segunda-feira, 16 de abril de 2012

O “CAUSO” DO INSETICIDA AMARELO


É muita matéria técnica! Deixe-me aliviar um pouco e lhes contar mais um “causo” que me aconteceu durante minha vida profissional. Um dia, fui contratado por uma grande indústria produtora de biocidas de uso profissional, com a missão de recuperar sua fatia do mercado perdida devido à ação nefasta de uma empresa de auditoria que, anos antes, havia recomendado a descontinuidade dessa linha de produtos. Aos poucos fui me enfronhando no assunto e revisando produto a produto da linha antiga, enquanto estudava o “pipe line” da empresa para futuros lançamentos. Entre os produtos que julguei que deveriam ser recuperados, figurava um inseticida organofosforado de meia vida muito curta, mas de efeito fulminante formidável. Até aí, tudo bem. Preparamos o relançamento e o mercado o recebeu otimamente. Passado um pouco de tempo, comecei a registrar algumas queixas de clientes que observavam que havia variação da coloração amarela do produto, de lote para lote. Achavam que o inseticida ficava “mais fraco” quando a coloração amarelada esmaecia. O Departamento de Produção garantia que não e que o teor era exatamente 100% m/v independentemente da coloração do lote. Essa variação de cor se devia a condições inerentes da própria produção.
Mas, eu tinha um problema nas mãos e os clientes deveriam receber um pouco mais que uma simples explicação negativa. Pedi à Produção que procurasse resolver a questão tendo em vista a reação do mercado. Pouco depois eles vieram com a solução: juntaram um corante ao produto, de tal sorte que todos os lotes produzidos doravante iriam ter sempre a mesma cor final. Excelente solução, pensei. Não mais teria reclamações. E assim, o tal inseticida passou a ser produzido com a mesmo tom de amarelo.
Nem bem colocamos o novo produto no mercado, estourou a bomba. Uma empresa controladora de pragas usou o inseticida no apartamento de uma cliente classe A todo acarpetado em branco (na época usava-se muito isso). Na verdade a dona tinha fixação pelo branco e o apartamento inteiro era dessa cor; móveis, paredes, forrações, armários de fórmica, pisos frios, tetos, tudo impecavelmente branco. Até o gato da madame era branco (angorá, se estou lembrado). Era uma brancura só! A empresa controladora executou seu trabalho contra pulgas principalmente, mas também contra insetos rasteiros em geral. Dia seguinte, foi uma gritaria geral. O apartamento da Sra. White estava, literalmente, amarelo! O carpete imaculadamente branco parecia que havia sido trocado por outro, imaculadamente amarelo. As paredes estavam amarelas, os móveis de fórmica, amarelos e assim por diante. Vários tons de amarelo conforme o tipo de material onde a calda havia sido aplicada, mas tudo amarelo. A madame estava em crise histérica quando cheguei para constatar o problema, devidamente acompanhado pelos proprietários apavorados da desinsetizadora e pelo Gerente de Produção de minha empresa. Mil explicações técnicas surgiram e nada de amenizar a crise da infeliz e raivosa dona do apartamento. Houve um momento em que parecia que a crise da mulher estava passando e ela já não estava tão nervosa, mas daí... surgiu o famigerado gato angorá branco em cena. Com a barriga toda amarela. Daí não teve jeito.
Concluindo: através do seguro da empresa produtora, a Sra. White voltou a ter um apartamento imaculadamente branco, pois tudo, completamente tudo foi devidamente reposto. O seguro cobriu até um banho antiamarelo do gato. E o lote amarelo do inseticida que já estava no mercado foi discretamente recolhido e trocado por um lote sem corante. Recall completo!
Que sufoco! Coisas e “causos” da vida.

quinta-feira, 29 de março de 2012

ESTRATÉGIAS PARA IMPLANTAR UM BOM PROGRAMA DE CONTROLE DE MOSCAS Parte III


Estávamos examinando um programa de controle de moscas urbanas que seja eficiente e eficaz. Vimos vários aspectos de um MIP (Manejo Integrado de Pragas) voltado para moscas e chegamos a iniciar as considerações sobre a eliminação física das moscas já infestantes, começando por sugestões (importantes) do que fazer externamente às instalações a serem protegidas. Precisamos agora examinar o que pode ser feito para eliminá-las dentro das instalações.
Como dissemos, apesar de todas as medidas que podem (e devem) ser tomadas do lado de fora contra as moscas, algumas podem adentrar nas instalações onde desejamos que não estejam. Será preciso, então, combatê-las e eliminá-las ali mesmo. Posso começar pela instalação de armadilhas antimoscas luminosas. Algumas considerações:
• Disponha quantas armadilhas você desejar, não há limites. Quanto maior for o número dessas armadilhas, maior será nossa chance de capturar as moscas invasoras.
• Coloque-as de preferência um pouco acima da cabeça das pessoas para evitar a desagradável visão de muitas moscas capturadas na armadilha e também porque as moscas, principalmente as domésticas, voam em uma altura de cruzeiro da cabeça de uma pessoa (em pé, estenda um braço esticado para o alto; essa será a altura média de voo da mosca comum e de muitas outras moscas urbanas).
• Evite fazer uso das armadilhas “fritadoras” de moscas, aquelas que têm uma luz para atração e uma grade eletrificada onde as moscas são eletrocutadas instantaneamente se a tocam. Ao fazê-lo, a carapaça quitinosa do inseto explodirá e dezenas de pedaços da moscas podem se espalhar ao redor da armadilha, com efeitos indesejáveis. Opte pela armadilha dotada de luz atrativa (ultravioleta ou “luz negra”) e papel colante, o qual deverá ser trocado com bastante frequência.
O que mais posso fazer? Claro, nem vamos comentar aqui sobre as questões da limpeza e higiene do ambiente, pois desnecessário seria. Mas, posso fazer combate químico? Resposta correta: depende! Há locais onde posso aplicar mosquicidas nas paredes, sem problemas. Mas, há outros onde o emprego de inseticidas pode ser conflitante com as regras de manejo do ambiente (proteção ambiental) e os fins a que se destina o ambiente a ser protegido contra moscas. Por exemplo: na área de produção de uma indústria alimentícia, não será possível pulverizarmos mosquicidas nas paredes e maquinários. Pois bem, aí entra o que a gente comenta sempre que pode: o conhecimento humano sobre a biologia da praga a ser combatida e como podemos tirar proveito desse conhecimento. No caso das moscas domésticas, sabemos que a mosca ao adentrar a um novo ambiente, voa em círculos para ambientar-se e localizar o alimento que a atraiu. Isso feito, localisa o alimento ou opta por algum dentre várias opções possíveis e vai se alimentar. Depois, de estômago já cheio, a mosca busca uma saída para o ambiente externo onde vai pousar para digerir o alimento ingerido. Óra, seu instinto a dirige à luz natural de alguma janela. Mosca não entende vidro, ou seja, ela voa para uma janela onde supostamente seria o caminho mais curto para sair do ambiente fechado onde se alimentou. Porém, o vidro da janela se interpõe e ela não consegue entender por que não está conseguindo ultrapassar aquele ponto. Fica então se debatendo contra o vidro, na vã tentativa de sair. Debate-se, cansa e pousa por alguns momentos no beiral da janela; volta a se debater, e repousa, sucessivamente. Excelente local para aplicarmos nossa isca mosquicida! Alguns grânulos em sucessivos e diferentes pontos desse beiral de janela e teremos enormes chances que a mosca perceba a isca e a ingira em seguida, indo a óbito. Como eu já havia comentado, já temos em nosso país iscas mosquicidas à base de azametifós, de imidacloprid e de thiametoxan excelentes!
Eu faria assim. Aliás, já fiz e nunca tive um só programa fracassado!
Há também os papéis pegamoscas que podem nos ajudar bastante a controlar moscas em um ambiente fechado.
Boa sorte amigo!

terça-feira, 20 de março de 2012

ESTRATÉGIAS PARA IMPLANTAR UM BOM PROGRAMA DE CONTROLE DE MOSCAS - Parte II


No post anterior falamos dos princípios que devem nortear um programa eficaz de controle de moscas em uma dada instalação urbana. O combate a moscas é um ótimo exemplo do MIP – Manejo Integrado de Pragas, pois passa por ações curativas (corrigir tudo o que esteja facilitando a existência de moscas em um ambiente), ações preventivas (instalar barreiras e/ou modificar estruturas que estejam facilitando a entrada de moscas) e ações de eliminação (o combate direto propriamente dito). Falta comentarmos algo sobre como eliminar as moscas já infestantes. Vamos lá.
Externamente: para eliminarmos moscas infestantes, temos que começar pelo lado de fora da instalação a qual queremos proteger. Temos duas situações possíveis: uma, onde o criadouro das moscas alvos situa-se dentro do perímetro da propriedade e outra quando as moscas estão sendo geradas em propriedades alheias circunvizinhas. No primeiro caso, basta que localizemos o criadouro e o eliminemos. Lembram-se de nosso comentário que as moscas proliferam em matéria orgânica em decomposição? No caso de moscas domésticas (Musca domestica) nos centros urbanos, existe uma marcada preferência por lixo onde restos orgânicos vão garantir sua procriação (uma profusão de alimentos e outra de substrato para ovipor). Só quem já visitou um depósito de lixo urbano a céu aberto pode avaliar a íntima relação das moscas domésticas e o lixo. São, literalmente, milhões e milhões de moscas adultas voando em todas as direções para se alimentar, para acasalar e para pôr seus ovos; são trilhões de larvas em diferentes fases de desenvolvimento até puparem. A maioria das adultas permanece nas cercanias, pois não há razão que as tirem desse lugar tão confortável (na verdade, a maioria das moscas domésticas adultas passa a vida dentro de um raio de 500m em torno de seu criadouro). Nos meus trabalhos onde frequentava tais lixões, cansei de ver os caminhões de coleta pública de lixo, despejando sua carga e voltando para a cidade... levando consigo algumas centenas de moscas nele pousadas, pegando uma carona. Mas, não é só nesses lixões que as moscas proliferam. Dentro do perímetro das propriedades, erros no manejo do lixo orgânico produzido podem criar as condições ideais para que as moscas domésticas procriem. Um exemplo: hotéis são obrigados por regras de higiene e boas práticas (fiscalizados pela Vigilância Sanitária), a coletar seu lixo em pontos situados fora das instalações principais, chamados de “botafora”, onde o lixo deve ser separado em matéria orgânica e materiais não orgânicos; a primeira deve ser acumulada em câmara fria especialmente construída para esse fim e mantidas com porta fechada, exatamente para evitar a proliferação de moscas (e outras razões higiênicas). Na prática, nem sempre isso acontece. Sistema de resfriamento dessa câmara desligado (por “economia”, acreditem se quiserem), porta quase sempre aberta (frequentemente porque a maçaneta quebrou e ninguém se preocupou em consertar), por inépcia, falta de supervisão, preguiça de funcionários ou falta de treinamento adequado. O fato é que um manejo ruim do lixo orgânico acaba propiciando as melhores condições para que as moscas domésticas se aproveitem e façam desses botaforas um excelente criadouro. Estive certa vez em um hotel quatro ou cinco estrelas, não me lembro, para estudar um sério problema de moscas em suas instalações e, dentre vários erros de manejo do lixo que encontrei, pude observar larvas de moscas (creio que eram de segundo ou terceiro estádio) dentro dos containers plásticos onde o lixo diário era depositado aguardando remoção para o botafora. Surpreso, indagando sobre o manejo, fui informado que o container era lavado uma vez por semana... mais ou menos! O exemplo do hotel é apenas um; nas indústrias, nos supermercados e congêneres, mesmo nos estabelecimentos de preparo e consumo de alimentos, podemos encontrar criadouros de moscas. Seja como for, encontrou criadouro (há que procurar, amigo), elimine-o ou você vai morrer seco com formiga na boca e não vai controlar as moscas desse cliente. Mas, há o caso onde as moscas infestantes vem de algum criadouro não situado dentro do perímetro da propriedade. Quer dizer, não temos as formas jovens presentes (ovos, larvas e pupas), mas temos as moscas adultas infestando a área.
Moscas são insetos voadores pesados para suas asas e não executam voos demasiadamente longos, a menos que encontrem um vento favorável. Precisam pousar aqui ou ali para descansar e assim, através de voos curtos, vão se encaminhando a pontos que lhes interessem, geralmente de alimentação. Se pousam, temos uma ótima chance de eliminar as moscas antes que adentrem às instalações. O avanço da tecnologia em mosquicidas foi bem grande na última década e meia e, hoje, dispomos de produtos capazes de atrair e eliminar as moscas domésticas até com relativa facilidade, bastando saber como usar tais produtos corretamente. Entre os organofosforados, o azametifós, um OP de última geração, mostrou-se de grande utilidade e eficácia quando formulado como isca e adicionado a um feromônio sintético, o Z-9 tricozene, de atração sexual. Em nosso país já há algumas marcas desse tipo de mosquicida e quase todas mostram excelentes resultados. Basta dispor os grânulos espalhando-os no solo e nos pontos onde as moscas frequentam e o resultado se dá em alguns minutos. Alguns desses produtos têm seus grânulos coloridos em amarelo ou em amarelo e vermelho, cores muito atrativas visualmente para as moscas, aumentando seu poder de atração.
E chegamos aos poderosos “painéis papamoscas”. Para criá-los, partimos do princípio, estudado e conhecido, de que essas cores citadas, amarelo e vermelho, são visualizadas à distância pelas moscas domésticas. Na Natureza, essas são as cores que observamos nas feridas dos animais: o vermelho do sangue e músculo eventualmente exposto, e o amarelo da linfa exsudada; não há mosca que resista a tais encantos! Pois bem, tirando proveito desse conhecimento, que tal se pintássemos uma placa qualquer, uma superfície de qualquer dimensão, usando o amarelo e o vermelho separadamente, mas juntos(vide foto acima)? Será que atrairíamos moscas domésticas? A resposta foi afirmativa e assim criamos os tais painéis papamoscas. Estudos anteriores demonstraram que se alternássemos faixas amarelas e faixas vermelhas sucessivamente, as moscas visualizariam o painel a grandes distâncias e seriam atraídas. Seriam mais atraídas ainda se essas faixas fossem pintadas no sentido diagonal do painel (por razões ainda não esclarecidas). Atraímos as moscas e daí ? Entram em cena os seguros mosquicidas neonicotinóides (imidacloprid e thiametoxan) já encontrados em nosso país, um avanço no combate às moscas e a muitos outros insetos. Daí eu aplico com pincel (eu prefiro usar um daqueles rolinhos de pintura) ou pulverizado, uma calda feita com um desses ingredientes ativos na superfície pintada do painel e o exponho na vertical. Vai funcionar como ponto de forte atração para as moscas que adentrarem ao perímetro da propriedade e elas serão eliminadas antes que adentrem às instalações. Uma mosca morta de lado de fora, é uma mosca a menos do lado de dentro! Renove a aplicação do produto no painel de 15 a 30 dias após, dependendo da ocorrência de chuvas.
Sim, mas muitas moscas poderão ainda adentrar às instalações. Serão muito menos dos que as que chegaram ao perímetro da propriedade, mas podem entrar, posto que voam! E daí?
Daí, vamos examinar o que fazer em próximo post, tá?

terça-feira, 13 de março de 2012

ESTRATÉGIAS PARA IMPLANTAR UM BOM PROGRAMA DE CONTROLE DE MOSCAS


Há não menos de 110.000 espécies diferentes de moscas em todo o mundo, já estudadas e catalogadas. As moscas representam, com sobras, o gênero de insetos mais bem sucedido na Natureza. A maioria dessas espécies não é urbana (felizmente), mas algumas delas encontraram seu melhor nicho junto ao homem e há até as espécies que repartem conosco nosso habitat há milhões de anos. Incomodam, transmitem doenças, causam asco e em nenhum lugar são bem recebidas. Contudo, se olharmos melhor, as moscas desempenham papéis vitais na Natureza pois executam certas funções importantes. Antes de tudo, representam uma fonte de alimento para uma enorme variedade de animais e até de certas plantas (as carnívoras, por exemplo). Muitas espécies se criam nas fezes de animais, ajudando a reciclar nutrientes de volta ao solo. Outras são decompositoras de carcassas de animais. Infelizmente, certas espécies adaptaram-se muito bem a viver nas instalações humanas e suas redondezas e daí geram os conflitos entre elas e nós. A essas espécies denominamos pragas e exatamente aí é que entra no cenário, a galante figura do profissional controlador de pragas, o “salvador da pátria” quando a coisa fica realmente feia. Lembro-me de uma oportunidade quando fomos chamados a intervir em uma certa cidade do interior de Alagoas onde o problema das moscas (Musca domestica) era tamanho que estava inviabilizando o viver naquela cidade. O Promotor de Justiça local havia dado o prazo máximo de 45 dias para a Prefeitura resolver o problema, sem o que a Promotoria mandaria fechar bares, restaurantes, lanchonetes e outros estabelecimentos de alimentos, em nome da saúde pública. Um enorme programa de combate às moscas foi então iniciado envolvendo todas as forças da comunidade e o problema foi minimizado em pouco tempo.
Não tenho conhecimento se existe alguma cidade, vila ou mesmo uma aglomeração humana que não tenha a omnipresente mosca doméstica incomodando as pessoas e animais domésticos. Sem falar nas outras espécies comuns como as varejeiras de brilhos metálicos, as mutucas que picam doído, as pegajosas moscas dos estábulos, as incômodas moscas dos esgotos, as pequeninas moscas das frutas e outras menos votadas. Daí a importância de identificarmos qual, ou quais, as espécies infestantes de um dado local. Sabendo quem é a nossa mosca alvo, fica bem mais fácil determinarmos quando, onde e como combatê-la.
Falando em combate às moscas, pode parecer anacrônico, obsoleto e ultrapassado o conhecido método de pulverizar com algum inseticida as paredes de uma instalação infestada por moscas, como única forma de combater moscas. Pode parecer, não... é! Um programa consistente, estruturado, moderno e eficaz de controle das moscas domésticas é bem mais que isso!
O manejo das moscas dentro e nas cercanias de uma dada instalação pode parecer, às vezes, uma questão difícil de resolver para determinados profissionais controladores de pragas. Na verdade, a estes, falta a informação, o conhecimento pleno e mais profundo do assunto, conhecimento esse total e completamente disponível em livros técnicos ou de inumeráveis sites da Internet. Sem desculpas, portanto. Uma situação de pesada infestação de moscas deveria ser vista pelo profissional como um interessante desafio a ser vencido, pois os conhecimentos técnicos sobre o assunto já são muitíssimo avançados.
Embora cada caso seja um caso, há alguns pontos comuns a todas as infestações e que, se contemplados, vão conduzir a níveis de controle com certeza. Limpeza, higiene, remoção de criadouros e exclusão, são alguns desses pontos. Vamos examinar, ainda que superficialmente, alguns aspectos capitais de um programa de controle de moscas em um dado local:
• Identificação da espécie infestante: é necessário e vital. Moscas domésticas criam-se em determinados criadouros, enquanto outra espécie, como por exemplo, a mosca dos estábulos, cria-se em outro. Cada espécie tem sua biologia própria e se identificarmos a mosca problema, aumentaremos em muito nossa chance de combatê-la com pleno sucesso.
• Limpeza e higiene: é a chave para avançar o programa de controle. Áreas e dependências limpas, não sustentam moscas que vão procurar outra freguesia mais sujinha para frequentar. Moscas se criam em matéria orgânica em decomposição; portanto, um bom esquema de limpeza regular evita acúmulos de detritos capazes de manter o ciclo vital das moscas. As moscas têm o metabolismo muito acelerado e, portanto, necessitam de muito alimento que lhes propicie energia. Lugar limpo não tem alimento para as moscas. Pense nisso.
• Exclusão: mesmo que as redondezas da instalação onde não queremos moscas estejam com boa limpeza, moscas voam e assim podem penetrar nessas instalações se encontrarem vias de acesso fáceis. Portas e janelas abertas, telas de nylon rompidas ou fendas arquitetônicas são um convite permanente à entrada de moscas em busca de alimentos. Portas e janelas devem ter telas de nylon instaladas (e sempre em boas condições), caso tenham que ficar abertas. Se não, a instalação de molas que as mantenham fechadas vai ser a solução. Simples e barato. Em determinadas edificações, a instalação de cortinas de vento pode evitar a penetração das moscas, quando adequadamente instaladas e mantidas. A iluminação interna de uma determinada instalação pode, sob certas circunstâncias, atrair moscas, ainda que sejam elas insetos diurnos. As lâmpadas internas não deveriam poder ser vistas do lado de fora da instalação.
• Eliminação de criadouros: muitas vezes o criadouro das moscas infestantes está situado dentro do perímetro da propriedade a ser protegida. É preciso inspecionar toda a área em busca de possíveis criadouros (lembrem-se: matéria orgânica em decomposição; ex: lixo) e eliminá-los sob risco de jamais atingir-se níveis de controle desejados.
E o combate propriamente dito? Bem, isso já é outro assunto que fica para um próximo post, mesmo porque este aqui já está ficando longo demais. Não perca.

segunda-feira, 5 de março de 2012

COMO AGEM OS RATICIDAS?


Nosso leitor Jeymisson, na coluna de Perguntas&Respostas aí da esquerda, recentemente postou essa pergunta e como naquele espaço não seria possível explicar tudo como tem que ser, resolvi postar a resposta na forma de um tema. Aqui vai.
Rodenticidas são os biocidas específicos que causam a morte dos roedores. Em nosso país, nos referimos a eles como raticidas, o que já é um erro, posto que camundongos (Mus musculus) embora sejam roedores, não são ratos. A História registra como um dos primeiros rodenticidas a serem empregados pelo homem com a finalidade específica de eliminar roedores, a cila vermelha, uma espécie de cebola que era plantada na região do Mediterrâneo entremeando outras culturas atacadas por roedores; a cila contém um alcalóide, a cilirosida, que é letal para mamíferos de pequeno porte, ainda que de gosto extremamente amargo. Muitos outros ingredientes ativos foram empregados no combate aos roedores, mas que caíram em desuso segundo avançava a tecnologia descobrindo i.a. mais modernos. Poderíamos lembrar da estricnina, do antu, do sulfato de tálio, da norbomida, do arsênico que foram muito úteis a seu tempo; portanto, não vamos discuti-los neste post. Interessa-nos os rodenticidas modernos, os anticoagulantes.
Os rodenticidas anticoagulantes provocam a morte dos roedores que os ingerirem por provocarem hemorragias internas devido à ruptura de vasos capilares, especialmente ao nível do pulmão e do mesentério (um tecido abdominal que segura os órgãos internos em seus lugares). Interferindo no sistema de coagulação sanguínea, o capilar se rompe e não ocorre a formação do coágulo que tamponaria o sangramento; dessa maneira, o roedor vai sangrar até morrer. A morte ocorre geralmente entre o terceiro e o 10˚ dia após a ingestão do produto, mas o pico de mortes situa-se mais entre o terceiro e o sétimo dia. Os rodenticidas anticoagulantes são classificados hoje em: os de dose múltipla (é preciso que o roedor ingira mais de uma dose para verificar-se o efeito) e os de dose única (basta uma dose para causar a morte). Em termos de resultado, o tempo que leva para causar a morte é mais ou menos o mesmo para qualquer um dos grupos e para qualquer i.a. dentro do mesmo grupo, já que o mecanismo de ação é aproximadamente o mesmo para todos. No Brasil podemos encontrar produtos (raticidas) tanto de primeira geração (warfarina, também chamado de cumafeno), cumacloro e clorofacinona), como de segunda geração (brodifacoum, bromadiolone, difetialona e flocoumafen); difenacoum é um i.a. intermediário entre esses dois grupos (é eficaz contra roedores resistentes, mas precisa de mais de uma dose para fazer efeito).
Já que todos esses anticoagulantes agem mais ou menos da mesma forma, a diferença de resultados entre os grupos está na técnica correta de usá-los. Com os de primeira geração (dose múltipla), temos que repor as iscas ingeridas antes de decorrer 48 horas da primeira tomada, pois caso contrário o i.a. será metabolizado e assim não provocará o efeito letal desejado. Com os de segunda geração (dose única) temos que repor a isca não antes de sete dias, para dar o tempo que o i.a. necessita para produzir seu efeito.
Não quero entrar nos detalhes bioquímicos e fisiológicos do mecanismo de ação dos rodenticidas anticoagulantes, pois aí seria demais para um simples blog, mas sugiro ao Jeymisson, e outros leitores interessados, a busca de livros técnicos que abordam esse tema com riqueza de detalhes ou pesquisar pela Internet.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

AS FORMULAÇÕES – Parte IV


Já que comecei, vamos terminar. Falávamos sobre as formulações e agora só falta comentar um pouco sobre as próprias, isto é, sobre as diversas formulações disponíveis em diferentes produtos à venda no mercado brasileiro profissional.
a)Inseticidas aerossóis. Dentro de uma lata pequena, um inseticida líquido (ou pó) é premido e quando se aperta a válvula, o produto sai na forma de uma fina névoa. É a formulação mais empregada nos produtos de venda livre e uso doméstico. Há poucos produtos de uso profissional apresentados nesse tipo de formulação que vêm em embalagens dotadas de prolongador na válvula para que o operador possa tingir pequenas fendas, gretas e nichos.
b)Concentrados Emulsionáveis (CE) ou Emulsões Concentradas (EC), o que é a mesma coisa. São formulações líquidas que contêm o ingrediente ativo (i.a.) mais algum solvente mais um emulsificante (e outros componentes conforme o fabricante). Os CE são misturados à água no momento do uso, formando uma calda esbranquiçada opaca. São fáceis de diluir e misturar, requerem pouca agitação e raramente deixam resíduos visíveis nas superfícies tratadas. Contudo, alguns EC, devido ao solvente utilizado, podem afetar determinadas superfícies. Se o EC escolhido por você lhe for novo, é melhor testá-lo sobre diferentes tipos de superfície antes de empregá-lo extensivamente. Os EC são bastante absorvidos por nossa pele (proteja-se!) e alguns podem ser fitotóxicos (tóxicos para plantas). Em superfícies porosas, são bastante absorvidos e assim diminuem sua eficácia.
c)Pós Molháveis (PM) ou Wettable Powders (WP), o que também é a mesma coisa. São formulações sólidas onde o i.a. vai misturado a um carreador como talco, por exemplo, e um agente umectante (para permitir sua mistura à água). Uma das primeiras vantagens dessa formulação é que ela é menos fitotóxica (por não conter solventes) e dificilmente é absorvida em superfícies porosas, onde vai permanecer ativa, razão pela qual é indicada para tratamentos externos. No entanto, os PM requerem agitação durante a aplicação porque seu peso faz com que o pó dissolvido na água possa decantar e depositar-se no fundo do equipamento comprometendo a aplicação correta. Outra coisa: os PM podem deixar um resíduo esbranquiçado em certas superfícies onde foram aplicados, o que não deixa de ser um problema em interiores. Os PM resistem bem mais a ação da luz solar do que os CE. Outro risco para o operador é que durante a manipulação de um PM ao preparar a calda, ele pode ser absorvido por inalação; alguns PM comerciais já vêm em saquinhos de plástico solúveis em água (feitos de álcool polivinílico), evitando assim esse risco.
d)Suspensões Concentradas (SC). Um artifício químico transforma um PM em uma formulação que pode ser misturada com água e não decanta ou separa. Há poucos produtos SC em nosso país.
e)Suspensões Microencapsuladas (ME ou CS). Através de processos industriais avançados, um i.a. é introduzido no interior de pequenas microcápsulas de uma espécie de nylon e essas pequenas esferas são colocadas em suspensão em água. Confesso, sou um particular fã desse tipo de formulação, pois há inúmeras vantagens no seu uso profissional, ainda que no mercado brasileiro haja bons microencapsulados e outros nem tanto. Tomamos uma certa quantidade do produto microencapsulado e, de acordo com as instruções do rótulo, a diluímos em água. Quando aplicamos essa calda, uma enorme quantidade das microcápsulas (vários diâmetros, mas todos microscópicos, não perceptíveis a olho nu) vai ficar depositada nas superfícies tratadas; pouco depois a água da calda evapora e as microcápsulas (contendo o i.a.) ali permanecem aguardando a passagem de algum inseto. Quando isso ocorre, dezenas e dezenas das microcápsulas adere ao corpo do inseto, sendo dali removidas. O atrito com o corpo do inseto provoca a erosão da parede da microcápsula e seu conteúdo (o i.a.) penetra no tegumento desse inseto, injetando-lhe uma dose mortal do inseticida. Vejo algumas vantagens: os CS não são absorvidos por superfícies porosas; o i.a. perdura no ambiente muito mais tempo que os CE e mesmo os PM, posto que o i.a. estará protegido dentro das microcápsulas, conferindo assim um longo efeito residual ao produto; baixo odor é outra característica dessa interessante formulação.
f)Pós Solúveis (PS ou SP, a mesma coisa). É uma formulação parecida com os PM, mas só que esses pós formam verdadeiras soluções quando misturadas à água. Requerem pouca agitação na forma de calda e deixam resíduos menos visíveis nas superfícies tratadas. Há poucos produtos PS porque há poucos i.a. solúveis em água.
g)Grânulos (G). Quando solúveis em água recebem a denominação de WG. Os grânulos são feitos com diferentes substâncias, mas, curiosamente uma delas, é... espiga de milho! Basta impregnar o carreador com o i.a. Claro que outros componentes entrarão na formulação. Os G, depois de aplicados em calda aquosa, resistem muito bem às adversas condições ambientais mesmo a céu aberto.
h)Pós Secos (P). É o i.a. misturado a algum carreador sólido inerte. São empregados através de polvilhadeiras na forma de pó mesmo. Alguns P podem perder seu efeito quando molhados, mas se continuarem secos têm ótimo efeito residual. Todavia, não são aplicáveis em muitos pontos dos recintos infestados pois deixam um filme aparente do pó.
i)Iscas. É uma formulação muito usada pelos profissionais controladores de pragas especialmente nas infestações por baratas, formigas e cupins. As iscas inseticidas são formadas de um i.a. misturado a alguma substância atrativa para os insetos alvos. Podem ter a forma de grânulos, de géis ou de pastas. Muitos produtos não agem rapidamente, de forma que o inseto afetado pode voltar à sua colônia e contaminar de alguma forma aos demais insetos. As iscas são sempre prontas para usar e não requerem manipulação. Há disponíveis no mercado diferentes equipamentos aplicadores como pistolas, bisnagas e seringas plásticas. São fáceis de aplicar e podem ser removidos quando o controle for atingido. O custo final do tratamento pode ser alto, especialmente porque o efeito de controle das populações infestantes não é atingido rapidamente, requerendo reaplicações.
Muito bem, creio que abordamos pelo menos a principais formulações do mercado nacional. O tema, como vimos, é amplo e há muitas outras coisas envolvidas nas formulações, mas isto aqui não possa de um simples post cujo objetivo é relembrar alguns aspectos do tema, tirar algumas dúvidas e revisar alguns conceitos. Os leitores que sentirem a necessidade de mais informação, devem se reportar a livros técnicos ou pesquisar na Internet, ainda que as fontes sejam, na sua maioria, na língua inglesa.
Acabou!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

AS FORMULAÇÕES – Parte III

Em posts anteriores, estávamos fazendo uma revisão sobre as formulações que o profissional controlador de pragas pode utilizar em seu trabalho. Vimos a importância de uma boa vistoria prévia nas áreas a serem tratadas, o que nos ajudaria a definir que tipo, ou que tipos, de formulação daria o melhor resultado possível. Um pequeno questionário de 10 perguntas iria orientando nossa seleção e, após abordarmos os cinco primeiros itens, eu dizia que ainda faltavam mais cinco. Aqui estão eles:
6) A formulação selecionada tem um bom custo/benefício?
Algumas variáveis devem ser levadas em conta para podermos responder a essa pergunta. Primeiramente considere a diluição do produto e então determine o custo para tratar uma dada área (por exemplo de 100m2 de área tratada ou de uma residência ou de um restaurante, etc). Considere o tempo que pode ser ganho com aquela determinada formulação; economia na mão de obra pode permitir o uso de uma formulação mais cara. Usando tal formulação você pode evitar repasses? Aliás, poucos profissionais levam o indesejável repasse em consideração quando apresenta um orçamento. Quero dizer, não estou recomendando prever repasses no seu preço final, mas sim faça o trabalho de forma que não haja repasses! O produto mais barato nem sempre é o que dará melhor custo/benefício.
7) A formulação mistura-se com facilidade com o diluente ou com outros produtos?
Ao contrário das formulações de uso livre como iscas, pós e aerossóis, os profissionais quase sempre têm que praticar uma mistura de tanque em suas operações. Algumas formulações são mais fáceis de misturar que outras. Formulações líquidas, tais como os EC (ou CE), SC e ME (ou CS) são muito mais usadas que a formulações secas como os PM (ou WP), embora esses pós hoje já possuem solubilidade muito grande e fácil. Se você não tiv er certeza que os inseticidas selecionados se misturem bem, faça uma amostra pequena em um frasco de vidro transparente e observe o resultado; misturou bem, pode usar.
8) A formulação pode escorrer durante a aplicação?
Sabemos que a mão do operador é que determinará se a calda utilizada vai escorrer em uma parede ou não. Isso é básico e não depende da formulação escolhida. Movimentos lentos ou bico do pulverizador muito aberto, provavelmente ocasionarão escorrimento da calda. Bom treinamento do operador devidamente sob supervisão direta de um técnico, pode resolver essa questão. Mas, por incrível que pareça, as condições do tempo pode provocar escorrimento da calda aplicada nas paredes. Se o tempo estiver chuvoso, a alta umidade do ar pode provocar saturação das superfícies a serem tratadas e quando a pulverizarmos, é possível que a calda escorra. Isso é particularmente verdade nas paredes externas. Sob condições adversas, use formulações em grânulos (diluídos) que formando uma calda mais grossa, dificilmente escorrerá.
9) Resíduos visíveis após a aplicação podem ser um problema?
Certas formulações poderão deixar resíduos aparentes após sua pulverização. É o caso de formulações PM (ou WP) em caldas saturadas ou que exijam grandes volumes por unidade de área. Esses resíduos são devidos ao carreador da formulação (talco, cal, etc) que é utilizado pelo fabricante quando produz o inseticida. Naturalmente, esse problema é mais importante em paredes internas, onde nossa preferência deve recais sobre formulações como os EC (ou CE), as SC e as ME (ou CS), minimizando o risco de causar resíduos aparentes. E sempre é bom relembrar: paredes sujas de pós certamente ficarão manchadas após uma pulverização, o que nada tem a ver com a formulação escolhida, mas sim devido ao próprio pó da parede!
10) Há itens legais que possam limitar o uso do biocida?
Jamais use um inseticida sem antes ler cuidadosamente seu rótulo. Isso é fundamental! Se você tiver dúvidas sobre o uso do biocida em determinado local, consulte o fabricante ou seu distribuidor.
Após revisarmos essa lista de 10 itens, fica claro que não existe uma “super formulação” capaz de ser utilizada em qualquer situação, em qualquer lugar e contra qualquer pragas, com máximo custo/benefício. O conhecido “Zé Bombinha” não sabe disso, certamente. Mas, o bom profissional vai utilizar diferentes formulações ao longo do dia de trabalho, sempre com o intuito de obter os melhores resultados possíveis.
Bem, falta comentarmos um pouco sobre as formulações em si. Puxa, como tem coisa que precisamos saber simplesmente para eliminarmos um grupelho de pragas urbanas! No post seguinte desta série, continuamos. Tenha fé, leitor amigo!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

AS FORMULAÇÕES DOS INSETICIDAS- Parte II


Vimos, no post anterior, alguns dos diferentes termos que são empregados nas formulações de biocidas e concluímos que o profissional controlador de pragas deve atentar para os diferentes tipos de formulações. Antes de selecionar a formulação a ser utilizada, é preciso conhecer o local onde temos que efetuar o tratamento contra pragas. Isso parece mais ou menos óbvio, mas a maioria das empresas controladoras de pragas simplesmente não executa uma vistoria prévia atentando para esse detalhe. Acaba empregando o que sempre empregou, não importa onde e como.
Um rápido questionário de 10 pontos a respeito pode servir de guia (check list) para que selecionemos a melhor formulação para uma dada situação:
1) A formulação pode ser empregada em áreas sensitivas?
• Exemplos dessas áreas: hospitais, clínicas e assemelhados, áreas de armazenagem, manipulação ou consumo de alimentos, salas de aula, certas linhas de produção industrial, certas áreas de zoológicos, etc. Alguns cuidados especiais e adicionais devem ser levados em consideração para evitarmos riscos potenciais na utilização de determinados biocidas. Antes de tudo, leia o rótulo e certifique-se de que aquele produto tem indicação para uso na área pretendida. Pulverização de produtos residuais deve ficar na aplicação localizada em frestas e reentrâncias e não devem ser aplicados em dependências ocupadas. Selecione inseticidas de baixo odor (ou mesmo sem odor) e que tenham baixa pressão de vapor. Espera aí, vamos explicar que papo é esse. Um produto que tenha alta tensão de vapor libera odor e o i.a. rapidamente, fazendo efeito rápido sobre os insetos, mas permanecendo no ar ambiente. Um produto de baixa tensão de vapor, será mais lento em seu efeito, mas não irritará tanto a mucosa respiratória dos ocupantes posteriores do recinto. Cappice? Portanto, leia a ficha técnica do produto selecionado (procure nos sites dos respectivos fabricantes) para saber sobre sua tensão de vapor. Em áreas sensitivas, considere a possibilidade de fazer uso de formulações sólidas (iscas, pós, pastas e géis). É mais seguro.

2) A formulação escolhida pode ser fitotóxica (tóxica para plantas)?
• Produtos fitotóxicos são aqueles que causam dano às plantas. Frequentemente, a fitotoxicidade de um inseticida não está no seu i.a., mas vem dos solventes ou outros inertes que entraram na formulação. Se o ambiente for cheio de plantas, será melhor optar por inseticidas que não contenham solventes, tais como as formulações pós molháveis (WP ou PM), SC (Suspensões Concentradas) ou ME (microencapsulados). Devemos evitar as Emulsões Concentradas (EC ou CE). Se tiver que tratar diretamente as plantas, evite fazê-lo sob a luz solar direta ou nas horas mais quentes do dia. Está em dúvida? Experimente aplicar em alguma pequena parte da planta para certificar-se de que o produto não a afeta.

3) A formulação é efetiva contra a praga alvo?
• Independentemente da praga a ser controlada, o princípio básico é aplicar o biocida sobre superfícies por onde a praga possivelmente entrará em contato direto. Leia o rótulo e verifique se a praga infestante está ali listada. Iscas podem ser boa alternativa.

4) A formulação vai ter um bom desempenho nas superfícies onde pretendo aplicar o produto?
• A interação entre a superfície tratada e a formulação escolhida pode influir bastante no resultado final. Para pulverização residual, escolha uma formulação que permaneça ativa na superfície tratada. Estas, podem ser classificadas a grosso modo em: superfícies porosas, semi porosas ou não porosas. Exemplos de superfícies porosas: concreto, madeira não envernizada, gesso, papel e plásticos. As não porosas: vidro, cerâmica e metálicas. As semi porosas: esmalte, látex, vinil e fórmica. Numerosos trabalhos científicos demonstraram que as formulações EC (emulsões concentradas) ou CE (concentrados emulsionáveis) são absorvidas em superfícies porosas e semi porosas, de forma que não ficarão disponíveis para afetar os insetos. As formulações WP ou PM (pós molháveis), as SC (suspensões concentradas), os pós e as ME (microencapsuladas) não são facilmente absorvíveis nas superfícies porosas ou semi porosas, de maneira que ficam mais disponíveis para afetar as pragas alvos. Dessa forma, se a praga alvo for um inseto rasteiro, escolha uma formulação que permaneça na superfície tratada sem ser absorvida. Mas, se a praga alvo é uma daquelas que se esconde sob as superfícies (cupins, brocas, etc) uma formulação EC (ou CE) é a recomendada (diluída em solvente orgânico). Durante a inspeção prévia dos ambientes a serem tratados e antes do tratamento, procure verificar qual o tipo de superfície predominante e identifique a praga alvo, de forma que a escolha da formulação a ser empregada seja a mais adequada. E você pensava que era só ir encostando a barriga no balcão do distribuidor e sair dali com a solução para seus problemas! Ledo engano, amigo!

5) De que maneira os fatores ambientais adversos à formulação vão afetar o biocida (temperatura ambiente, umidade, luz solar)?
• Uma vez aplicado no ambiente, uma série de fatores vão afetar seu desempenho e resultados. Por exemplo, a temperatura ambiente, já foi provado, pode afetar as moléculas do produto; quanto mais alta for, mais afeta o biocida (por termólise). A umidade ataca os biocidas aplicados(por hidrólise), especialmente quando combinada com altas temperaturas, mas isso vai depender do tipo de superfície onde a calda foi aplicada. As altas temperaturas, igualmente, podem aumentar a tensão de vapor de certos i.a. e fazer com que volatilizem mais rápido (menor efeito residual). Correntes de ar fortes produzem esse mesmo efeito. Contudo, certas formulações resistem mais a esses fatores deletérios do que os CEs (ou Ecs); é o caso dos microencapsulados (MS) e dos PMs (ou WPs). Por que estou insistindo nesse fator adverso da temperatura? Porque boa parte dos tratamentos é executada em cozinhas e outros tipos de dependências onde a temperatura ambiente é sempre alta. É preciso estar atento e forte!
Nessa história há ainda mais cinco itens a serem verificados, no sentido de ajudar a escolher a melhor formulação para cada caso, mas vamos deixar essa discussão para o próximo post, OK? Não perca!

NÃO AGUENTO MAIS ISSO!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

AS FORMULAÇÕES DOS INSETICIDAS – Parte I


Posso estar errado, mas não me lembro de nenhum inseticida profissional ou raticida que esteja no comércio na sua forma técnica (100% de concentração do i.a.). O composto puro precisa ser misturado (ou formulado) com outros ingredientes para melhorar suas propriedades como a segurança, a solubilidade, o odor, a resistência a fatores adversos, a eficácia, a facilidade de manipulação ou aplicação, a estocagem, etc. Por isso lança-se mão de diluentes, agentes umectantes, solventes e cossolventes, emulsificantes, surfactantes e outros. E busca-se formulações que beneficiem de alguma forma o i.a. (ingrediente ativo) para tornar o produto bem aceito no (disputadíssimo) mercado dos biocidas de uso profissional. Para os inseticidas, os tipos de formulações possíveis são: concentrados emulsionáveis (CE) ou emulsões concentradas (EC), pós molháveis (PM ou WP), suspensões concentradas (SC), microencapsulados (CS), pós solúveis (PS ou SP), soluções oleosas concentradas, iscas, grânulos (G ou GR) e pós (D). Muitos inseticidas são apresentados no mercado em mais de uma formulação, com o objetivo de dar ao profissional controlador de pragas, opções de escolha. Os raticidas (o certo seria dizer rodenticidas) podem ser iscas, pós de contato e blocos. A legislação brasileira não permite raticidas em formulações de pastas ou géis.
Vamos lá, moçada. Vamos começar explicando, antes de tudo, o que significam certos termos que podemos encontrar tanto nos rótulos dos biocidas, como na literatura que aborda esse tema:
• Ingrediente ativo (i.a.): é a substância responsável pelo efeito letal nos insetos, outros artrópodes e roedores.
• Ingrediente inerte: todo composto encontrado em um produto para apenas dar suporte ao i.a. e que não tenha efeito sobre a praga alvo. São o inertes que “desenham” o produto.
• Material técnico: é o i.a. em sua forma pura (95 a 100% de concentração) assim como foi produzido antes de se tornar um produto comercial. Não há no comércio, creio, nenhum material técnico disponível no Brasil. Isso é adquirido pelos laboratórios produtores que levam ao mercado, produtos com concentrações variadas do i.a.
• Formulação: é a forma com que o biocida é apresentado no mercado para ser adquirido por profissionais controladores de pragas (ou cidadãos comuns quando o produto tem uso livre); é composta do i.a. + ingredientes inertes.
• Adjuvante: é a substância (em um produto pode ser mais de uma) que melhora o desempenho do produto, tais como: solventes, emulsificantes, etc.
• Carreador: é um líquido ou sólido inerte que é adicionado ao produto apenas para carrear o produto até a praga alvo. Exemplos: solventes nos quais o i.a. é dissolvido, grânulos nos quais o i.a. é absorvido, pós nos quais o i.a. é misturado.
• Diluente: é todo material líquido ou sólido usado para diluir o i.a. técnico. Água e querosene são dois exemplos de diluentes para inseticidas líquidos; talco ou dolomita são diluentes comuns nos biocidas pós.
• Solução: é a mistura de uma ou mais substâncias em outra substância (geralmente um líquido) na qual os ingredientes ficam completamente dissolvidos.
• Solvente: é um líquido capaz de dissolver certos compostos químicos.
• Emulsão: é uma mistura na qual um líquido fica suspenso em pequeníssimas gotículas em outro líquido.
• Suspensão: é quando partículas de um sólido ou líquido não miscível ficam dispersas em um líquido (mas não dissolvidas). Em uma suspensão estável, essas partículas não decantam no fundo do frasco.
• Emulsificante: é uma substância tenso ativa que estabiliza uma suspensão de gotículas de um líquido em outro líquido, sem o que eles não se misturariam. É comumente usada para misturar, por exemplo, égua e óleo.
• Há ainda outras substâncias que podem estar contidas em um produto biocida, mas vamos ficar por aqui, mesmo porque isto aqui não é, nem pretende ser, um tratado químico! E chega de “entretantos” para irmos aos “finalmentes”, parafraseando o saudoso coronel Odorico Paraguassu.

A escolha da formulação a ser empregada é tão importante quanto à própria seleção do i.a. que vai ser empregado, razão pela qual o profissional deve estar muito atento para esse detalhe. Uma escolha mal feita pode comprometer o resultado final do tratamento, mesmo que o i.a. seja eficiente contra a praga alvo. Ao contrário, uma formulação bem escolhida para o caso, pode produzir excelentes resultados. Na prática, porém, poucos profissionais estão atentos para esse detalhe e acabam escolhendo o produto que vão utilizar, muito mais pela marca (e o que é pior, pelo preço) do que de maneira analítica, raciocinando qual o tipo mais indicado de formulação naquela determinada situação.
Mas, vamos interromper o post neste ponto, para que nossos leitores possam dar um respiro geral. É muita “massarocada” de uma só vez! Um dia, ainda dou um curso para Responsáveis Técnicos e daí eles vão ver o que é bom para a tosse!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O “CAUSO” DO REI DOS RATOS – Parte II


Então, eu contava o “causo” fantástico do rei dos ratos, sua corte e outras estrepolias relatadas pelo celebérrimo Dr. J.J. nos idos dos anos 70, aquele biologista canadense que achava que este era um país de néscios e que ele iria “fazer a América” por aqui.
Eu disse no post I desta série que voltaria a contar a nossos leitores algumas informações contidas em uma espécie de pequena apostila que continha cópia fiel de um de suas palestras (ainda a possuo), cujo inteiro teor me foi repetido oralmente pelo autor em entrevista ocorrida na Prefeitura de São Caetano do Sul/SP.
Lá pelas tantas, o Dr. J.J. enveredou pela emoção e me contou:- “... vou me deter aqui para falar de um traço que existe entre os ratos, muito chocante; trata-se da solidariedade que existe entre eles. Cita-se, por exemplo, o caso de um bando de ratos que havia emigrado de algum local onde a vida tinha-se tornado difícil para eles. Um velho rato cego tinha entre seus dentes um pequeno pauzinho que estava seguro na outra ponta por um outro rato que lhe servia de guia. Duvidam? Um marinheiro do navio Lancaster diz que viu um rato conduzindo pela orelha outro rato maior que ele e que parecia mais velho. Um terceiro rato jovem, juntando-se a eles, percorria o quarto recolhendo migalhas de biscoito que durante a ceia da véspera haviam caído da mesa e as levava ao rato velho. Este estava cego e não mais conseguia encontrar seu alimento. Uma pessoa entrou nesse momento e os dois ratos jovens soltaram um guincho para advertir o rato cego. (a essa altura eu já estava quase em lágrimas!).
Dissertando sobre o comportamento dos ratos, J.J. saiu com esta:- “... o rato também é temeroso. Constatou-se que durante a guerra de 14/18 um pequeno fato entre tantos: nas enlameadas trincheiras, se um soldado conseguisse capturar um rato vivo, ele o enfiava em brasas quentes a fim de somente chamuscá-lo, mas deixando-o vivo; ao soltá-lo, a trincheira ficava tranqüila por 7 ou 8 dias, pois o rato ao fugir, guinchava tanto que seus congêneres fugiam dali temendo sorte semelhante”. (churrasquinho de rato inacabado = um bom método de controle urbano jamais experimentado!).
E, para terminar, J.J. guardou a grande pérola para o final apoteótico:- “... conta-se sobre a invasão das ratazanas na Europa que estas, encontrando-se impedidas de continuar seu trajeto através do rio Volga, permaneceram anos no lado oriental (atual Rússia). Em um dia muito frio de inverno, os camponeses russos confirmaram que viram dezenas de milhares de ratazanas lançando-se no rio, tendo um galho, uma folha morta ou um pouco de palha entre os dentes, permitindo que boiassem nas águas geladas do rio. Com esse amontoado de ratos juntos, a corrente do rio diminuiu no ângulo que eles haviam escolhido e o frio intenso, agindo, as águas foram tomadas por gelo. Imediatamente, com o sacrifício desses milhares de ratazanas, outros milhares de ratos, sem perda de tempo, chegaram em ondas e atravessaram o Volga rapidamente, invadindo a Europa”. (nesse preciso instante... desmaiei!)
Grande Dr. J.J. Que Deus o tenha e que suas penas por mentirinhas já tenham sido cumpridas!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O “CAUSO” DO REI DOS RATOS


Faz um tempão que não conto um dos “causos” de minha vida profissional, então vou voltar a contar um deles neste post. Trata-se do “causo” do Rei dos Ratos. Corria o início da década de 70 e, na época, eu trabalhava (entre tantos empregos) na Prefeitura de São Caetano do Sul/SP, desenvolvendo e chefiando a Seção que se tornaria a atual Vigilância Sanitária Municipal. Um dia, recebi a visita de duas pessoas interessadas em promover um raticida, um dos primeiros a surgir no mercado brasileiro à base de warfarina (cumafeno). Tratava-se do representante comercial de uma empresa campineira e de Dr. J.J. (omitiremos o nome por razões éticas e mesmo porque esse senhor já deve ter falecido. Se não faleceu, já deve estar para lá de Bagdad com uns 130 anos talvez!). Era um biologista canadense de língua francesa que mal falava português, contratado pela empresa distribuidora para assessorar tecnicamente as vendas. Estou falando de uma época onde bem poucos profissionais neste país entendiam alguma coisa de roedores, assunto então praticamente desconhecido; eu já havia me interessado por esse tema e já havia começado a estudá-lo meio na raça e com grande dificuldade, pois não existiam as facilidades incríveis que a Internet trouxe, décadas depois.
Pois bem, na entrevista, começou o tal de J.J. a discorrer sobre roedores, sequer imaginando que estava conversando com outro profissional que talvez já conhecesse um pouco do assunto. À medida que palrava, ia se entusiasmando e eu mais me mostrava interessado, posto que os disparates que ele contava como se verdade fossem, muito me divertia. Em um dado momento, ele começou a falar da existência de diversos reis dos ratos, afirmando que ele próprio havia sido testemunha ocular do encontro de alguns desses reis. Ao final da divertida entrevista recebi, das mãos do representante comercial da empresa, um verdadeiro tesouro: uma pequena cópia impressa de uma palestra do Dr. J.J. sobre ratos, a qual sempre guardei como preciosidade até a presente data. Vou reproduzir fielmente alguns trechos desse opúsculo, apenas corrigindo um pouco o português para torná-lo mais compreensível:
Dizia Dr. J.J.:- "... e nós mesmos tivemos a ocasião de encontrar em uma cova na Província de Quebec no Canadá, exatamente em Granby, uma corte do rei dos ratos. Assim chamamos a um conjunto insólito de uma vintena de ratos atados todos pelas caudas e vivendo assim por anos. A que se destinava essa corte, nós perguntávamos. À reprodução? Seus aparelhos genitais eram particularmente desenvolvidos. À comandar? Seus cérebros eram muito mais volumosos que os ratos normais. Não temos respostas” (nessa altura, interrompi o relato perguntando se ele havia tirado uma foto dessa corte ao que ele negou).
E J.J. continuava explicando com cara séria:- “... eu vos descrevo esses indivíduos: eles medem 72 cm de altura, em média pesando 2,800 a 3kg, com pelos longos de 6 a 7cm, embranquecidos pela idade (caramba, pensei, se eu um dia me visse diante de um rato desses, ia sair correndo!).
Acrescentou ele, percebendo meu interesse: “... Essa corte de 20 ratos estava deitada em um leito de lã picada e ao redor dela encontramos cerca de 800 cadáveres mais ou menos de ratos enormes, os quais, ainda que menores, não pesavam menos de 2kg cada um. Alguns desses ratos tinham um aparelho digestivo um tanto especial: eles tinham um estômago de refluxo... pensamos que esses ratos deveriam comer primeiro o alimento destinado aos seus senhores e devolviam o deglutido a seus mestres que, assim, não tinham nenhum esforço a fazer. Seria isso uma espécie de geléia real? Pensamos que sim, pois esses ratos deitados tinham, segundo nossos exames, 35 anos de idade.” (A essa altura, eu já estava sem fala!)
E J.J. arrematou com voz grave e expressão séria, em tom de ameaça quase:- “... eu penso que existe em todas as cidades do Brasil, um rei dos ratos” (Pronto, pensei! Eu estava frito. Minha pequena São Caetano com um rei e sua corte de 20 ratos!). Mas, para meu alívio, aduziu: “... a confirmação ainda não foi feita, pois eles são extremamente difíceis de serem achados. Aquele de Granby, estava a 16 metros do nível da terra embaixo de um segundo porão de uma casa, em uma cova de 1,80m de altura e 3m de diâmetro, com condutores de ar que mediam até 65m de comprimento e com sifões que impediam a inundação da cova”. (Mas que imaginação tinha o gajo! Desde aquele momento até hoje, acho que essa apostilazinha daria em um excelente roteiro para um filme de ficção e terror)
Essa entrevista durou umas duas horas, se lembro. Talvez um pouco mais, pois eu me mostrava propositalmente fascinado. Com certeza eles já estavam dando como certa a venda de um zilhão de toneladas do tal raticida para minha Prefeitura. Ficaram até hoje de mãos abanando, ainda que eu renda minhas justas homenagens póstumas ao Dr. J.J. por sua extraordinária capacidade imaginativa. Nunca encontrei em toda minha vida profissional, alguém com criatividade parelha a daquele senhor. Bem, na verdade encontrei, mas sobre esse honroso segundo lugar, falarei algum dia, depois que ele falecer, obviamente!
E nesse ritmo a entrevista continuava com o J.J. acrescentando novas e incríveis pérolas de conhecimento sobre roedores. Mas, volto ao assunto outro dia e lhes conto. Aguarde.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOBRE OS INSETICIDAS – PARTE III


Terceiro capítulo dessa emocionante novela “Os inseticidas”. No capítulo anterior, vimos que os IGRs (Insect Growth Regulators), também conhecidos como Reguladores do Crescimento dos Insetos, entravam em cena à galope, desfraldando a bandeira dos inseticidas politicamente corretos, auto sustentáveis, ecológicos, entre tantas bandeiras da modernitude.

IGR (inibidores do crescimento dos insetos):- constituem um moderno grupo de inseticidas, único por afetarem unicamente os processos metabólicos dos insetos e não de mamíferos. Um tipo de IGR, os Juvenóides, interfere no crescimento de insetos por imitar a presença do hormônio natural juvenil (JH), cuja ausência deflagra, na Natureza, o crescimento (e mudança) para a fase seguinte. Os insetos afetados pelo hormônio juvenóide sintético, podem apresentar retardos no desenvolvimento, mudanças de coloração da quitina, efeitos ovicidas (ovos não eclodem), adultos estéreis, asas atrofiadas e impossibilidade de mudança de fase acarretando a morte. Formam um segundo grupo de IGRs, os inibidores da síntese da quitina (a proteína essencial para formar o exoesqueleto dos insetos). Esse grupo interfere na formação de uma enzima sintetizadora da quitina, necessária para a formação de nova cutícula que ocorre a cada mudança de fase do inseto na Natureza. Resulta uma quitina mal formada, incapaz de suportar a pressão atmosférica e de sustentar a musculatura do inseto que, assim, morre na próxima mudança de fase. Ambos os grupos apresentam baixa toxicidade para mamíferos, pássaros, peixes e outras espécies não alvos. Alguns IGRs disponíveis no mercado são:
• Metoprene: um juvenóide que foi o primeiro IGR a ser comercializado, introduzido em 1975 para o controle de mosquitos. Apresentava rápida degradação na água e luz solar, problema contornado através de formulações mais resistentes e de lenta liberação (brickets). Usado em focos larvários com sucesso, mas não afeta pupas. Usado em aerossóis contra pulgas, apresenta longa vida residual.
• Hidroprene: muito ativo contra baratas e pragas de grãos. Introduzido na metade dos anos 80s, o hidroprene permite que as ninfas das baratas atinjam a idade adulta, mas esses adultos geralmente apresentam asas malformadas e são incapazes de se reproduzirem. Não afetando ninfas, o hidroprne destina-se a um controle a médio e longo prazo (entre quatro e seis meses), razão pela qual geralmente o hidroprene é empregado em associação a algum inseticida de efeito mais rápido.
• Fenoxicarb: introduzido no mercado nos final dos anos 80s, esse juvenóide foi utilizado para controlar baratas, pulgas e formigas fogo. Hoje é mais empregado apenas contra formigas.
• Piriproxifen: é um juvenóide de amplo espectro, ativo contra grande variedade de insetos (cupins, moscas, baratas, pulgas, mosquitos, etc). Tem longa vida residual. Pode ser associado a outros inseticidas quando se deseja um efeito mais rápido.
• Diflubenzuron: um inibidor de quitina, começou combatendo pragas agrícolas em 1976, é praticamente não tóxico para aves, mamíferos peixes e abelhas, mas é muito tóxico para invertebrados aquáticos. Hoje é muito utilizado na forma de iscas contra cupins.
• Hexaflumuron: outro inibidor da síntese de quitina, da família da benzoil-ureia descoberta em 1981 pela DowElanco. Não tem odor e apresenta alta solubilidade em água. Baixa toxicidade para mamíferos, aves e peixes, mas afeta invertebrados aquáticos. É empregado com sucesso contra cupins subterrâneos.

Neonicotinóides (ou clorocotinis): é um grupo moderno de inseticidas com mecanismo de ação diferente. No final dos anos 70s, químicos da Shell investigavam compostos denominados nitrometilenos que pareciam ser inseticidas potenciais e já em 1979, cerca de 2.000 compostos nitrometilenos estavam sendo estudados como inseticidas. Em 1985 a Bayer japonesa sintetizou a imidacloprid que mostrou-se ativa contra uma série de insetos. Na esteira, vieram outros neonicotinóides como o thiametoxan, o acetamiprid, o tiacloprid e o nitempiran.
• Imidacloprid:- essa molécula tem registro em mais de 120 países e é usada tanto em ambientes urbanos como agrícolas. Afeta grande variedade de insetos como moscas, besouros, cupins, pulgas, formigas e baratas. A imidacloprid é muito solúvel em água, não é volátil e é estável quando exposta à luz solar em terreno seco. É virtualmente sem odor nas formulações e atua nas sinapses nervosas do inseto, impedindo a acetilcolina de atuar no transporte do estímulo nervoso. No Brasil, foi introduzida no mercado na forma de isca contra moscas.
• Thiametoxan:- com mecanismo de ação semelhante ao imidacloprid, mas ocupando os dois sítios de acoplagem da acetilcolina que transporta o estímulo nervoso de neurônio para neurônio, esse composto apresenta resultados formidáveis no combate a moscas principalmente, embora possa ser empregado contra baratas. No Brasil já está sendo introduzido em diferentes formulações inseticidas com ótimos resultados, pela Novartis/Syngenta.

Sulfonamidas fluoralifáticas: por enquanto só há um composto representante desse grupo, muito utilizado contra formigas, baratas e iscas de cupins.
• Sulfluramida:- tem ação retardada o que permite que o biocida seja transferido de um inseto para outro na colônia (efeito dominó). É um inibidor metabólico para os insetos, de toxicidade oral e dermal baixa para mamíferos e levemente tóxico para peixes a artrópodes aquáticos.

Amidinohidrazonas: grupo representado pela hidrametilnona, sintetizada em 1977 pela American Cyanamid.
• Hidrametilnona:- entrou no mercado do controle de pragas em 1980 em várias formulações para o controle de baratas, formigas e cupins na forma de isca. Atua inibindo a formação do ATP (trifosfato de adenosina), responsável pela produção de energia dentro das células. Foi descoberto que a hidrametilnona encontrada nas fezes das baratas que ingeriram o produto, é capaz de eliminar outras baratas que ingerirem essas fezes (coprofagia é coisa corriqueira na Natureza). No mercado há formulações em pasta e gel.

Fenilpirazóis: outro grupo que tem apenas um representante já comercializado e que tem mostrado bons resultados contra mais de 500 espécies de insetos e ácaros (urbanos e rurais). Descoberto em 1987, começou a ser produzido comercialmente em 1993 e tem registro em mais de 100 países.
• Fipronil:- age por contato e/ou ingestão, afetando o sistema nervoso ao bloquear os canalículos de sódio do sistema nervoso central. Não sendo repelente aos cupins, o fipronil pode ser transferido a outros membros da colônia. Fluidos produzidos por baratas afetadas podem matar outras baratas que os ingerirem (efeito dominó). Também é bastante eficaz contra formigas e mesmo carrapatos. Disponível na forma de iscas de pronto uso, géis, pastas e líquidos para pulverização.

Avermectinas: são inseticidas derivados do fungo Streptomyces avermitilis, um microorganismo que vive no solo.
• Abamectina:- o fungo que a produz foi isolado em 1970 por pesquisadores da Merck a partir de solo coletado no Japão e dele foram isoladas quatro avermectinas de composições diferentes; a chamada abamectina tem 80% de avermectina A com 20% da avermectina B. Vida bem curta (24 horas) quando exposta ao sol, apresenta toxicidade baixa para animais não alvos e paralisa os mecanismos de alimentação do inseto, provocando-lhes a morte. É usada para controlar baratas, mas ainda não há nenhum produto domissanitário com esse i.a. disponível no mercado brasileiro.
Há outros compostos e outros grupos de menor importância no controle urbano de pragas que nao serao abordados neste post.

Não se pode falar de inseticidas sem abordar a questão das formulações, já que um determinado i.a. pode apresentar perfil bastante diferente conforme a formulação em que seja apresentado. Mas, isso será tema de outro post, OK?
Dá um tempo, meu!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

SOBRE OS INSETICIDAS – PARTE II

Seguindo o que estávamos comentando na primeira parte deste tema, vamos falar um pouco sobre o grupo dos inseticidas orgânicos.
Inseticidas Sintéticos Orgânicos: é o maior grupo de inseticidas usado por controladores de pragas profissionais em nossos dias. Compreende: os organoclorados, os organofosforados, os carbamatos, os piretróides, os IDIs (Inibidores do Desenvolvimento dos Insetos), a sulfonamida fluoralifática, a amidinohidrazona, os fenilpirazóis e as vermectinas. Um pouquinho sobre cada classe.
Os organoclorados:- na molécula de todos eles há carbono, cloro e hidrogênio e foi o primeiro grupo dos inseticidas orgânicos sintéticos, ou seja, produzidos artificialmente pela indústria, marcando o ponto de virada na nossa eterna luta para controlar pragas (urbanas e agrícolas). Vejam a matéria que publicamos sobre o DDT aqui neste blog. Em boa parte dos países, a maioria desses compostos já está proibida, especialmente em zona urbana, como o próprio DDT, o aldrin, o BHC, o dieldrin, o lindane, o clordane e o heptaclor).
Os organofosforados:- na molécula há átomos de carbono, de hidrogênio e de fósforo. Comparados aos clorados, os fosforados são menos estáveis, mais voláteis e de ação mais rápida; outra característica: têm odor mais desagradável (problema resolvido nas formulações microencapsuladas). Atuam nos insetos inibindo a colinesterase, uma enzima responsável pela transmissão do estímulo nervoso nas conexões das células nervosas. Intoxicações acidentais podem ser tratadas com sucesso através de antídotos como o sulfato de atropina. Alguns organofosforados estão sendo alvo de preocupações ambientalistas e estão sendo banidos em muitos países do uso urbano ou em recintos fechados, como é o caso do diazinon e do malation. O clorpirifós foi muito utilizado por apresentar ótimos resultados em um amplo espectro de pragas. Atua por contato, ingestão e ação de vapor, com moderado efeito residual. A Dow Química introduziu vários produtos da linha Dursban no Brasil, à base de clorpirifós. Atualmente o clorpirifós tem seu uso restrito a áreas abertas. O diazinon, outro organofosforado muito empregado anteriormente e com muito sucesso, hoje também está sofrendo restrições e caminha para a proibição de uso, assim como o propetanfós. Dos organofosforados, o que tem vida comercial bem longa é o diclorvós (DDVP) porque sua meia vida é muito curta e se degrada no ambiente após ser aplicado, em não mais de 72 horas.
Os carbamatos:- a extinta Ciba-Geigy foi a empresa que no final dos anos 50 sintetizou os primeiros carbamatos que eram igualmente inibidores da colinesterase nos insetos, mas tinham caráter de reversão em caso de intoxicação acidental. O melhor exemplo desse grupo foi o carbaril, hoje em desuso, seguido do bendiocarb. Ainda em uso está o metomil desde 1966, ainda muito empregado contra moscas em diferentes formulações. O propoxur tem características interessantes, especialmente empregado na forma de aerossóis em produtos de uso doméstico.
Os piretróides:- sintetizados a partir dos piretros (hoje com poucas semelhanças), o primeiro deles foi a aletrina e o grupo tem algumas características interessantes que o tornou muito empregado nos tratamentos profissionais contra pragas em ambiente urbano, embora apresentem certos problemas: têm ação rápida e efeito desalojante, são tóxicos para insetos mesmo em pequenas concentrações de uso, têm baixa toxicidade para mamíferos, têm odor relativamente baixo, são relativamente fotoestáveis e pouco voláteis (exceto os primeiros que surgiram) o que lhe concede uma meia vida relativamente longa em torno de algumas semanas, têm baixa solubilidade em água, podem causar irritações cutâneas nos operadores que trabalham desprotegidos, são tóxicos para peixes e podem causar repelência em certos insetos sob determinadas condições de emprego. Depois da aletrina (primeira geração de piretróides) veio a segunda geração (tetrametrina, resmetrina e bioaletrina). Seguiu-se a terceira geração (fenvalerato e permetrina) e a quarta (beta-ciflutrina, bifentrina, ciflutrina, cipermetrina, deltametrina, esfenvalerato, lambdacialotrina, para citar os i.a. já comercializados no Brasil). A cada nova geração, o perfil do grupo foi sendo aperfeiçoado em determinadas características. Os piretróides estimulam o sistema nervoso dos insetos que passa a produzir repetidas descargas elétricas nas células nervosas, provocando paralisia e morte (ação sobre os canalículos de sódio da bainha das células nervosas)
Os IGRs (Insect Growth Regulators ou Reguladores do Crescimento dos Insetos): vamos parar por aqui e retomamos no próximo post, OK?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

SOBRE INSETICIDAS – PARTE I


Já faz algum tempo que tenho vontade de escrever um post sobre os inseticidas em geral. Ensaio, postergo, me preparo, adio e nunca começo. Hoje, resolvi escrevê-lo. Não esperem nenhum tratado científico sobre o assunto, posto que isto aqui é um mero blog cuja intenção é a de trazer aos leitores um pouco de assuntos técnicos de forma leve e abrangente. Pretendo muito mais relembrar certas matérias, discuti-las, repassar e dar um passeio sobre os temas que posto (será que em bom português já existe o termo postar no sentido de colocar no ar via internet alguma coisa?).
Nenhum ramo do fértil e complexo campo do conhecimento humano sobre o controle de pragas caminhou mais rápido e mais fundo do que os inseticidas, nestes últimos 50 anos. Novos compostos químicos tornam-se rapidamente conhecidos devido à agilidade da Internet, com sua sempre crescente rede de “sites da web” (cada vez mais temos que engolir esses galicismos porque se tornam termos universais até mesmo antes de ganhar alguma tradução), sejam das indústrias, das universidades, dos distribuidores, das agências governamentais, sejam mesmo de blogs como este. Ao lado dos novos compostos que vão sendo disponibilizados de forma comercial, outros se vão, descontinuados por seus produtores ou proibidos por decisões regulatórias das agências governamentais. Vocês sabiam que de cada 10.000 novas moléculas químicas pesquisadas apenas uma chega à fase comercial e que, de sua sintetização até sua comercialização, leva um tempo médio de oito a 10 anos?
Já percebi que este post vai longe e que vamos ter que dividi-lo em partes para publicação! Mas, vamos lá!
Gosto do termo “biocida” para designar uma substância ou composto capaz de eliminar pragas; gosto e o uso com freqüência. Acho melhor que praguicida (um tanto agrícola para meu gosto). Para mim, o termo biocida compreende tanto os inseticidas (e outros específicos como acaricidas, mosquicidas, pulicidas, fungicidas, escorpionicidas, etc), como os rodenticidas (ou raticidas). Portanto, inseticida é um biocida específico destinado a eliminar insetos, embora possa ser empregado (com sucesso) contra outros artrópodes como aranhas, escorpiões, carrapatos, milípedes e ácaros (todos não insetos).
Os inseticidas são definidos por sua fórmula química e ganham nomes comuns quando na fase de comercialização. Por exemplo: um composto cuja fórmula química é ciano (4-fluoro-3-phenoxifenilo) metil 3 (2,2-dicloroetenil) -2,2- dimetilciclo –propano -carboxilato ganha o nome comum de apenas... ciflutrina! Ainda bem!
Há várias classificações e grupos que podem juntar moléculas do mesmo tipo ou que tenham alguma similaridade. Por exemplo, podemos agrupar os inseticidas quanto à rota de penetração nos insetos; dessa forma teremos inseticidas de contato, de ingestão ou de inalação. Cada inseticida pode penetrar no inseto por uma ou mais rotas, sendo a mais comum, o contato. Ou podemos classificá-los pelo tempo de ação: fulminantes ou residuais. Há alguns que devido sua alta tensão de vapor, volatilizam-se com facilidade e o vapor gerado já é letal para o inseto se inalado; ex: DDVP (ou diclorvos) que atua em minutos. Entre os residuais, posso citar aqueles que são formulados como microencapsulados (CS), com longa duração de meses.
Para efeito deste post, vamos agrupar os inseticidas em cinco grandes tipos: Os inseticidas inorgânicos, os botânicos, os orgânicos, os bioinseticidas e um grupo de miscelânea.
Inseticidas inorgânicos: muito em voga antes da Segunda Grande Guerra (1939-1945), esses compostos eram quase todos de origem mineral e não tinham nenhuma molécula de carbono em suas fórmulas. Os mais conhecidos eram os compostos de Bóro, destacando-se o ácido bórico. Seu interesse está longe de ter morrido, pois além de sua baixa toxicidade para mamíferos, não induz resistência em insetos. Sua desvantagem é que leva um tempo considerável para atuar (de sete a 10 dias) no inseto que com ele se contaminou. É usado na forma de pó e age por contato e ingestão. A Sílica Gel e a Terra Diatomácea são outros inseticidas inorgânicos ainda utilizados no controle de pragas urbanas sob certas circunstâncias. Ambas são derivadas da sílica amorfa (a sílica gel é fabricada a partir da areia e a terra diatomácea provém de depósitos de diatomita, forma fossilizada de uma pequena planta denominada diatoma). Em tempo: como disse há muitos posts atrás, adoro cultura inútil!
Inseticidas botânicos: derivados de plantas. Os mais conheci dos são os piretros que geraram, sinteticamente, os piretróides(sobre os quais falaremos mais adiante). O ácido crisantêmico, a origem desse grupo, foi isolado a partir de certas linhagens de crisântemos, flores sobre as quais, foi observado, nenhum inseto se atrevia a pousar. Mais cultura inútil: essas flores foram usadas para repelir insetos (especialmente voadores) na Pérsia e na Dalmácia (atual Iugoslávia) em priscas eras. Os piretros são ainda hoje, muito utilizados em todo o mundo para controlar insetos profissionalmente. Sabem de onde vem a maior produção de piretro contido nos crisântemos? Do Quênia e da Tasmânia. Mas há grande produção de crisântemos também na Tanzânia, em Ruanda, na Nova Guiné e até no Equador. Como alguns piretros podem produzir apenas um efeito de choque em certos insetos que após um lapso de tempo se recobram, passou-se a adicionar aos produtos à base desses compostos, algumas substâncias sinergistas (aumentam o efeito) como o butóxido de piperonila, por exemplo. Os piretros são inseticidas de contato de baixa toxicidade para mamíferos e quase não têm efeito residual, porque se degradam rapidamente sob ação da luz. Contudo em áreas escuras e protegidas, seu efeito pode alcançar até duas semanas. Geralmente seu efeito fulminante é forte, além de serem irritantes para insetos como baratas, produzindo o chamado efeito desalojador.
Temos que falar agora dos inseticidas orgânicos sintéticos, mas vamos fazê-lo no próximo post, OK?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

E ATENÇÃO, ATENÇÃO: JÁ SÃO 40.000 VISITAS A ESTE BLOG!


Assim de mansinho, como quem não quer nada, chegamos à casa das 40.000 visitas a este blog. Nada mal, nada mal! Neste mundo de dupla troca, sempre quisemos as visitas de nossos leitores, posto que o blog do Higiene Atual foi criado com esse intuito. Em troca, oferecemos posts sobre assuntos de interesse dos profissionais controladores de pragas e outras variedades, sempre em linguagem informal e tom leve. Foi assim que caímos no gosto de nossos leitores e a exatamente dois anos de sua criação, nosso blog comemora sua quadragésima milésima visita, com muito orgulho. Os novos leitores podem acessar na coluna da esquerda uma relação enorme de diferentes palavras chaves e por ali buscar os posts já publicados sobre o tema que lhes interessar, rápido e rasteiro. Os antigos leitores, já sabem disso. Há também uma coluna à esquerda de perguntas e respostas, mas ambas com um número limitado de espaço. Portanto, perguntas concisa e respostas idem. Todavia, nessa coluna tem um monte de entradas de visitantes que não têm nada o que fazer e enviam mensagens “papo furado” em inglês ou em suas línguas natais. Não querem dizer nada e apenas ficam enchendo lingüiça e nada podemos fazer contra essa perda de tempo, pois a coluna é aberta. De qualquer forma, essa coluna ali está para que nossos leitores realmente interessados possam se comunicar conosco. Façam uso quando desejarem. Complementando esse lado esquerdo do blog, há uma coluna de visualização “on line” dos visitantes que acessam o blog, de onde são e o que buscam. Praticamente todos os dias esse contador mostra que há acessos até de outros países mesmo que não sejam lusofônicos. Interessante!
Então, por aqui vamos comemorando a marca das 40.000 visitas prometendo outra comemoração quando chegarmos às 50 mil. OK?
O Editor

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

REMINISCÊNCIAS

Caramba! Estou ficando maduro! Eu disse cronologicamente maduro, não desatualizado, antes que alguém me venha com essa! Percorri um longo e gostoso caminho até aqui nestes 42 anos de profissão, foi um longo e detalhado aprendizado, todos os dias. Olhando bem até, tenho a convicção de que contribui de diferentes formas para a evolução deste ramo de conhecimento do controle de pragas e ainda tenho um punhado de idéias que precisariam ser testadas. Com prazer leio e escuto falar sobre os novos avanços tecnológicos e novas pesquisas. Em um desses momentos, conversava por internet com uma amiga bióloga dessa “velha guarda” quando ela citou a Pasta Zélio, um antigo raticida da Bayer muito popular há décadas atrás, desbancada pelo surgimento das 4-hidroxicumarinas. A partir daí, entre risadas eletrônicas, começamos a lembrar alguns produtos que existiam no arsenal do combate às pragas em nosso país e que fizeram parte do nosso cotidiano daqueles tempos. Especialmente para os mais jovens, mas também para delícia dos “old timers”, resolvi montar um post falando daqueles produtos antigos que tão bons serviços nos prestaram.
A chamada “revolução industrial”, iniciada por volta do ano 1800, possibilitou incríveis avanços tecnológicos a partir da produção em massa de uma série infindável de produtos. A indústria química ganhou especial atenção no campo fabril. A obtenção de matérias primas sintéticas a partir dos subprodutos do carvão, nitrogênio e fosfatos fez crescer as possibilidades de múltiplos e novos usos. Entrava-se no século XX com a visão de universo totalmente transformada pelas possibilidades que se apresentavam pelo avanço tecnológico. A química era tida como uma ciência que transpunha todos os problemas do mundo moderno. Neste ambiente de desenvolvimento industrial, principalmente nas suas últimas décadas, houve um crescimento desenfreado e desmedido na utilização de produtos químicos pelo homem, por conta dos benefícios que se pretendiam obter com os mesmos, algumas vezes acarretando prejuízos tanto ao meio ambiente como à sua própria saúde e que se faz sentir até os dias atuais. A propaganda, seja em cartazes, seja em anúncios e cartões-postais, tinha papel primordial nesse contexto. De modo geral, os produtos procuravam conquistar o consumidor, especialmente aqueles que nunca tinham tido a possibilidade de desfrutar de um padrão de vida melhor: cura de doenças, controle de pragas (especialmente insetos e ratos), limpeza mais eficiente, menos esforço nos afazeres domésticos... A grosso modo, podem ser distinguidos dois tipos de propaganda: a que valorizava a eficácia frente a uma determinada situação, até mesmo exacerbando suas qualidades, com omissão aos perigos do uso indevido ou de manipulação por pessoas inabilitadas (crianças, principalmente) e a que mostrava as virtudes do produto por meio de uma história fictícia que envolvia e convencia o consumidor a adquirir o mesmo. A sedução era o “segredo” para conquistar novos consumidores, com “boas doses de exagero” prometendo, muitas vezes, confortos e regalias que não se verificavam com o tempo. Existiram também propagandas curiosas de produtos que passavam a idéia de que a Química tinha o poder de criar produtos inesgotáveis, no caso, uma falsa qualidade do produto, como atesta o trecho a seguir: “os melhores banhos são os de cascatas onde a água nunca se acaba... e os banhos mais deliciosos são tomados com o sabonete Vale Quanto Peza, o sabonete que também nunca se acaba”.
Já que falamos, vamos começar pela velha Pasta Zélio (nunca descobri a razão desse nome) cujo ingrediente ativo era o sulfato de tálio, que era fabricada e distribuída pela Bayer lá pelas décadas de 40 e 50. Soube que a Pasta Zélio era formulada como uma pasta verde (para se colocar em algum alimento apetecível pelos ratos) e em grânulos (isca).
Peguei o finalzinho da comercialização desse produto, porque a própria Bayer o descontinuou quando lançou seu raticida Racumin na década de 50 no Brasil, um hidroxicumarínico bem mais seguro que o sulfato de tálio. Soube que no México, a Pasta Zélio ainda é comercializada, não sei por qual empresa fabricante.
Outro produto bem conhecido desde tempos idos é o ácido bórico (ou bórax), disponível em cristais incolores ou sob a forma de pó branco. Eclético, o ácido bórico era usado como inseticida, como antissético em pequenas feridas ou queimaduras, como adubo e até como reatardante de chamas. Como inseticida atuava na forma de pó contra pulgas e cupins; misturado com algum atrativo, como o açúcar de confeiteiro, era ótimo contra formigas doceiras e baratas. Relativamente pouco tóxico, pouco mais que o sal de cozinha (DL50 de 2.660mg/kg) era largamente utilizado nos ambientes domésticos. Lembro-me de uma propaganda veiculada via rádio que dizia (com voz de japonês): “Massinha miragrosa, mata as balatas de sua casa”. Vendia muito, antes do surgimento das pastas e géis baraticidas à base de hidrametilnona e fipronil.
E quem se lembra do Neocid? Era uma pequena lata que continha um pó branco; a lata era fechada e continha um orifício lateral recoberto por um selo colado. Bastava remover o selo e prmer a lata no ponto indicado e saia um borrifo de pó. Pertencia à Ciba-Geigy e o i.a. era o DDVP. Existe ainda hoje e seu descendente atual é o Neocid Mortein pó contra formigas e pulgas (da Reckit Beckinser), à base de carbaril (um carbamato). O velho Neocid era muito utilizado pelas mamães para eliminar piolhos da cabeça de seus pimpolhos. Polvilhava os cabelos, punha um pano envolvendo a cabeça e aí o deixava por uma hora; removia o pano e todos os piolhos estava mortinhos da silva! Depois era só passar um pente bem fino (qualquer farmácia o vendia) para remover a lêndeas (ovos). Grande Neocid. Nunca ouvi falar que alguma pessoa tivesse se intoxicado com ele! Injustiçado, como o velho DDT.
Outro velhinho é o Verde de Paris, o nome popular de um composto descoberto em 1808, o Aceto Arsenito de Cobre, um pó de cor verde intenso que começou a ser comercializado em 1814, não como praguicida, mas sim como um mero pigmento para tintas; em 1814 descobriu-se que as tintas que levavam esse composto eram tóxicas e muitos pintores foram envenenados por esse pigmento sendo ele completamente banido das tintas. Apenas em 1867 o Verde de Paris foi introduzido no combate a pragas, inicialmente utilizado o escaravelho da batata. Em 1900 era usado em tão larga escala que levou o governo dos Estados Unidos da América a estabelecer a primeira legislação no país sobre o uso de insecticidas e o heróico verde de Paris foi proscrito.
Quem ainda se lembra do Detefon? Quero dizer, o antigo, porque ele ainda está à venda nos supermercados e assemelhados (é da Reckit Benckiser). Falo daquele que vinha em latinhas de 500 ml e que precisava de uma bomba manual para ser aplicado. Falo daquele cuja propaganda dizia que ele era eficaz contra mosquitos (pernilongos) da malária, da febre amarela, do tifo, das baratas e pulgas, pois ele era o anunciado “mata tudo”, expressão que só foi proibida pela Anvisa em 1997. O primeiro fabricante foi o Laboratório Fontoura e, depois, a Anakol comprou seus direitos; tornou-se extremamente popular na década de 50 devido seus ótimos resultados. Detefon continha DDT (por isso é que matava tudo mesmo) até a proibição desse organoclorado.
Falando em Detefon, me lembrei do FLIT, lançado para uso doméstico em 1923. Tratava-se de um óleo mineral, derivado do petróleo, indicado para combater mosquitos ao ser aplicado através de uma bomba manual tão popular que podia ser encontrada em qualquer biboca que se prezasse. A propaganda do Flit no Brasil usava o mesmo soldadinho de túnica vermelha empunhando a bomba do produto.
Lá na gaveta das lembranças primevas, ainda tem outros produtos como o Neguvon e outros. Mas isso vai ficar para outra vez.

sábado, 10 de dezembro de 2011

POSSÍVEIS NOVOS BIOINSETICIDAS

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A Internet abriu um mundo fantástico diante de nossos olhos (e cérebros). Aquele que se dispuser a navegar em busca livre de alguma informação, vai se surpreender com a imensa quantidade disponível de sites, blogs, citações, livros, artigos publicados e assemelhados que podem ser consultados ao alcance de um clique em seu computador. Outro dia, busquei uma informação em que estava interessado e o Google me informou que havia mais de 15.000 locais onde a informação desejada poderia ser acessada! Nem que eu fosse mágico conseguiria consultar todas as fontes localizadas, por isso me limitei a acessar duas ou três e já me dei por satisfeito.
Em um desses passeios livres, encontrei um artigo que me interessou. O autor falava de algumas pesquisas e certas descobertas que poderiam ser promissoras na busca de novos biocidas. Achei que os leitores do Higiene Atual poderiam se intressar por esse tema, juntei mais alguma coisa que já havia buscado e escrevi este post.
O autor (John Brown) começa afirmando que o homem nunca sintetizou um inseticida cujo mecanismo de ação não ocorresse na Natureza. A maioria dos inseticidas sintéticos tem modo de ação similar a aqueles que ocorrem em plantas, animais, minerais ou micróbios. Certas espécies de crisântemos (flores) produzem defesas contra herbívoros (piretrinas). A criolita é um mineral que apresenta propriedades inseticidas. A delta-endotoxina do micróbio Bacillus thuringiensis faz com que insetos parem de se alimentar. O cartape é um exemplo de uma secreção defensiva animal que apresenta propriedades inseticidas. Certos inseticidas sintéticos podem ser modelados a partir de alguns hormônios naturais de insetos (reguladores do crescimento de insetos – IGR). Portanto, não é de admirar que certos enzimas encontrados nos insetos, como as quitinases, estejam sendo estudadas como possíveis inseticidas.
Achei isso muito interessante! As quitinases são enzimas que degradam a quitina (proteína) que recobre o exoesqueleto dos insetos, mas tamb´[em estão presentes no mundo vegetal. Trata-se de um polímero formado por longas cadeias repetidas de açúcar constituindo complexas moléculas. Certas plantas desenvolveram quitinase para se defenderem do ataque de fungos, mas também podem atuar na resistência contra insetos. Por exemplo, sementes de cereais contêm substanciais quantidades de quitinases (0,01%); essa quantidade podem defender a semente do ataque de fungos, mas claramente é insuficiente para evitar o ataque de insetos nos grãos armazenados. As quitinases vegetais podem atacar a membrana quitinosa do esôfago do inseto, bem mais fina que sua quitina da carapaça. Essa membrana tem no máximo 12% de quitina e um ataque enzimático poderia resultar em severa abrasão que provocaria no inseto imediata cessação da capacidade de se alimentar. Pesquisadores envolvidos na busca de novos inseticidas, têm se voltado ao estudo das quitinases. Os Drs.Kramer e Muthukrishnan da Universidade de Kansas publicaram interessante trabalho nesse estudo (biologia molecular) onde estudavam diferentes quitinases de diferentes origens e o código do DNA de certas quitinases foram clonados e inseridos em plantas. Essas plantas transgênicas são então criadas com tecnologia similar à da criação das plantas já disponíveis no mercado que contêm o gene da delta-endotoxina (do Bacillus thuringiensis). As quitinases podem aumentar o efeito da delta-endotoxina, porque atacam o trato digestivo de insetos, aumentando o efeito da delta-endotoxina.
Portanto, no futuro, poderemos ter quitinase como aditivo da delta-endotoxina no produto à base de B.thuringiensis que hoje compramos, por exemplo, resultando em efeito altamente potencializado. A pesquisa não para, amigos!