O clorpirifós foi muito utilizado por apresentar ótimos resultados em um amplo espectro de pragas. Atua por contato, ingestão e ação de vapor, com moderado efeito residual. A Dow Química introduziu vários produtos da linha Dursban no Brasil, à base de clorpirifós. Atualmente o clorpirifós tem seu uso restrito a áreas abertas. O diazinon, outro organofosforado muito empregado anteriormente e com muito sucesso, hoje também está sofrendo restrições e caminha para a proibição de uso, assim como o propetanfós. Dos organofosforados, o que tem vida comercial bem longa é o diclorvós (DDVP) porque sua meia vida é muito curta e se degrada no ambiente após ser aplicado, em não mais de 72 horas.
Os carbamatos:- a extinta Ciba-Geigy foi a empresa que no final dos anos 50 sintetizou os primeiros carbamatos que eram igualmente inibidores da colinesterase nos insetos, mas tinham caráter de reversão em caso de intoxicação acidental. O melhor exemplo desse grupo foi o carbaril, hoje em desuso, seguido do bendiocarb. Ainda em uso está o metomil desde 1966, ainda muito empregado contra moscas em diferentes formulações. O propoxur tem características interessantes, especialmente empregado na forma de aerossóis em produtos de uso doméstico.
Os piretróides:- sintetizados a partir dos piretros (hoje com poucas semelhanças), o primeiro deles foi a aletrina e o grupo tem algumas características interessantes que o tornou muito empregado nos tratamentos profissionais contra pragas em ambiente urbano, embora apresentem certos problemas: têm ação rápida e efeito desalojante, são tóxicos para insetos mesmo em pequenas concentrações de uso, têm baixa toxicidade para mamíferos, têm odor relativamente baixo, são relativamente fotoestáveis e pouco voláteis (exceto os primeiros que surgiram) o que lhe concede uma meia vida relativamente longa em torno de algumas semanas, têm baixa solubilidade em água, podem causar irritações cutâneas nos operadores que trabalham desprotegidos, são tóxicos para peixes e podem causar repelência em certos insetos sob determinadas condições de emprego. Depois da aletrina (primeira geração de piretróides) veio a segunda geração (tetrametrina, resmetrina e bioaletrina). Seguiu-se a terceira geração (fenvalerato e permetrina) e a quarta (beta-ciflutrina, bifentrina, ciflutrina, cipermetrina, deltametrina, esfenvalerato, lambdacialotrina, para citar os i.a. já comercializados no Brasil). A cada nova geração, o perfil do grupo foi sendo aperfeiçoado em determinadas características. Os piretróides estimulam o sistema nervoso dos insetos que passa a produzir repetidas descargas elétricas nas células nervosas, provocando paralisia e morte (ação sobre os canalículos de sódio da bainha das células nervosas)
Os IGRs (Insect Growth Regulators ou Reguladores do Crescimento dos Insetos): vamos parar por aqui e retomamos no próximo post, OK?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

SOBRE INSETICIDAS – PARTE I


Já faz algum tempo que tenho vontade de escrever um post sobre os inseticidas em geral. Ensaio, postergo, me preparo, adio e nunca começo. Hoje, resolvi escrevê-lo. Não esperem nenhum tratado científico sobre o assunto, posto que isto aqui é um mero blog cuja intenção é a de trazer aos leitores um pouco de assuntos técnicos de forma leve e abrangente. Pretendo muito mais relembrar certas matérias, discuti-las, repassar e dar um passeio sobre os temas que posto (será que em bom português já existe o termo postar no sentido de colocar no ar via internet alguma coisa?).
Nenhum ramo do fértil e complexo campo do conhecimento humano sobre o controle de pragas caminhou mais rápido e mais fundo do que os inseticidas, nestes últimos 50 anos. Novos compostos químicos tornam-se rapidamente conhecidos devido à agilidade da Internet, com sua sempre crescente rede de “sites da web” (cada vez mais temos que engolir esses galicismos porque se tornam termos universais até mesmo antes de ganhar alguma tradução), sejam das indústrias, das universidades, dos distribuidores, das agências governamentais, sejam mesmo de blogs como este. Ao lado dos novos compostos que vão sendo disponibilizados de forma comercial, outros se vão, descontinuados por seus produtores ou proibidos por decisões regulatórias das agências governamentais. Vocês sabiam que de cada 10.000 novas moléculas químicas pesquisadas apenas uma chega à fase comercial e que, de sua sintetização até sua comercialização, leva um tempo médio de oito a 10 anos?
Já percebi que este post vai longe e que vamos ter que dividi-lo em partes para publicação! Mas, vamos lá!
Gosto do termo “biocida” para designar uma substância ou composto capaz de eliminar pragas; gosto e o uso com freqüência. Acho melhor que praguicida (um tanto agrícola para meu gosto). Para mim, o termo biocida compreende tanto os inseticidas (e outros específicos como acaricidas, mosquicidas, pulicidas, fungicidas, escorpionicidas, etc), como os rodenticidas (ou raticidas). Portanto, inseticida é um biocida específico destinado a eliminar insetos, embora possa ser empregado (com sucesso) contra outros artrópodes como aranhas, escorpiões, carrapatos, milípedes e ácaros (todos não insetos).
Os inseticidas são definidos por sua fórmula química e ganham nomes comuns quando na fase de comercialização. Por exemplo: um composto cuja fórmula química é ciano (4-fluoro-3-phenoxifenilo) metil 3 (2,2-dicloroetenil) -2,2- dimetilciclo –propano -carboxilato ganha o nome comum de apenas... ciflutrina! Ainda bem!
Há várias classificações e grupos que podem juntar moléculas do mesmo tipo ou que tenham alguma similaridade. Por exemplo, podemos agrupar os inseticidas quanto à rota de penetração nos insetos; dessa forma teremos inseticidas de contato, de ingestão ou de inalação. Cada inseticida pode penetrar no inseto por uma ou mais rotas, sendo a mais comum, o contato. Ou podemos classificá-los pelo tempo de ação: fulminantes ou residuais. Há alguns que devido sua alta tensão de vapor, volatilizam-se com facilidade e o vapor gerado já é letal para o inseto se inalado; ex: DDVP (ou diclorvos) que atua em minutos. Entre os residuais, posso citar aqueles que são formulados como microencapsulados (CS), com longa duração de meses.
Para efeito deste post, vamos agrupar os inseticidas em cinco grandes tipos: Os inseticidas inorgânicos, os botânicos, os orgânicos, os bioinseticidas e um grupo de miscelânea.
Inseticidas inorgânicos: muito em voga antes da Segunda Grande Guerra (1939-1945), esses compostos eram quase todos de origem mineral e não tinham nenhuma molécula de carbono em suas fórmulas. Os mais conhecidos eram os compostos de Bóro, destacando-se o ácido bórico. Seu interesse está longe de ter morrido, pois além de sua baixa toxicidade para mamíferos, não induz resistência em insetos. Sua desvantagem é que leva um tempo considerável para atuar (de sete a 10 dias) no inseto que com ele se contaminou. É usado na forma de pó e age por contato e ingestão. A Sílica Gel e a Terra Diatomácea são outros inseticidas inorgânicos ainda utilizados no controle de pragas urbanas sob certas circunstâncias. Ambas são derivadas da sílica amorfa (a sílica gel é fabricada a partir da areia e a terra diatomácea provém de depósitos de diatomita, forma fossilizada de uma pequena planta denominada diatoma). Em tempo: como disse há muitos posts atrás, adoro cultura inútil!
Inseticidas botânicos: derivados de plantas. Os mais conheci dos são os piretros que geraram, sinteticamente, os piretróides(sobre os quais falaremos mais adiante). O ácido crisantêmico, a origem desse grupo, foi isolado a partir de certas linhagens de crisântemos, flores sobre as quais, foi observado, nenhum inseto se atrevia a pousar. Mais cultura inútil: essas flores foram usadas para repelir insetos (especialmente voadores) na Pérsia e na Dalmácia (atual Iugoslávia) em priscas eras. Os piretros são ainda hoje, muito utilizados em todo o mundo para controlar insetos profissionalmente. Sabem de onde vem a maior produção de piretro contido nos crisântemos? Do Quênia e da Tasmânia. Mas há grande produção de crisântemos também na Tanzânia, em Ruanda, na Nova Guiné e até no Equador. Como alguns piretros podem produzir apenas um efeito de choque em certos insetos que após um lapso de tempo se recobram, passou-se a adicionar aos produtos à base desses compostos, algumas substâncias sinergistas (aumentam o efeito) como o butóxido de piperonila, por exemplo. Os piretros são inseticidas de contato de baixa toxicidade para mamíferos e quase não têm efeito residual, porque se degradam rapidamente sob ação da luz. Contudo em áreas escuras e protegidas, seu efeito pode alcançar até duas semanas. Geralmente seu efeito fulminante é forte, além de serem irritantes para insetos como baratas, produzindo o chamado efeito desalojador.
Temos que falar agora dos inseticidas orgânicos sintéticos, mas vamos fazê-lo no próximo post, OK?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

E ATENÇÃO, ATENÇÃO: JÁ SÃO 40.000 VISITAS A ESTE BLOG!


Assim de mansinho, como quem não quer nada, chegamos à casa das 40.000 visitas a este blog. Nada mal, nada mal! Neste mundo de dupla troca, sempre quisemos as visitas de nossos leitores, posto que o blog do Higiene Atual foi criado com esse intuito. Em troca, oferecemos posts sobre assuntos de interesse dos profissionais controladores de pragas e outras variedades, sempre em linguagem informal e tom leve. Foi assim que caímos no gosto de nossos leitores e a exatamente dois anos de sua criação, nosso blog comemora sua quadragésima milésima visita, com muito orgulho. Os novos leitores podem acessar na coluna da esquerda uma relação enorme de diferentes palavras chaves e por ali buscar os posts já publicados sobre o tema que lhes interessar, rápido e rasteiro. Os antigos leitores, já sabem disso. Há também uma coluna à esquerda de perguntas e respostas, mas ambas com um número limitado de espaço. Portanto, perguntas concisa e respostas idem. Todavia, nessa coluna tem um monte de entradas de visitantes que não têm nada o que fazer e enviam mensagens “papo furado” em inglês ou em suas línguas natais. Não querem dizer nada e apenas ficam enchendo lingüiça e nada podemos fazer contra essa perda de tempo, pois a coluna é aberta. De qualquer forma, essa coluna ali está para que nossos leitores realmente interessados possam se comunicar conosco. Façam uso quando desejarem. Complementando esse lado esquerdo do blog, há uma coluna de visualização “on line” dos visitantes que acessam o blog, de onde são e o que buscam. Praticamente todos os dias esse contador mostra que há acessos até de outros países mesmo que não sejam lusofônicos. Interessante!
Então, por aqui vamos comemorando a marca das 40.000 visitas prometendo outra comemoração quando chegarmos às 50 mil. OK?
O Editor

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

REMINISCÊNCIAS

Caramba! Estou ficando maduro! Eu disse cronologicamente maduro, não desatualizado, antes que alguém me venha com essa! Percorri um longo e gostoso caminho até aqui nestes 42 anos de profissão, foi um longo e detalhado aprendizado, todos os dias. Olhando bem até, tenho a convicção de que contribui de diferentes formas para a evolução deste ramo de conhecimento do controle de pragas e ainda tenho um punhado de idéias que precisariam ser testadas. Com prazer leio e escuto falar sobre os novos avanços tecnológicos e novas pesquisas. Em um desses momentos, conversava por internet com uma amiga bióloga dessa “velha guarda” quando ela citou a Pasta Zélio, um antigo raticida da Bayer muito popular há décadas atrás, desbancada pelo surgimento das 4-hidroxicumarinas. A partir daí, entre risadas eletrônicas, começamos a lembrar alguns produtos que existiam no arsenal do combate às pragas em nosso país e que fizeram parte do nosso cotidiano daqueles tempos. Especialmente para os mais jovens, mas também para delícia dos “old timers”, resolvi montar um post falando daqueles produtos antigos que tão bons serviços nos prestaram.
A chamada “revolução industrial”, iniciada por volta do ano 1800, possibilitou incríveis avanços tecnológicos a partir da produção em massa de uma série infindável de produtos. A indústria química ganhou especial atenção no campo fabril. A obtenção de matérias primas sintéticas a partir dos subprodutos do carvão, nitrogênio e fosfatos fez crescer as possibilidades de múltiplos e novos usos. Entrava-se no século XX com a visão de universo totalmente transformada pelas possibilidades que se apresentavam pelo avanço tecnológico. A química era tida como uma ciência que transpunha todos os problemas do mundo moderno. Neste ambiente de desenvolvimento industrial, principalmente nas suas últimas décadas, houve um crescimento desenfreado e desmedido na utilização de produtos químicos pelo homem, por conta dos benefícios que se pretendiam obter com os mesmos, algumas vezes acarretando prejuízos tanto ao meio ambiente como à sua própria saúde e que se faz sentir até os dias atuais. A propaganda, seja em cartazes, seja em anúncios e cartões-postais, tinha papel primordial nesse contexto. De modo geral, os produtos procuravam conquistar o consumidor, especialmente aqueles que nunca tinham tido a possibilidade de desfrutar de um padrão de vida melhor: cura de doenças, controle de pragas (especialmente insetos e ratos), limpeza mais eficiente, menos esforço nos afazeres domésticos... A grosso modo, podem ser distinguidos dois tipos de propaganda: a que valorizava a eficácia frente a uma determinada situação, até mesmo exacerbando suas qualidades, com omissão aos perigos do uso indevido ou de manipulação por pessoas inabilitadas (crianças, principalmente) e a que mostrava as virtudes do produto por meio de uma história fictícia que envolvia e convencia o consumidor a adquirir o mesmo. A sedução era o “segredo” para conquistar novos consumidores, com “boas doses de exagero” prometendo, muitas vezes, confortos e regalias que não se verificavam com o tempo. Existiram também propagandas curiosas de produtos que passavam a idéia de que a Química tinha o poder de criar produtos inesgotáveis, no caso, uma falsa qualidade do produto, como atesta o trecho a seguir: “os melhores banhos são os de cascatas onde a água nunca se acaba... e os banhos mais deliciosos são tomados com o sabonete Vale Quanto Peza, o sabonete que também nunca se acaba”.
Já que falamos, vamos começar pela velha Pasta Zélio (nunca descobri a razão desse nome) cujo ingrediente ativo era o sulfato de tálio, que era fabricada e distribuída pela Bayer lá pelas décadas de 40 e 50. Soube que a Pasta Zélio era formulada como uma pasta verde (para se colocar em algum alimento apetecível pelos ratos) e em grânulos (isca).
Peguei o finalzinho da comercialização desse produto, porque a própria Bayer o descontinuou quando lançou seu raticida Racumin na década de 50 no Brasil, um hidroxicumarínico bem mais seguro que o sulfato de tálio. Soube que no México, a Pasta Zélio ainda é comercializada, não sei por qual empresa fabricante.
Outro produto bem conhecido desde tempos idos é o ácido bórico (ou bórax), disponível em cristais incolores ou sob a forma de pó branco. Eclético, o ácido bórico era usado como inseticida, como antissético em pequenas feridas ou queimaduras, como adubo e até como reatardante de chamas. Como inseticida atuava na forma de pó contra pulgas e cupins; misturado com algum atrativo, como o açúcar de confeiteiro, era ótimo contra formigas doceiras e baratas. Relativamente pouco tóxico, pouco mais que o sal de cozinha (DL50 de 2.660mg/kg) era largamente utilizado nos ambientes domésticos. Lembro-me de uma propaganda veiculada via rádio que dizia (com voz de japonês): “Massinha miragrosa, mata as balatas de sua casa”. Vendia muito, antes do surgimento das pastas e géis baraticidas à base de hidrametilnona e fipronil.
E quem se lembra do Neocid? Era uma pequena lata que continha um pó branco; a lata era fechada e continha um orifício lateral recoberto por um selo colado. Bastava remover o selo e prmer a lata no ponto indicado e saia um borrifo de pó. Pertencia à Ciba-Geigy e o i.a. era o DDVP. Existe ainda hoje e seu descendente atual é o Neocid Mortein pó contra formigas e pulgas (da Reckit Beckinser), à base de carbaril (um carbamato). O velho Neocid era muito utilizado pelas mamães para eliminar piolhos da cabeça de seus pimpolhos. Polvilhava os cabelos, punha um pano envolvendo a cabeça e aí o deixava por uma hora; removia o pano e todos os piolhos estava mortinhos da silva! Depois era só passar um pente bem fino (qualquer farmácia o vendia) para remover a lêndeas (ovos). Grande Neocid. Nunca ouvi falar que alguma pessoa tivesse se intoxicado com ele! Injustiçado, como o velho DDT.
Outro velhinho é o Verde de Paris, o nome popular de um composto descoberto em 1808, o Aceto Arsenito de Cobre, um pó de cor verde intenso que começou a ser comercializado em 1814, não como praguicida, mas sim como um mero pigmento para tintas; em 1814 descobriu-se que as tintas que levavam esse composto eram tóxicas e muitos pintores foram envenenados por esse pigmento sendo ele completamente banido das tintas. Apenas em 1867 o Verde de Paris foi introduzido no combate a pragas, inicialmente utilizado o escaravelho da batata. Em 1900 era usado em tão larga escala que levou o governo dos Estados Unidos da América a estabelecer a primeira legislação no país sobre o uso de insecticidas e o heróico verde de Paris foi proscrito.
Quem ainda se lembra do Detefon? Quero dizer, o antigo, porque ele ainda está à venda nos supermercados e assemelhados (é da Reckit Benckiser). Falo daquele que vinha em latinhas de 500 ml e que precisava de uma bomba manual para ser aplicado. Falo daquele cuja propaganda dizia que ele era eficaz contra mosquitos (pernilongos) da malária, da febre amarela, do tifo, das baratas e pulgas, pois ele era o anunciado “mata tudo”, expressão que só foi proibida pela Anvisa em 1997. O primeiro fabricante foi o Laboratório Fontoura e, depois, a Anakol comprou seus direitos; tornou-se extremamente popular na década de 50 devido seus ótimos resultados. Detefon continha DDT (por isso é que matava tudo mesmo) até a proibição desse organoclorado.
Falando em Detefon, me lembrei do FLIT, lançado para uso doméstico em 1923. Tratava-se de um óleo mineral, derivado do petróleo, indicado para combater mosquitos ao ser aplicado através de uma bomba manual tão popular que podia ser encontrada em qualquer biboca que se prezasse. A propaganda do Flit no Brasil usava o mesmo soldadinho de túnica vermelha empunhando a bomba do produto.
Lá na gaveta das lembranças primevas, ainda tem outros produtos como o Neguvon e outros. Mas isso vai ficar para outra vez.

sábado, 10 de dezembro de 2011

POSSÍVEIS NOVOS BIOINSETICIDAS

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A Internet abriu um mundo fantástico diante de nossos olhos (e cérebros). Aquele que se dispuser a navegar em busca livre de alguma informação, vai se surpreender com a imensa quantidade disponível de sites, blogs, citações, livros, artigos publicados e assemelhados que podem ser consultados ao alcance de um clique em seu computador. Outro dia, busquei uma informação em que estava interessado e o Google me informou que havia mais de 15.000 locais onde a informação desejada poderia ser acessada! Nem que eu fosse mágico conseguiria consultar todas as fontes localizadas, por isso me limitei a acessar duas ou três e já me dei por satisfeito.
Em um desses passeios livres, encontrei um artigo que me interessou. O autor falava de algumas pesquisas e certas descobertas que poderiam ser promissoras na busca de novos biocidas. Achei que os leitores do Higiene Atual poderiam se intressar por esse tema, juntei mais alguma coisa que já havia buscado e escrevi este post.
O autor (John Brown) começa afirmando que o homem nunca sintetizou um inseticida cujo mecanismo de ação não ocorresse na Natureza. A maioria dos inseticidas sintéticos tem modo de ação similar a aqueles que ocorrem em plantas, animais, minerais ou micróbios. Certas espécies de crisântemos (flores) produzem defesas contra herbívoros (piretrinas). A criolita é um mineral que apresenta propriedades inseticidas. A delta-endotoxina do micróbio Bacillus thuringiensis faz com que insetos parem de se alimentar. O cartape é um exemplo de uma secreção defensiva animal que apresenta propriedades inseticidas. Certos inseticidas sintéticos podem ser modelados a partir de alguns hormônios naturais de insetos (reguladores do crescimento de insetos – IGR). Portanto, não é de admirar que certos enzimas encontrados nos insetos, como as quitinases, estejam sendo estudadas como possíveis inseticidas.
Achei isso muito interessante! As quitinases são enzimas que degradam a quitina (proteína) que recobre o exoesqueleto dos insetos, mas tamb´[em estão presentes no mundo vegetal. Trata-se de um polímero formado por longas cadeias repetidas de açúcar constituindo complexas moléculas. Certas plantas desenvolveram quitinase para se defenderem do ataque de fungos, mas também podem atuar na resistência contra insetos. Por exemplo, sementes de cereais contêm substanciais quantidades de quitinases (0,01%); essa quantidade podem defender a semente do ataque de fungos, mas claramente é insuficiente para evitar o ataque de insetos nos grãos armazenados. As quitinases vegetais podem atacar a membrana quitinosa do esôfago do inseto, bem mais fina que sua quitina da carapaça. Essa membrana tem no máximo 12% de quitina e um ataque enzimático poderia resultar em severa abrasão que provocaria no inseto imediata cessação da capacidade de se alimentar. Pesquisadores envolvidos na busca de novos inseticidas, têm se voltado ao estudo das quitinases. Os Drs.Kramer e Muthukrishnan da Universidade de Kansas publicaram interessante trabalho nesse estudo (biologia molecular) onde estudavam diferentes quitinases de diferentes origens e o código do DNA de certas quitinases foram clonados e inseridos em plantas. Essas plantas transgênicas são então criadas com tecnologia similar à da criação das plantas já disponíveis no mercado que contêm o gene da delta-endotoxina (do Bacillus thuringiensis). As quitinases podem aumentar o efeito da delta-endotoxina, porque atacam o trato digestivo de insetos, aumentando o efeito da delta-endotoxina.
Portanto, no futuro, poderemos ter quitinase como aditivo da delta-endotoxina no produto à base de B.thuringiensis que hoje compramos, por exemplo, resultando em efeito altamente potencializado. A pesquisa não para, amigos!

domingo, 20 de novembro de 2011

MELHORANDO O DESEMPENHO DE SUA EMPRESA


OK! Sua empresa controladora de pragas é pequena, você e mais meia dúzia de pessoas trabalhando duro para fazê-la crescer, de vez em quando um mês muito fraco e dificuldades para pagar todas as obrigações financeiras, fiscais e cobrir a folha de pagamento. Não é fácil, eu sei. Uma pasta de clientes não muito grande necessitando fortemente de algum crescimento que a fortaleça, o mercado povoado por empresas controladoras de todos os tamanhos e portes competindo por conquistar centímetros. O que fazer?
Bem, muita coisa! Se a empresa é de pequeno porte, o campo de possíveis melhorias pode ser vasto. Começando por dentro da própria empresa: administração mais descomplicada. Não estou dizendo mais simplificada ou mais superficial; estou querendo dizer através de métodos mais objetivos como, por exemplo, compra de materiais e insumos. Além de organizar um almoxarifado (por menor que seja) bem controlado onde tudo o que entra e que sai é devidamente assentado em programinhas de controle, é preciso centralizar as ações administrativas em uma só pessoa, de preferência em um funcionário de confiança. Em tempo, o proprietário da empresa deve reter o controle financeiro e a orquestração geral, mas deve reservar grande parte de seu tempo para a conquista de novas contas, gerenciamento das já existentes e, especialmente, o pós venda. Não ter controles achando que são desnecessários porque a empresa é pequena, é o caminho mais curto para o brejo, onde certamente a vaca vai se atolar! Outra coisa, o imediatismo: por menor que seja a empresa, esse negócio de ir ao distribuidor para comprar dois ou três litros do inseticida escolhido, o necessário para executar um ou dois serviços, é totalmente contraproducente. A empresa certamente vai pagar o preço cheio no balcão e isso contribuirá para diminuir sua margem de lucro. Se você computar na coluna das perdas (isso deve ser feito sempre) as despesas de muitas idas e vindas do comprador ao distribuidor e do veículo de seu transporte, vai deparar-se com valores que poderiam ajudar muito no balanço mensal da empresa.É preciso juntar um pequeno capital de giro que permita à empresa adquirir um volume maior de insumos a cada vez, adquirindo assim maior poder de negociação com seu distribuidor. Não tema, os distribuidores têm margens que permitem oferecer um desconto significativo até para as pequenas empresas, caso ela compre um volume maior de insumos. Melhores preços de compra impactam positivamente o balancete mensal, sem dúvida. Isso tudo, para não falar na parte técnica da empresa, dos serviços, onde dezenas de melhorias podem ser implementadas, tenho a certeza.
Muito bem. Mas, e se a empresa já for de média para grande, onde dezenas de funcionários administrativos e operacionais trabalham e a carteira de clientes e contratos permanentes já é razoavelmente (ou muito bem) recheada. Se você já tem pessoal especializado nos diferentes setores da empresa, equipes de serviço, veículos e clientes, o que a empresa pode fazer para subir um degrau no mercado, crescer para um patamar superior, alavancar seus negócios? Obviamente suas preocupações já são de outra sorte do que aquelas experimentadas por uma pequena empresa controladora. Quando todas as medidas administrativas e técnicas já foram implementadas na empresa (aliás, por isso ela cresceu), pode parecer mais complicado e difícil dar o empurrão que a impulsionaria a partir do ponto em que se encontra. Outros tipos de barreiras devem ser buscadas e equacionadas, começando por melhor conhecer as necessidades de sua clientela. O caminho para o crescimento passa também por incluir equipamentos mais modernos (melhorar custo/benefício), aperfeiçoar o treinamento do pessoal (administrativo e operacional), adequar metas e expectativas, melhorar a comunicação, a visibilidade e a transparência da empresa. Se já tenho bons profissionais operacionais, um bom gerenciamento e uma boa base de clientes, possivelmente minha empresa já esteja operando com boa margem de lucro, preciso visualizar o que posso fazer para desenvolver mais minhas operações no mercado.
Três coisas podem ser mencionadas:
a) Adotar equipamentos cibernéticos que possam melhorar o desempenho da empresa. Obviamente já nem mencionarei computadores de serviço, pois isso já é de uso corrente em qualquer empresa que se preze. Equipes que ainda usam papéis a serem preenchidos antes, durante e após os serviços, passam uma imagem de empresa defasada e obsoleta. Equipá-las com GPS, celulares tipo smartphones, Bluetooth, computadores tabletes (tipo Ipad)e laptops (lamento, mas esses nomes em inglês são universais e praticamente não têm tradução para o português), podem fazer enorme diferença agilizando as operações de campo, além de passar uma imagem de modernidade e presteza aos olhos do cliente. Além disso, esses equipamentos colocam as equipes em contato permanente com a sede da empresa (on line).
b) Falta de integração entre os setores de venda e operacional. Nas empresas de maior porte, é comum o divórcio entre esses dois (importantes) setores. O pessoal de vendas acha que o pessoal operacional deve estar a seu serviço e o pessoal operacional acredita que o pessoal de vendas está distante da realidade dos serviços. A verdade é que algumas das melhores oportunidades de negócios são identificadas pelo pessoal operacional à medida que interage com os clientes. Ambos os grupos precisam ser devidamente esclarecidos sobre a importância de sua integração. A saúde da empresa exige que se entendam e respeitem seus limites.
c) Treinar, treinar e retreinar. Como anda o treinamento de seus funcionários? Todos entendem perfeitamente o que a empresa quer, onde quer chegar, quais as linhas mestras de conduta esperadas dos diferentes funcionários, quais as metas mensais, semestrais e anuais estabelecidas e outras? Ou essa área anda meio frouxa?
Quer dizer, há muita coisa que pode e deve ser feita para desestagnar uma empresa de porte grande. Muita coisa!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

DDT, O HERÓI PROSCRITO


Nenhum inseticida foi mais famoso do que o conhecido DDT. Tido e havido como o salvador da pátria, acabou execrado e foi parar no limbo do esquecimento. Tão importante foi que, em nosso país, acabou denominando a profissão do atual controlador de pragas que, ainda hoje, segue sendo chamado pelo povo de “dedetizador” e as empresas do ramo de “dedetizadoras”. Faz tempo que quero contar um pouco sobre a saga desse incrível composto chamado DDT.
O DDT (dicloro-difenil-tricloroetano), considerado o avô de todos os inseticidas modernos, foi sintetizado como um composto em 1873 na Alemanha, mas ficou esquecido em alguma gaveta porque ninguém sabia para que ele poderia servir. Foi só em 1939, ou seja, 53 anos depois, que um químico suíço, Dr. Paul Muller, trabalhando para a Geigy Química, um laboratório também suíço, descobriu, quase que por acaso, que esse composto matava insetos e bem! Foi rapidamente testado contra várias espécies de insetos e era tiro e queda! Mas, somente em 1944 é que ganhou incrível notoriedade de “inseticida milagroso” quando foi empregado com muito sucesso em campanha de saúde pública para debelar uma epidemia de tifo na cidade de Nápoles (Itália), sendo usado largamente na forma de pó para combater os piolhos disseminadores dessa doença. Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o tifo havia matado mais de três milhões de pessoas na Rússia e Europa oriental. O emprego do DDT em saúde pública foi tão bem sucedido que o Dr. Muller foi agraciado com o prêmio Nobel para medicina em 1948. Nessas campanhas contra o tifo, o DDT pó foi aplicado na cabeça e no corpo de milhares de soldados, refugiados, civis e prisioneiros, sem exibir nenhuma reação adversa. Ganhou a reputação de seguro para ser usado. A agricultura logo se interessou pelo composto porque era substancialmente barato e seu efeito era múltiplo combatendo eficazmente inúmeras pragas da lavoura; os agricultores abandonaram a rotação de lavouras em troca do tratamento químico com o DDT. Na esteira de seu sucesso vieram rapidamente outros inseticidas hidrocarbonetos clorados (mesmo grupo químico do DDT) em sucessão, tais como o BHC, o clordane, o lindane, etc, e o uso de inseticidas sintéticos se disseminou por todo o mundo. Claro que usaram e abusaram do emprego desses compostos. Imaginem que até uma velha profissão passou a ter êxito com resultados muito bons ao usar o DDT e seus análogos, a profissão do controlador de pragas urbanas, firmando-se no cenário.
A primeira onda de crítica pública ao DDT começou em 1949 quando o jornal New York Post começou a publicar uma série de artigos de autoria de Albert Deutsch, entitulada “O DDT e você”. Ele criticava o uso excessivo e abusivo do DDT e o acusava de ser o causador do “Vírus X”, uma doença que se alegava ser provocada pela exposição ao DDT. O jornalista dizia que, embora reconhecesse a utilidade do DDT quando adequadamente empregado em indivíduos, o composto era perigoso demais para o ser humano quando empregado repetidamente em campanhas de saúde pública. Até então, os riscos ou não do DDT eram discutidos somente em meios acadêmicos e entre cientistas, entomologistas e biologistas. Mas, em 1962, Rachel Carson, uma talentosa escritora, publicou um livro entitulado Primavera Silenciosa (Silent Spring) que se tornou um “best seller” na época e que despertou a atenção da mídia para o novo tema. Rachel não era cientista, mas recebeu muitas contribuições de fontes não científicas e dados algo duvidosos e imprecisos sobre os “malefícios” do DDT. Ela batia forte contra o uso abusivo dos pesticidas e pedia mais controle no seu uso. Atacava o comportamento irresponsável da sociedade tecnológica e industrializada com relação ao mundo natural. A principal acusação de Rachel ao DDT era que ele seria carcinogênico. Todavia, Rachel em nenhum momento mencionava os enormes benefícios que o DDT e outros compostos haviam trazido para a humanidade. Só como exemplo, ela relacionava doenças potencialmente perigosas para o ser humano tais como o tifo, a malária e a peste bubônica como tendo sido controladas apenas com medidas de melhoria, de sanidade do meio ambiente e de novas drogas no tratamento. Em nenhum momento mencionava que inúmeras doenças transmitidas por insetos ou roedores puderam ser atacadas com o uso de inseticidas como o DDT e outros. Quer dizer, embora o DDT não fosse o vilão da história, passou a acusado de ser. A mídia se encarregou de disseminar esse injusto papel, manipulando a opinião pública nunca devidamente esclarecida, de tal sorte que em 1972 o uso do DDT foi proibido inicialmente nos Estados Unidos e rapidamente em outros países mundo afora. Muitos outros argumentos foram então levantados contra o indefeso DDT: residual longo demais, poluição ambiental, inespecífico e uma série de outros argumentos, alguns válidos, outros exagerados. Não me lembro de ter lido nada sobre o ângulo custo/benefício do DDT. Que pena!
Em 1989, o jornal New York Times publicou a seguinte manchete: “Estudos demonstram que não há ligação entre a exposição ao DDT e o risco de contrair câncer”. Ao menos a verdade foi restabelecida, mas infelizmente, tarde demais para salvar milhões de vidas que morreram porque inúmeros programas de controle foram cancelados, especialmente em países mais pobres que jamais puderam fazer uso de outros compostos notoriamente bem mais caros!
Pensem a respeito.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

QUIMIOFOBIA (MEDO DE PRODUTOS QUÍMICOS)


Nossa sociedade vive com uma série infindável de receios e medos. Muitos são infundados, mas outros são verdadeiros e manifestam-se intensamente em determinadas pessoas. O desejo de não ter que conviver com insetos, ratos e outros bichos, leva muitas pessoas a buscar o auxílio de um profissional controlador de pragas, mas quando este se apresenta, paradoxalmente essa pessoa não quer que esse especialista faça uso de produtos químicos para solucionar o problema. Os avanços tecnológicos no controle de pragas já permitem que consigamos bons resultados no controle de algumas delas sem lançar mão de produtos químicos, mas outras não. De qualquer forma, vamos dar um passeio sobre essa delicada questão que o profissional controlador de pragas pode encontrar (com certa freqüência) no seu dia a dia.
Podemos dividir as fobias, a grosso modo, em duas grandes categorias. Cerca de 60% das fobias refletem medos generalizados. Por exemplo: agorafóbicos são pessoas que têm medo de se expor em espaços abertos, públicos ou com multidão; também receiam caminhar sozinhos ou usar transportes públicos. Seu inverso é o claustrofóbico que simplesmente não consegue permanecer em espaços fechados como um elevador ou a cabine de um avião; entrar em um tubo de tomografia, nem pensar, só sedado! O outro grupo de fobias é formado pelas fobias monossintomáticas, ou seja, a pessoa tem medo de certa coisa específica. Um bom exemplo são os musofóbicos, pessoas que têm medo de roedores em geral, os aracnofóbicos (medo de aranhas), os entomofóbicos (medo de insetos) e assim por diante. A quimiofobia (medo de produtos químicos) não se enquadra em nenhuma dessas duas categorias clínicas citadas; é mais um termo político do que psicológico. As fobias verdadeiras são manifestações individuais, enquanto que a quimiofobia traduz um comportamento coletivo vago e impreciso, sem limites plenamente estabelecidos. A quimiofobia frequentemente é inspirada por grupos ou associações de pessoas que levantam a bandeira de que qualquer produto químico é perigoso e põe em risco a integridade física das pessoas, o que está rigorosamente longe de ser verdade. Se fôssemos banir total e completamente de nossos meios ambientes os produtos químicos que nos cercam e dos quais fazemos uso cotidiano, a vida iria se tornar bem difícil, bem difícil mesmo! Se eu não usasse mais uma pasta dentifrícia, um sabão para lavar as mãos ou minhas roupas, um desinfetante na limpeza da casa e outros produtos químicos que fazem parte do meu cotidiano, creio que a vida seria bem mais complicada, cidadão urbano que sou.
Os profissionais controladores de pragas são particularmente expostos aos quimiófobos. Lidando essencialmente com biocidas, frequentemente são alvos dessas pessoas que, de forma vaga, se declaram contra produtos químicos. “- Meu apartamento está cheio de baratas e preciso que o senhor acabe com elas, mas sem usar produtos químicos”. E arrematam: “- é que eu sou alérgico”. Provavelmente não sabem que as baratas são responsáveis por crises alérgicas, bem mais que alguns inseticidas. Contudo, o que se percebe é uma tendência crescente à quimiofobia na sociedade moderna e cada vez mais o profissional controlador de pragas vai cruzar com pessoas que manifestam forte receio ou desaprovam o uso de biocidas. Com freqüência um conflito de interesses se manifesta quando uma empresa busca solução profissional para controlar insetos, por exemplo, e dentro dessa empresa existe um ou mais quimiófobos. Essa situação vai exigir muita diplomacia e tato para ser equacionada, sem dúvida!
As raízes da quimiofobia estão na sensação atávica de que “eu devo proteger a mim mesmo e minha família dos perigos”. Os produtos químicos são, de forma generalizada, catalogados como um desses perigos. O problema é que esse medo pode ganhar proporções exageradas, especialmente quando a mídia veicula acidentes intoxicativos com produtos químicos, especialmente ligados a alimentos. O célebre Paracelso (1493 – 1541), em priscas eras, já dizia que todas as substâncias podem ser tóxicas... dependendo da dose! A desinformação ou a falta de, leva a crenças infundadas. Quando um noticiário anuncia que foi encontrada a presença de traços de tricloroetileno na água de bebida da cidade, o cidadão comum se assusta porque não sabe o que é tricloroetileno, nem lê “traços” (partes por bilhão) e já fica achando que aquela água está contaminada irremediavelmente. “Traços” passa a ser “contaminação”. Esse mesmo cidadão também não sabe que na farinha de trigo que ele usa para se alimentar e aos seus, existem pelos de roedores e partes de insetos em quantidade considerada “aceitável” por lei! O cidadão comum considera que a poluição ambiental, algo que ele pouco pode fazer para resolver, representa uma ameaça à saúde pública bem maior do que todos aqueles fatores essencialmente sob seu controle, tais como fumar, ingerir álcool, dietas e estresse. Portanto, não é de se estranhar que controladores de pragas e outros grupos que se utilizam de produtos químicos sejam alvos constantes dos quimiófobos e da mídia.
Dessa forma, o público não está reagindo a riscos reais, mas à sensação de risco, a riscos percebidos. Percepção não é realidade. Realidade é realidade! Na prática, então, o profissional controlador de pragas está lidando muito mais com risco percebido do que propriamente um risco real e pouco adianta discursar para tentar esclarecer e reduzir as sensações a suas verdadeiras dimensões. Um discurso tecnificado, cheio de palavras e dados técnicos, só tende a piorar as coisas, pois o cidadão comum (que não tem o conhecimento técnico do profissional) vai achar que está sendo “enrolado”. A melhor postura é a não discussão, deixando isso para os acadêmicos e estudiosos de plantão. A busca de alternativas é a chave para contornar tais situações. Os controladores de pragas precisam promover a ideia de que estão sempre preocupados com as pessoas e que são parte da solução, muito mais do que parte do problema. Essa deveria ser a bandeira individual de cada profissional controlador de pragas e das associações que os representam.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O QUE HÁ DE NOVO POR AÍ?


Foi a pergunta que recebi de nosso leitor Hipólito. Ele queria saber se há alguma molécula nova sendo registrada em produto comercial (domissanitário) e quem a estaria registrando. Bem, amigo Hipólito, não sou exatamente o que se chama de “insider” da Anvisa e só fico sabendo das coisas que lá acontecem (de nosso interesse) quando eles abrem a informação para o público em geral, através de uma consulta pública, por exemplo. Dessa forma, sei bem pouco sobre intenções de lançamento no mercado nacional, mas sei que tais lançamentos de moléculas novas são mais ou menos raros. Contudo, vamos dar uma espiadela naquilo que já vazou e que talvez nem lhe seja novidade!
Para começar, vamos lembrar que novas moléculas inseticidas geralmente surgem primeiramente no mercado agrícola e só depois são estudadas como domissanitários. Fácil de entender: o uso agrícola (agricultura e/ou pecuária) é vastamente superior ao mercado urbano e obviamente as pesquisas em andamento pelo mundo, visam preferencialmente o uso rural. As pragas das lavouras são muito mais numerosas (em gêneros e espécies) do que as pragas sinantrópicas e apresentam, com freqüência, adaptações e mutações que exigem muita pesquisa para que logremos controlá-las.
No mercado agropecuário, há ao menos três novos inseticidas já lançados ou em via de lançamento, introduzidos por gigantes do setor. Esses novos compostos incluem seletividades aumentadas contra insetos daninhos, refletindo baixa toxicidade para outras espécies, e altas eficácias, possibilitando aplicações em concentrações mais baixas e mais espaçadas. A mais significativa das novidades é o espinetoramo o mais recente membro da família das espinosinas, descobertas e desenvolvidas ao longo da década de 80; o nome comum desse novo composto é espinosade em português. A origem teria sido uma amostra de terra coletada do solo de uma destilaria de rum abandonada, localizada numa ilha não identificada do Caribe por um químico da Dow AgroScience em férias. Do material recolhido, isolou-se um fungo actinomiceto, então denominado Saccharopolyspora spinosa, cujo caldo de cultura rendeu extratos que demonstraram atividade contra larvas da mariposa Spodoptera eridana. Uma versão de uso veterinário do espinosade, para controle de pulgas em cães, está em fase de licenciamento no Brasil, possivelmente sob o nome Confortis, por iniciativa da Elanco, divisão da Eli Lilly. A indústria farmacêutica detém direitos sobre o produto pelo fato de a Dow AgroScience, que agora pertence exclusivamente à Dow Chemical, ter sido fundada na forma de joint venture entre esta e a Lilly, em 1989. As espinosinas diferenciam-se de outros pesticidas com ascendências naturais, como neonicotinóides (bloqueio da atividade nicotínica no sistema nervoso central), avermectinas (bloqueio de canais de cloro) e piretróides (bloqueio de canais de sódio) pelo mecanismo de ação que estimula o receptor colinérgico nicotínico, cuja ativação inicia uma sequência de eventos acarretando a morte de insetos. O defensivo mostrou atividade contra insetos das ordens Lepidoptera, Diptera, Thysanoptera, cupins (Isoptera), formigas (Hymenoptera) e alguns coleópteros (besouros). O espinosade é um biocida de ação relativamente rápida, o inseto morrendo dentro de um ou dois dias depois de ingerir o composto, cuja taxa de mortalidade aproxima-se de 100%.
Outra gigante do setor, a Bayer CropScience, já está tirando do forno um novo composto, o espirotetramato , em testes desde 2007, a partir de sua estreia na Tunísia. Descendendo de dois derivados de ácido tetrônico, (espirodiclofeno e espiromesifeno), o novo defensivo mostra-se letal para insetos sugadores em plantas, a exemplo do pulgão Aphis gossipii e da mosca branca, Bemisia tabaci, que assolam culturas de algodão. Ainda não há notícias sobre seus possíveis usos contra pragas urbanas.
Já a BASF PlantScience, por sua vez, está em fase avançada de registro em muitos países, de sua nova molécula, a metaflumizona, a qual parece ser o defensivo em estágio de licenciamento mais adiantado, tendo emprego autorizado em países europeus como Alemanha e Áustria. Estruturalmente é uma semicarbazona cujo ativo exerce um ação que envolve o bloqueio de canais de sódio dependentes de voltagem nos insetos, decorrendo uma paralisia relaxada, de forma semelhante à produzida pelo inseticida oxadiazínico indoxacarb, com o qual apresenta semelhança estrutural. Enquadrado entre os inseticidas “verdes”, em razão da sua baixa toxicidade (DL50 = 5.000 mg/kg), o novo produto apresenta vocação antiectoparasitária, sendo comercializado em formulações veterinárias para controle de longo prazo de pulgas, ácaros e carrapatos.
Salvo erro ou omissão, esse é o quadro momentâneo, mas vou ver se descubro mais alguma coisa por aí, certo Hipólito?

sábado, 15 de outubro de 2011

UM POUCO SOBRE A FORMIGA SAÚVA (Atta capiguara)


Nossa amiga e leitora Ivone nos indaga sobre o controle da formiga saúva (Atta capiguara) e seu controle em âmbito urbano. Vamos, então, passar uma rápida vista sobre esse tema.
A saúva é uma séria praga tipicamente rural que traz grandes dores de cabeça ao agricultor, pois sua ação pode ser literalmente devastadora. Ainda que seja rural, a formiga saúva está presente também no meio urbano infestando jardins tanto públicos, quanto particulares, gramíneas, viveiros de mudas, áreas de reflorestamento, etc. Atacam quase todas as culturas, cortando folhas e brotos tenros, com extrema habilidade e rapidez. Sob o nome de formiga saúva, abriga-se um expressivo número de diferentes espécies de formigas, especialmente do gênero Atta (mais de 200 espécies), também conhecidas como formigas cortadeiras. Insetos tipicamente sociais, seus formigueiros são formados por várias câmaras, cada qual com um tipo de finalidade específica. A sociedade das saúvas é composta por várias castas. As saúvas cortam pedaços de folhas que carregam aos seus ninhos a fim de semear e cultivar fungos que constituem seu alimento exclusivo. Aliás, existem apenas duas espécies que plantam e colhem seu alimento: o homem e a formiga cortadeira. Recebem incontáveis nomes regionais em nosso país, além de saúva: formiga cabeçuda, carregadeira, manhuara, maniuara, picadeira, roçadeira, caiapó, lavradeira, etc. As folhas e outras partes de plantas são levadas ao formigueiro para servirem de substrato para o cultivo do fungo mutualista do qual as formigas se alimentam (Leucoagaris gongylophorus, este é o nome mais aceito atualmente). A saúva rainha é conhecida com o nome de içá (ou tanajura) e os machos são os bitus (ou sabitus); em certos dias claros do começo da estação chuvosa, a geração de saúvas criada para serem reis e rainhas, já alados, inicia sua revoada (conhecida como siriris ou aleluias) para a formação dos pares. As rainhas levam em suas bocas, uma bolota do fungo essencial colhida no formigueiro natal, são fecundadas e de volta ao solo busca um ponto apropriado para instalar um novo formigueiro; regurgitam a bolota de fungo e irriga-o com sua matéria fecal. Para nossa sorte, cerca de 100% das içás não chegam a formar sauveiros maduros. Durante o vôo são presas de pardais, andorinhas e sabiás; no sauveiro novo, são atacadas por tatus e outros predadores. Tanajuras fazem parte do cardápio alimentar dos índios brasileiros (fritas em salmouras e misturadas com farofas), de sertanejos e tropeiros. Mas, se você for ao mercado público de São José em Recife/PE, por exemplo, poderá adquirir a peso, içás já secos e prontos para ir à panela.
Justificando seu nome de cortadeiras, as saúvas podem, literalmente, desfolhar uma árvore inteira no espaço de apenas uma noite. As folhas cortadas e forrando o chão ao redor da árvore atacada, são então, durante o dia, picadas e transportadas para o formigueiro por milhares e milhares de carregadeiras incansáveis em filas indianas intermináveis, ladeadas por soldados ameaçadores que, com sua grande cabeça e poderosas mandíbulas em forma de pinças, garantem a segurança das carregadeiras, ao tempo que incentivam as mais morosas a acelerarem o passo. Certa vez, em uma granja avícola que cultivava um eucaliptal (lá, o eucalipto é picado em forma de maravalha, para servir de cama para os frangos e matrizes), observei logo pela manhã, um pé de eucalipto inteiramente nu, com todas suas folhas no solo formando um grande monturo em torno do tronco; ali, intensa atividade das saúvas encarregadas de picar as folhas em tamanhos menores e as carregadeiras indo em direção ao formigueiro levando cada qual um pedaço de folha. Às vezes esse pedaço era tão grande e pesado que eram necessárias duas ou mais formigas para carregá-lo. Voltando do formigueiro pela mesma trilha, outra interminável fila de carregadeiras de mãos abanando (ou seria mandíbulas vazias?). Acompanhei essa trilha operosa até o formigueiro que se situava a cerca de 500 ou 700 m de distância até ver as formigas desaparecerem no solo através de um orifício (o chamado “olho ou olheiro” do sauveiro) situado em um monturo de terra endurecida. Lembrei-me daquelas inesquecíveis imagens da Serra Pelada na década de 60, onde milhares de homens, enlameados até o pescoço, carregavam em fila indiana ungidos por cabrestos invisíveis, sacas de terra dentro de enormes crateras sob os olhos atentos do Major Curió, em busca de ouro.
Mas, voltando ao tema, a questão é como controlar as saúvas. Há décadas o Brasil (e outros países que sofrem do mesmo mal) tenta combater a saúva devido aos danos enormes às lavouras. Um método muito difundido é a aração do sauveiro, com resultados quase sempre medíocres, pois as saúvas refazem seus formigueiros com certa rapidez. Nunca presenciei, mas há outro método simples usado na zona rural: ligar com uma mangueira o cano de descarga de um trator, conectar essa mangueira ao olheiro do formigueiro, regular o motor para mistura rica e preencher a rede de túneis como CO (monóxido de Carbono); supostamente os túneis serão preenchidos pelo gás que é letal e eliminaria todas as formigas ali existentes naquele momento, incluindo a rainha. Outro método é a inundação das panelas subterrâneas com muita água, frequentemente com adição de algum inseticida pó molhável (o objetivo final é o de eliminar a rainha, sem o que não há a menor chance de sucesso). Foi o método que preconizei naquele caso citado acima usando um piretróide pó molhável na concentração de calda de 0,025% (nesse método, é preciso atenção ao biocida a ser empregado, tem que ser PM, para que evitemos contaminar em demasia o solo). Para preencher os subterrâneos de um só cupinzeiro, foram necessários nada menos que 1.300 litros de calda introduzida a partir de um tanque puxado a trator e dotado de bomba de pressão; é preciso calcular também o custo benefício. Eu poderia ter empregado um termonebulizador, mas naquela propriedade não havia nenhum disponível naquele momento. Na zona rural já existe um produto (chamado de “fumacê”) a base de cipermetrina, um fumígeno que, ao que apregoa seu fabricante, produz 100% de eliminação do sauveiro; há notícias que uma versão domissanitária estaria em vias de registro na Anvisa. Hoje, a tendência é o uso de iscas que, atraindo as saúvas passantes, são colhidas e transportadas até o sauveiro; os principais ingredientes ativos dessas iscas são sulfluramida e fluazuron. Ao que parece, não se deve tocar essas iscas diretamente com as mãos, pois as formigas deixariam de colhê-las. E nem colocá-las nas trilhas, mas ao lado delas. Sim, a maioria dessas iscas é constituída de bagaço de laranja.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

FINALMENTE UM ROTEIRO PARA O POP DAS EMPRESAS CONTROLADORAS


Custou, mas conseguimos. Tenho sido bombardeado para escrever um post sobre o tal do POP – Procedimento Operacional Padronizado – um documento formal exigido pela RDC 52, a Portaria que rege as atividades das empresas controladoras de pragas em nosso país (até segunda ordem). Fui pesquisar esse tema e achei que deveria solicitar o auxílio de uma especialista, a bióloga Lucy Ramos Figueiredo, Diretora Técnica da ABCVP, que tem larga experiência no assunto. Depois de muito insistir, ela conseguiu encaixar entre seus 4.812,5 afazeres, um tempo para escrever um post exclusivo para o Higiene Atual, pelo que agradecemos em nome de nossos leitores e deste Editor. Aí vai, portanto, um ótimo post sobre o POP.

DIZEM QUE O PAPA É pop ... MAS O QUE É UM POP???
O papa é pop. Assim dizia uma letra de música, referindo-se a um papa popular. Daí, ouvimos algumas pessoas perguntando o que é um POP. Outro assunto! POP, pop, muita confusão, muita informação... Então, vamos esclarecer?
POP é uma abreviação para Procedimento Operacional Padronizado.
PROCEDIMENTO- modo de fazer, técnica
OPERACIONAL- que contribui para a obtenção de um resultado pretendido, método
PADRONIZADO- resultado com tendência à uniformização

O POP é um documento exigido pela RDC 52, por meio do qual as empresas de controle de pragas sinantrópicas devem apresentar os procedimentos realizados para realização dos serviços prestados. É necessário lembrar que o serviço não envolve tão somente a parte executiva. Assim, temos um vasto conjunto de POP’s que compõem um Manual de Boas Práticas, o qual descreve os diferentes procedimentos adotados pela empresa e que se relacionam, direta ou indiretamente, com a execução propriamente dita. Os POP’s englobam “o modo de fazer” para vários temas: controle por praga, controle por técnica de aplicação, gerenciamento de risco, uso de armadilha para monitoramento por praga, segurança de trabalho, perfil das instalações, guarda e descarte de embalagens vazias, transporte de produtos químicos e por aí em diante, ou seja, todo e qualquer procedimento executado por uma empresa prestadora de serviços de controle de pragas deve ser documentado em forma de uma instrução técnica, detalhada passo a passo, visando dar suporte a todo e qualquer executor da tarefa a seguir “o mesmo caminho”. O POP deve ser claro, objetivo, assertivo, ter instruções sequenciais, sem deixar de conter a instrução completa. A grosso modo, o POP é uma receita de bolo a ser adotada para que não haja desvio significativo nos procedimentos, evitando não conformidades. O POP, como ferramenta de segurança, deve garantir a não ocorrência de variações indesejáveis no resultado final, podendo gerar riscos. Tendo como comparativo a referida receita de bolo, esta tem como objetivo dar a base de procedimento para que um bolo tenha sempre o mesmo resultado, seja elaborado por A, B ou C. Assim como na feitura do bolo, ocorrerão desvios aceitáveis por conta de uma eficiência maior ou menor (por conta de um forno, no caso do bolo) ou por conta de um equipamento mais novo ou mais antigo, no caso de uma pulverização. Ainda que estes desvios devam ser minimizados por medidas mitigadoras, podem efetivamente ocorrer, mas dentro de níveis toleráveis. Assim, um POP tem como meta a padronização de cada procedimento, sendo um material de conteúdo a ser utilizado para o treinamento de equipes técnico-operacionais ou gerenciais.
A elaboração de um POP, em forma de uma instrução de consulta e treinamento, é de responsabilidade dos RTs - Responsáveis Técnicos. A confecção de POP’s é trabalhosa e o RT precisa disponibilizar uma carga horária diária específica para a produção e finalização da tarefa. Um POP deve ser atualizado, minimamente, a cada ano, mas o ideal seria atualizar sempre que um procedimento for alterado, incluído ou excluído, por força da evolução dos conhecimentos. O POP representa o backup escrito das ações da empresa. É um processo dinâmico, que exige o envolvimento e o conhecimento da empresa por quem o elabora. Reforçando, o RT é a pessoa legalmente responsável pela feitura, atualização, verificação e monitoramento aplicação dos POP’s. Em caso de contratação de um consultor externo para confecção de POP’s, este deve estar informado sobre os procedimentos da empresa, acompanhando execuções, visitando instalações, enfim, conhecendo a rotina detalhada para ser fiel aos procedimentos adotados pela mesma ( “passeio ambiental”, segundo Lucia Isabel Araújo ). O POP, como ferramenta de treinamento, é um documento-guia que tem como alvo a passagem de informação, a rigor, da mesma informação para toda a equipe. Um POP não pode ser copiado, como alguns supõem, pois são criados mediante uma realidade executiva de cada prestadora de serviço de controle de pragas sinantrópicas. Os processos de certificação e auditorias têm como exigência a apresentação destes documentos, associando o que está escrito com a prática. O POP, como ferramenta de rastreabilidade, deve ser checado pela fiscalização para ver se o que está no papel é o que realmente ocorre na empresa.
Segundo as RDC 275 e a RDC 216:
Os POP’s referentes ao Manejo Integrado de Pragas devem contemplar as medidas preventivas e corretivas destinadas a impedir a atração, o abrigo, o acesso e a proliferação de vetores e pragas urbanas. No caso de adoção de controle químico, o estabelecimento deve apresentar Comprovante de Execução de Serviço fornecido pela empresa especializada contratada, contendo as informações estabelecidas em legislação sanitária/ambiental específica.
Então? Esperamos ter contribuído e ter tornado o tema POP um pouco mais pop, quer dizer, um pouco mais popular e acessível a todos aqueles que desejam, acertadamente, elaborar estes documentos de grande valia para as empresas.
Faça seu POP como uma receita muito especial, que será suporte e referência para os funcionários de sua empresa. Cada empresa tem sua política, suas técnicas e seus procedimentos. Retrate estas características de forma simples e fiel. Padronização significa QUALIDADE, mas com atendimento aos desejos dos clientes. A racionalização de tarefas aumenta a eficiência operacional, ou seja, tem um potencial de impacto nos lucros. Anexar FISPQ, Fichas de emergência, Fichas técnicas, Manuais de equipamentos e outros que auxiliem na operação e gestão agrega valor aos POP’s. Referências bibliográficas são parte integrante dos POP’s.
Escrever POP é buscar a qualidade através da capacitação. E qualidade não é um estado, é um processo.
Autora: Lucy Ramos Figueiredo

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

26 DE SETEMBRO: DIA DO PROFISSIONAL CONTROLADOR DE PRAGAS


Pela segunda vez neste blog, comemoro o dia do profissional controlador de pragas. Fiz um belo almoço comemorativo (mini paella valenciana) e abri uma garrafa de meu vinho italiano preferido atualmente (Malvazia Nera, safra 2008). Enquanto isso, outra vez rememorei passagens interessantes de minha vida profissional, incluindo um hilário encontro de um de meus operadores (sim, eu tive uma empresa controladora há tempos atrás) com um solerte esqueleto armado em pé, aguardando uma palestra médica que iria acontecer na manhã seguinte. Era um congresso médico em um dos hotéis atendidos por minha empresa e, tarde da noite, meus três operadores que estavam executando o tratamento, decidiram se dividir para cobrir todas as áreas. Um para cada andar e coube ao Geraldinho (aquele mineirinho que era especialista em inventar novos vocábulos da língua portuguesa, tais como "desimpossível") tratar as salas de conferências todas já preparadas e prontas para receber os palestrantes. Em uma sala, sobre a mesa, uma réplica de um coração em ponto grande; Geraldinho entrou na sala, olhou a peça e me chamou perguntando o que era aquilo. Expliquei, ele ficou admirado e comentou que ao ver a peça, pensou que deveria ser o coração de uma avestruz, pois notara a semelhança com coração de galinha que ele saboreava nos churrascos da vida. Achei inteligente e decidi acompanhá-lo nas demais salas, pois certamente haveria outras surpresas e situações, era só uma questão de tempo. Contando com isso, chamei os outros dois operadores e formamos um grupo de espectadores acompanhantes, enquanto Geraldinho seguia em frente abrindo e entrando em novas salas. Na sala seguinte, sobre a mesa, uma grande réplica plástica de um olho humano com todas as estruturas expostas. Geraldinho ficou espantado e, enquanto trabalhava, não tirou o olho do olho, especialmente depois que um dos colegas disse brincando que esse olho movia-se acompanhando o movimento da pessoa que passasse em frente (um efeito ilusório que frequentemente parece existir em quadros pintados, quando o pintor coloca os olhos mirando bem em frente). Pelo sim e pelo não, Geraldinho terminou rapidinho o tratamento daquela sala e saiu pressuroso. Sala seguinte, Geraldinho, deixado por nós propositalmente à frente do grupo, abriu a porta e acendeu a luz. Bem à sua frente, coisa de um ou dois metros, surge um esqueleto humano (de plástico) preso a um suporte e em posição ereta, com o crânio coincidentemente voltado para a porta. O susto que Geraldinho tomou foi tamanho, que o pulverizador que ele levava ao lado do corpo escorregou e caiu, enquanto ele literalmente pulava para uma distância que ele julgou segura, sob nossas gargalhadas. Pálido, ele nunca havia visto um esqueleto ao vivo e a cores, olhos esbugalhados, murmurava alguma coisa que nunca saberemos o que era. E quem disse que algum de nós conseguiu fazer com que ele retomasse o trabalho naquela sala? Nervoso, dizia que ali ele não entraria mais, pois ele não conseguia sequer imaginar o que iria ter na sala seguinte! Cena muito engraçada! Parabéns, Geraldinho e colegas, pelo seu dia de hoje, estejam onde estiverem!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A RATAZANA É FIEL À SUA VIZINHANÇA (Rattus norvegicus)


Um estudo publicado na revista Molecular Ecology e citado pelo Science Daily de 27/5/2009, nos conta que, embora as ratazanas (Rattus norvegicus) pareçam que andam sem destino pelas ruas, esgotos e terrenos baldios, na verdade elas são fiéis às suas vizinhanças onde passam a maior parte de suas vidas. Esse estudo foi feito na cidade de Baltimore compreendendo 11 áreas residenciais de onde foram capturadas 300 ratazanas as quais foram estudadas geneticamente para observar possíveis graus de parentesco entre elas. Vale dizer que a cidade de Baltimore nos últimos 50 anos tem conduzido caros programas de controle da população murina, mas o número de ratos aparentemente continua o mesmo, sem grandes mudanças. Os pesquisadores da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg capturaram os espécimes para o estudo, nos dois lados do largo rio (Jones Falls) que corta a cidade em dois e em cada lado separaram duas comunidades de ratos de 11 quarteirões infestados cada; cada uma dessas áreas Cada comunidade foi então dividida em territórios equivalente a uma rua de área. Em cada território os ratos residentes foram examinados quanto a seu código genético para estudar possíveis parentescos. Os pesquisadores descobriram que essas ratazanas tipicamente permaneciam sempre próximas a seus territórios, raramente se aventurando fora de seu quarteirão, embora observassem que em caso de necessidade, algumas delas podiam percorrer quatro ou cinco quilômetros de distância para repovoar áreas abandonadas. Os estudos sugeriram que ratazanas embora raramente emigrem, os esforços de combate podem fracassar devido a essa tendência a repovoar áreas vazias, razão pela qual os pesquisadores recomendam maior abrangência geográfica das campanhas de controle dos roedores.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

ÓRA ESSA! BARATAS PREFEREM DOBRAR À DIREITA!


Tem cada coisa sendo descoberta todos os dias! Um grupo de pesquisadores (todos muito sérios) da Universidade do Texas decidiu estudar a lateralização do cérebro de... baratas de esgoto (Periplaneta americana). Queriam saber se as baratas têm predominância de lado em seus cérebros, como os humanos. A lateralização é bastante estudada em vertebrados, mas poucos estudos existem em insetos. Os pesquisadores decidiram estudar o comportamento das baratas americanas em seu processo de decidir para que lado ir quando lhes é dada a opção de escolha. As baratas eram colocadas em um tubo de vidro em forma de Y e tinham que decidir para que lado ir, esquerda ou direita. Nas extremidades do tubo era colocado baunilha e etanol ao acaso, para atrair as baratas e as posições dessas substâncias eram constantemente trocadas de posição. Em seguida, uma das antenas das baratas (de forma alternada) era parcialmente amputada para verificar se isso influiria na decisão de caminhar para a esquerda ou para a direita (como sabemos, as antenas das baratas são responsáveis pelos sentidos do olfato e do tato). Uma simples análise estatística do ensaio mostrou que o etanol e a baunilha não interferiram significativamente na escolha de para qual lado a barata caminharia. O dano a uma das antenas de fato influiu na decisão da barata, mas quando ambas as antenas eram parcial e igualmente amputadas, houve uma clara tendência de optar por dobrar à direita. A conclusão que os pesquisadores chegaram é que a barata P. americana têm uma dominância à direita quando se trata de olfato e tato.
E o que é que isso nos ajuda, aos controladores de pragas. Sei lá, mas fico imaginando que se dispusermos iscas ou armadilhas colantes sempre no lado direito das quinas, quem sabe não aumenta nossa margem de sucesso em combater baratas de esgoto?

(post baseado e adaptado da revista Journal of Insect Behavior – Vol 24, Número 3, 175-185)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

SOBRE OS PIOLHOS DE GALINHAS (Dermanyssus gallinae)


Recebo de um amigo e leitor, uma consulta sobre o piolho de galinhas (Dermanyssus gallinae) em ambiente urbano. Relata que deparou com um caso de alta infestação em galinhas criadas no quintal de uma residência e que estariam já invadindo até a casa do proprietário, criando uma situação bem séria. Então, vamos aproveitar a oportunidade para darmos um passeio (como sempre faço) sobre esse tema.
Piolho de galinhas, ácaro das galinhas, ácaro vermelho, piolhinho, bicho de galinha, carrapato de galinha e outros nomes populares e regionais deste país continente. Na avicultura industrial, torna-se uma temível praga que afeta fortemente a aves de postura, principalmente, porque espoliam a ave, sugam-lhe o sangue podendo levar à anemia, causam enorme stress com conseqüente queda na produção de ovos. De fato, no sistema de criação em gaiolas, a galinha poedeira mal consegue virar-se para poder remover com o bico os ácaros que se alojam em sua cloaca; há granjas que usam o sistema de colocar até duas poedeiras por gaiola, prática que impossibilita qualquer movimento que a ave possa executar para remover os ácaros de sua cloaca. Eu, particularmente, embora entenda a busca pela produtividade, abomino essa prática. Mas voltemos ao tema.
Duas espécies de ácaros se confundem sob o nome de ácaro vermelho das galinhas: o Demanyssus gallinae (prevalente) e o Ornythonissus bursa (menos frequente). Como ambos têm ciclos biológicos e ações daninhas muito parecidos, vamos nos ater ao mais comum que é o D.gallinae. O ácaro vermelho (assim chamado porque ao se alimentar fica ingurgitado com o sangue da pobre galinha) é um ectoparasita de galinhas e de outras aves (pombos, pardais, etc). Costumam passar o dia escondido em fendas e gretas das instalações onde as aves estão alojadas (onde cruzam e põem seus ovos) e à noite, buscam-nas para se alimentar. Em condições ideais, seu ciclo biológico pode se completar em apenas sete dias (adulto, ovo, larva, ninfas e adulto novamente). Embora precisem de uma ave para completar seu ciclo, os ácaros vermelhos podem infestar mamíferos incluindo os humanos, causando dermatites e lesões de pele. Além da espoliação, os ácaros vermelhos podem transmitir doenças às aves como a salmonelose e a espiroquetose aviária. O dermanissus pode sobreviver em um galpão vazio de aves, por até 10 meses.
O combate aos ácaros vermelhos passa pelo tratamento das aves, mas principalmente pela desinfestação das instalações. Claro que ideal seria tratar as instalações quando estivessem vazias, sem a presença das aves. Na avicultura industrial esse período se chama “vazio”, mas em uma criação doméstica, as galinhas estão sempre presentes, de forma que ao planejarmos o combate, temos que tratar as aves e as instalações ao mesmo tempo. Antes de tudo, é preciso ter em mente que as infestações por ácaros vermelhos são muito persistentes e um tratamento isolado dificilmente resolverá o problemas, tendo que ser repetido algumas vezes com intervalos relativamente curtos (máximo de um mês); todavia, não deve ser muito curto (mínimo de uma semana), pois as aves podem se intoxicar.
Se não estivermos lidando com cepas já resistentes a certos acaricidas, até que o tratamento é relativamente simples, uma vez que os ácaros são sensíveis à maioria dos biocidas. Bons piretróides, carbamatos (como o propoxur) e até organofosforados rápidos (como o DDVP), em dosagens leves, podem ser utilizados quando pulverizados ou polvilhados brevemente nas aves. Quando o número de galinhas é relativamente pequeno, pode-se executar o tratamento uma a uma, colocando o acaricida diretamente na cloaca por gotejamento ou polvilhamento (se o produto for um pó seco). Mas, como os ácaros concentram-se nas instalações e não nas aves, é ali que devemos priorizar a aplicação dos acaricidas. Frestas, reentrâncias, gretas, desvãos, além das próprias gaiolas (ou galinheiros) devem ser pulverizadas (ou polvilhadas) rigorosamente, incluindo as estruturas mais próximas que possam estar servindo de esconderijo diurno aos ácaros. Experimentei com muito sucesso um produto microencapsulado, certa vez, que sequer influiu na postura do plantel. Não esqueçamos que ninhos de aves silvestres nas proximidades do galinheiro, pinteiro ou galpão, devem ser removidos e evitados.